Cidade
Pedido de auditoria amplia pressão por respostas sobre crise da Santa Casa
por Melissa Louçan
A crise da Santa Casa ganhou mais um desdobramento nesta quarta-feira, quando o prefeito de Bagé, Luiz Fernando Mainardi, protocolou junto à Superintendência Estadual do Ministério da Saúde um pedido formal de auditoria nas contas da instituição. O documento, encaminhado ao ministro da Saúde, solicita uma análise detalhada da situação financeira e administrativa do hospital, que enfrenta atrasos nos pagamentos a médicos, incertezas sobre a manutenção de serviços e uma dívida que, segundo informações apresentadas pelo prefeito, ultrapassaria R$ 100 milhões.
Para Mainardi, a auditoria é necessária para esclarecer a origem e a dimensão dos problemas enfrentados pela instituição. “É necessário que haja uma total verificação das contas da Santa Casa, para que se saiba exatamente o que está acontecendo lá dentro”, afirmou. O prefeito defendeu, ainda, maior transparência sobre receitas, despesas, quadro funcional e modelo de gestão do hospital.
O pedido ocorre em um momento de forte tensão em torno do futuro da Santa Casa. Nesta semana, o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) anunciou a suspensão, a partir de 15 de junho, dos atendimentos eletivos realizados por médicos vinculados ao hospital. A medida foi motivada pelos atrasos remuneratórios que, segundo a entidade, chegam a nove meses.
A repercussão da decisão levou Mainardi a fazer um desabafo público nas redes sociais. Em vídeo divulgado nesta semana, ele apresentou os relatos de dois pacientes que aguardam procedimentos pelo sistema de regulação. Um deles espera há mais de um ano por uma cirurgia de próstata e segue trabalhando mesmo convivendo com uma bolsa para drenagem urinária. A outra paciente aguarda desde outubro do ano passado uma cirurgia considerada urgente após sofrer um AVC e enfrentar episódios recorrentes de hemorragia.
Ao comentar os casos, o prefeito afirmou que “a dor não pode esperar” e cobrou providências dos governos estadual e federal para reduzir as filas de procedimentos especializados e garantir atendimento à população.
A situação enfrentada atualmente pelo hospital é resultado de um processo que vem se agravando desde 2025. Em maio daquele ano, a direção da Santa Casa apresentou à Prefeitura um diagnóstico das dificuldades financeiras enfrentadas pela instituição. Em setembro, anunciou a redução de serviços em razão do déficit acumulado e iniciou uma série de medidas de contenção de gastos.
As mudanças começaram a ser implementadas em outubro. Um mês depois, a instituição informou redução de 29% nos atendimentos do pronto-socorro após a reorganização dos fluxos assistenciais. Ao longo deste ano, os reflexos da crise passaram a atingir áreas consideradas estratégicas, especialmente a obstetrícia, levando a Coordenadoria Regional de Saúde a elaborar um plano de contingência para assegurar atendimento às gestantes em caso de interrupção dos serviços.
Em paralelo às dificuldades financeiras, a Santa Casa também busca reforço de recursos. Conforme resolução da Comissão Intergestores Bipartite (CIB/RS), publicada em 9 de junho, o hospital solicitou ao Ministério da Saúde um incremento anual de R$ 25,53 milhões no teto de Média e Alta Complexidade (MAC). O pedido foi fundamentado em estudo técnico elaborado pela própria instituição e tem como objetivo garantir a manutenção dos serviços especializados.
A crise também mobilizou lideranças políticas em Brasília. O deputado federal Afonso Hamm informou que está articulando apoio junto ao governo federal para buscar alternativas que auxiliem o hospital. Segundo o parlamentar, a iniciativa busca “amenizar a grave crise financeira que ameaça paralisar as atividades da Santa Casa de Caridade de Bagé”, incluindo a tentativa de viabilizar a liberação de emendas parlamentares.

