Região
O lixo que Bagé descarta é a energia que Candiota produz
por Márlon Castro Posqui
Por Márlon Posqui, Acadêmico de Jornalismo da Urcamp
Enquanto grande parte da população enxerga o lixo apenas no momento em que ele é recolhido pelos caminhões de coleta, uma complexa estrutura de engenharia, monitoramento ambiental e geração de energia trabalha diariamente para dar destino adequado a milhares de toneladas de resíduos produzidos no sul do Rio Grande do Sul. É o que acontece no aterro sanitário da Meioeste, em Candiota, que atualmente recebe resíduos de 42 municípios e se tornou referência regional na destinação final de resíduos sólidos urbanos.
Instalado em uma antiga cava de mineração de carvão, o empreendimento alia técnicas de impermeabilização, captação de gases, monitoramento ambiental e geração de energia elétrica a partir do biogás produzido pela decomposição dos resíduos.
Segundo o encarregado do aterro, Gesiel Silveira, a escolha da área foi estratégica. O local era uma cava abandonada pela mineração, considerada um passivo ambiental. Em vez de abrir uma nova área, a empresa reaproveitou a estrutura já existente. “Era uma área de aproximadamente oito hectares e cerca de 40 metros de profundidade. Aproveitamos esse espaço e transformamos um passivo ambiental em uma solução para a destinação de resíduos”, explica.
Para garantir a segurança das águas subterrâneas, a cada três meses, laboratórios realizam análises para verificar a sua qualidade. O monitoramento do lençol freático acontece por meio de piezômetros (instrumento que mede a pressão da água e o nível do lençol freático) instalados ao redor da célula do aterro. A base da célula recebe sistemas de drenagem para condução das águas pluviais, camadas compactadas de argila vermelha e, posteriormente, uma geomembrana de alta resistência.
A instalação da manta impermeabilizante é realizada por empresas especializadas e licenciadas. O material passa por testes rigorosos de soldagem e resistência antes de ser aprovado pelos órgãos ambientais. “Tudo é acompanhado por engenheiros, laboratórios e pela Fepam. Cada etapa precisa ser documentada e aprovada antes da próxima fase”, destaca Silveira.
Além da geomembrana, uma nova camada de proteção é instalada sobre a lona. O sistema funciona como uma barreira dupla de segurança, evitando que o chorume tenha contato com o solo mesmo em situações extremas.
Segundo Gesiel, a operação utiliza padrões inspirados em modelos europeus, principalmente no que diz respeito à drenagem, impermeabilização e captação de gases. “Aterro sanitário é uma estrutura muito mais complexa do que as pessoas imaginam. Existe uma série de materiais específicos, projetos, monitoramentos e sistemas de segurança para garantir que tudo funcione corretamente”, afirma.
Entre os materiais empregados estão tubulações de polietileno de alta densidade (PAD), capazes de suportar grandes cargas e resistir à corrosão e ao envelhecimento. Parte da tecnologia utilizada no aterro foi trazida pelo supervisor geral, Pietro Bosco, engenheiro italiano que atua há mais de quatro décadas na área de gestão de resíduos.
Do lixo à energia elétrica
Uma das principais características do aterro é a geração de energia elétrica a partir do biogás produzido pela decomposição dos resíduos orgânicos. O sistema funciona por meio de dezenas de poços instalados no interior do aterro. Esses poços captam os gases gerados naturalmente pela decomposição do lixo, principalmente o metano.
As linhas de captação convergem para três estações de regulagem, onde são realizados ajustes de vazão e qualidade do gás. Depois disso, o biogás segue para a central de tratamento. No local, o gás passa por processos de resfriamento, retirada de umidade e filtragem antes de ser enviado aos motores geradores.
A usina possui dois motores austríacos de um megawatt cada, capazes de produzir aproximadamente dois megawatts de energia por hora. O combustível utilizado é exclusivamente o biogás captado no próprio aterro.
A energia gerada é injetada na rede elétrica e comercializada no mercado livre para empresas que buscam compensar suas emissões ambientais por meio da aquisição de energia renovável. Atualmente, a produção consome cerca de 24 mil metros cúbicos de biogás por dia.
Próximo passo: produção de biometano
Embora a geração de energia elétrica seja uma das atividades mais importantes do empreendimento, a empresa já planeja um novo avanço tecnológico: a produção de biometano. O combustível é obtido a partir da purificação do biogás, elevando a concentração de metano de cerca de 50% para até 99%.
Segundo Pietro Bosco, o biometano possui valor de mercado superior ao da energia elétrica e pode ser utilizado para abastecer caminhões, tratores e outros veículos movidos a gás. A expectativa é que, futuramente, os próprios caminhões responsáveis pelo transporte dos resíduos possam ser abastecidos com combustível produzido a partir do lixo que transportam, fechando um ciclo de economia circular.
Tratamento de chorume recebe investimento milionário
Outra frente de investimento é o tratamento do chorume, líquido gerado pela decomposição dos resíduos. A empresa está finalizando a instalação de uma moderna planta baseada em tecnologia de osmose reversa, importada de Portugal. O equipamento, avaliado em cerca de R$ 12 milhões, é considerado um dos mais avançados do país.
O sistema utiliza membranas especiais capazes de remover contaminantes do líquido, produzindo um efluente tratado com alto padrão de qualidade ambiental. A operação será praticamente toda automatizada e monitorada remotamente por especialistas. A expectativa é que a unidade entre em funcionamento ainda neste ano.
Bagé envia 110 toneladas diárias de lixo
Atualmente, o aterro recebe resíduos de 42 municípios da região Sul do Estado, incluindo Bagé, Dom Pedrito, Pelotas, Rio Grande, Jaguarão, Canguçu e São José do Norte.
A movimentação diária gira em torno de mil toneladas de resíduos, podendo ultrapassar 1,3 mil toneladas em períodos de maior geração, como o verão, quando cidades litorâneas registram aumento populacional devido ao turismo.
Para os gestores, a regionalização é fundamental para a sustentabilidade econômica da operação. Segundo Pietro Bosco, manter um aterro sanitário exige investimentos elevados em máquinas, monitoramento ambiental, impermeabilização, geração de energia e tratamento de efluentes. “Um aterro pequeno custa praticamente o mesmo que um grande. Por isso, a regionalização é o caminho para garantir viabilidade econômica e qualidade ambiental”, observa.
Como Bagé está na fita?
Pietro Bosco defende que a destinação adequada depende de estruturas regionalizadas e tecnicamente operadas. Segundo ele, a situação de Bagé é marcada pela existência de um modelo que considera inadequado. Ao ser questionado sobre o município, respondeu de forma direta, argumentando que a manutenção de aterros próprios por municípios de porte médio ou pequeno é economicamente inviável, devido aos altos custos de implantação, licenciamento, maquinário e operação.
Bosco também comentou que um transbordo adequado deveria funcionar em um galpão fechado, com piso impermeabilizado, drenagem e coleta dos líquidos gerados pelos resíduos. O engenheiro afirmou que, ainda em gestões passadas, a empresa chegou a oferecer apoio técnico para melhorar a estrutura do local, mas o projeto não avançou.
Para Pietro, a solução mais eficiente para municípios como Bagé é a regionalização da destinação final dos resíduos, concentrando o atendimento em grandes aterros sanitários com capacidade para receber lixo de dezenas de cidades. Ele argumenta que estruturas maiores conseguem diluir custos operacionais e investir em tecnologias ambientais que seriam inviáveis para uma única prefeitura.

