Cidade
Bajeense leva produção gaúcha ao Festival de Veneza com estreia mundial de “London”
Filmado em Porto Alegre e produzido pelas empresas Proa & Popa Produções e pela Balde de Tinta, o longa tem distribuição no Brasil da Retrato Filmes
por Márlon Castro Posqui
A produtora bajeense Laura Moglia comemora um dos momentos mais importantes da carreira com a seleção de "London" para a Settimana Internazionale della Critica (Semana da Crítica), mostra competitiva da 83ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza, na Itália. A estreia mundial do longa-metragem está marcada para 6 de setembro, em sessão de gala com a presença da equipe.
Fundadora da Proa & Popa Produções, criada em 2019, Laura assina a produção do primeiro longa-metragem da empresa, que alcança um marco histórico ao integrar uma das mostras mais prestigiadas do cinema mundial. O filme foi escrito e dirigido por Victor Di Marco e Márcio Picoli, com filmagens realizadas em Porto Alegre e distribuição no Brasil pela Retrato Filmes.
Para a produtora, a notícia da seleção é resultado de uma trajetória construída ao longo de quase uma década. "Foi um sentimento surreal. É difícil encontrar palavras para descrever. London é um sonho coletivo. Trabalhamos no projeto há praticamente 10 anos, com muitos obstáculos, mas com a escolha diária de continuar acreditando, mesmo quando tudo parecia impossível", afirma.
Natural de Bagé, Laura destaca que a cidade foi fundamental para sua formação artística e para a maneira como enxerga o cinema. "Crescer em Bagé me ensinou a olhar e sentir antes de aprender a interpretar. Foi aqui que desenvolvi um olhar mais 'inocente' — não ingênuo, mas preservado da velocidade e do excesso que tantas vezes endurecem nossa percepção do mundo. Aprendi a encontrar beleza nas coisas simples, a observar as pessoas com curiosidade e afeto e a entender que toda vida guarda memórias invisíveis", diz.
Segundo Laura, a presença de uma produção independente gaúcha em Veneza também simboliza o fortalecimento da descentralização do audiovisual brasileiro. "O cinema brasileiro vive um momento de grande visibilidade internacional, e London reafirma que obras de relevância artística podem surgir muito além dos grandes centros de produção. Para o Rio Grande do Sul e, especialmente, para Bagé, essa seleção representa um marco histórico. É a demonstração de que produtoras independentes e realizadores comprometidos com uma linguagem autoral podem ocupar os principais palcos do cinema mundial", destaca.
A Settimana Internazionale della Critica é dedicada exclusivamente à descoberta de novos talentos e seleciona apenas sete longas-metragens por edição. Neste ano, *London* marca o retorno do Brasil à mostra após cinco anos sem um longa brasileiro selecionado. "Levar um filme de uma produtora nascida em Bagé para uma vitrine como essa é também levar a força da diversidade cultural gaúcha, da produção independente e de todos os profissionais que acreditam que as nossas histórias podem emocionar e dialogar com espectadores do mundo inteiro", afirma.
História e personagens
Na trama, London (protagonizado pelo diretor e roteirista Victor Di Marco) é um jovem com deficiência que ganha a vida fazendo performances eróticas em uma casa de fetiches e tem a oportunidade de descobrir a origem e o futuro de sua deficiência por meio de um exame médico. Com os resultados em mãos, ele terá de decidir se sua vida será guiada por um diagnóstico ou pelos próprios sonhos. Ao se deparar com um mundo míope e distorcido em relação à sua presença, o protagonista precisará reinventar forças para se libertar e descobrir quem realmente é.
A obra propõe uma reflexão sobre deficiência, desejo, identidade e liberdade, questionando discursos capacitistas e apresentando corpos que existem para além das limitações impostas pela sociedade. O elenco é formado por Victor Di Marco, Carla Cassapo, Jéssica Teixeira, Pedro Bertoldi, Priscilla Colombi, Emilio Farias e Manu Thedy. A direção de arte é de Valeria Verba. Bruno Polidoro assina a direção de fotografia, e a trilha sonora é de Vito O. Azevedo.
Para os jovens bajeenses que sonham em trabalhar com cinema, Laura deixa uma mensagem de incentivo. "Eu diria para não permitirem que o lugar onde nasceram defina até onde podem chegar. O cinema é uma arte feita de encontros e afeto, mas também de persistência, curiosidade e olhar. Bagé pode parecer distante dos grandes centros da indústria, mas foi justamente vivendo aqui que aprendi a observar o mundo com mais sensibilidade e a entender que as histórias mais belas nascem das particularidades de cada um. Estudem, assistam a filmes de diferentes lugares, leiam, criem, conheçam pessoas e não tenham medo de começar com os recursos que têm", conclui.

