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Saúde

Quando comer vira um desafio: as dificuldades alimentares na infância

Seletividade alimentar, sensibilidades sensoriais e experiências negativas podem tornar as refeições difíceis para as crianças e impactar toda a rotina familiar.

Em 26/07/2026 às 04:05h
Miquéli Romero

por Miquéli Romero

Quando comer vira um desafio: as dificuldades alimentares na infância | Saúde | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Para a nutricionista Verônica, ainda existe muito desconhecimento sobre as dificuldades alimentares. Foto: Divulgação

Para algumas famílias, o momento das refeições está longe de ser tranquilo. Recusas constantes, preferência por poucos alimentos, resistência a determinadas texturas e dificuldades para experimentar novidades podem transformar o ato de comer em uma fonte diária de preocupação e estresse.

De acordo com a nutricionista Verônica Bittencourt, quando se fala em dificuldades alimentares na infância, o termo engloba qualquer situação que torne o ato de comer difícil para a criança. As causas podem ser diversas e nem sempre são facilmente percebidas pelos adultos. “Algumas crianças apresentam uma sensibilidade sensorial aumentada. Para um adulto, uma textura que parece comum pode ser extremamente desagradável para elas”, explica.

Segundo a nutricionista, também existem crianças com dificuldades motoras orais, que podem tornar a mastigação difícil ou pouco eficiente, além de casos em que a alimentação é associada a desconfortos físicos, como refluxo, prisão de ventre, alergias ou outras alterações digestivas. As experiências vividas pela criança também podem influenciar sua relação com a comida. Episódios de engasgo, pressão para comer ou momentos de tensão durante as refeições podem fazer com que ela desenvolva medo e insegurança diante dos alimentos.

Entre as dificuldades alimentares, a seletividade é uma das mais comuns. Nesses casos, a criança aceita um número muito reduzido de alimentos ou apresenta preferências rígidas relacionadas a texturas, cores, temperaturas, marcas ou formas específicas de preparo. O impacto, porém, vai muito além do prato. As dificuldades alimentares podem interferir no estado nutricional, na rotina da família e até na participação da criança em festas, passeios e refeições fora de casa.

A criança não come apenas porque está com fome

Uma das principais orientações para as famílias é evitar a pressão. Obrigar, insistir excessivamente ou transformar a refeição em um momento de cobrança pode aumentar a resistência e tornar a experiência ainda mais negativa.

A recomendação é que as refeições ocorram em um ambiente tranquilo, com horários organizados e sem distrações, como televisão e celular. Envolver a criança na escolha dos alimentos, nas compras e no preparo das refeições também pode despertar a curiosidade e favorecer a aproximação com novos alimentos.

Mesmo diante da recusa, é importante continuar oferecendo diferentes opções, sem cobranças. Muitas vezes, a criança precisa ter contato repetido com um alimento para desenvolver confiança e, gradualmente, aceitá-lo.

Para Verônica, ainda existe muito desconhecimento sobre as dificuldades alimentares. Muitas famílias convivem diariamente com refeições estressantes sem saber que existe tratamento e acabam ouvindo que a criança é "teimosa" ou "birrenta", ou ainda que "quando tiver fome, vai comer".

“Comer não depende apenas da fome. Para que uma criança consiga se alimentar bem, várias habilidades precisam funcionar em conjunto. Ela precisa mastigar corretamente, engolir com segurança, tolerar diferentes cheiros, sabores e texturas, sentir-se segura emocionalmente e ter uma experiência positiva durante as refeições”, explica.

Por isso, dizer que uma criança "não come porque não quer" pode ser injusto. Muitas vezes, ela gostaria de conseguir se alimentar como outras crianças, mas enfrenta obstáculos que nem sempre são visíveis para os adultos.

Terapia alimentar pode ajudar

As dificuldades alimentares são frequentes em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente em razão de alterações sensoriais e da necessidade de previsibilidade. No entanto, Verônica reforça que crianças sem qualquer diagnóstico também podem apresentar dificuldades na alimentação. É nesse contexto que a terapia alimentar pode desempenhar um papel importante. O trabalho é realizado de maneira gradual e acolhedora, respeitando o tempo e as características de cada criança.

Durante as sessões, o alimento não precisa ser imediatamente colocado na boca. A criança pode começar observando, tocando, cheirando e participando do preparo de receitas. À medida que desenvolve confiança e segurança, pode se aproximar gradualmente do ato de experimentar e comer. “Falar sobre dificuldades alimentares é uma forma de levar informação e esperança às famílias. Quanto mais cedo essas crianças forem identificadas e acompanhadas, maiores serão as chances de desenvolver uma relação saudável com a alimentação”, destaca a profissional.

A orientação, portanto, é que os pais observem os sinais e procurem ajuda quando a alimentação se tornar uma fonte constante de estresse, quando a criança aceitar poucos alimentos ou quando as recusas começarem a limitar sua rotina e participação social. Reconhecer que existe uma dificuldade é o primeiro passo para buscar estratégias e acompanhamento adequados.

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