Saúde
Entre telas e descobertas, a importância de cuidar da visão das crianças
Oftalmologista orienta sobre a importância do diagnóstico precoce, os sinais de alerta e os cuidados com o uso das telas durante a infância
por Miquéli Romero
A visão é uma das principais formas pelas quais as crianças descobrem e interagem com o mundo. Por isso, acompanhar o desenvolvimento visual desde os primeiros meses de vida pode fazer diferença não apenas no diagnóstico de doenças, mas também na qualidade de vida e no desempenho escolar ao longo dos anos.
De acordo com a médica oftalmologista Renata Vitral Domingues, da Oftalmopampa, o acompanhamento oftalmológico pode começar ainda nos primeiros meses de vida. A orientação é que a criança seja avaliada a partir dos seis meses de idade. Para prematuros, crianças que nasceram com baixo peso ou que possuem alguma doença preexistente, o acompanhamento pode ser ainda mais precoce e frequente.
Nos últimos meses, Renata relata ter atendido casos de doenças que, embora não sejam tão comuns na rotina do consultório, exigem atenção e diagnóstico precoce, como glaucoma congênito, catarata congênita e suspeita de retinoblastoma, um tipo de tumor que pode se desenvolver no olho da criança.
Para a oftalmologista, o aumento dos encaminhamentos realizados por pediatras demonstra uma maior atenção à saúde ocular infantil. O diagnóstico precoce é fundamental, especialmente em doenças que podem comprometer a visão. “Quanto mais cedo a gente diagnostica esse tipo de problema, melhor é o prognóstico e maiores são as chances de a criança ter boa visão e qualidade visual no futuro”, destaca.
Atenção aos sinais
Algumas doenças oculares podem apresentar sinais visíveis para pais e responsáveis. No caso do glaucoma congênito, por exemplo, a criança pode apresentar um olho com aspecto mais opaco ou esbranquiçado, além de aumento do seu tamanho. “Geralmente, a criança pode ter um olho mais opaco, uma visão meio perdida, um olho mais esbranquiçado e um olho grande, diferente do outro. Ou pode ser nos dois olhos”, explica Renata.
Além desses sinais, os pais também devem observar o comportamento da criança no dia a dia. Dificuldade para enxergar, baixo rendimento escolar, aproximar-se demais para ler ou assistir à televisão, piscar excessivamente e coçar os olhos com frequência podem indicar a necessidade de uma avaliação oftalmológica.
A médica também alerta para a importância de procurar um oftalmologista para a avaliação e a prescrição de óculos. Segundo ela, o acompanhamento deve ser realizado por um médico especialista, capaz de identificar corretamente as necessidades da criança.
“Às vezes, colocam óculos que a criança nem necessita ou com um grau maior do que ela precisa. A primeira coisa que a gente indica é trazer a criança nessa fase escolar e fazer a avaliação com um oftalmologista”, orienta.
A janela de desenvolvimento da visão
A infância é um período fundamental para o desenvolvimento da visão. Entre os três e os sete anos, o sistema visual ainda está em processo de amadurecimento. Por isso, alterações identificadas nessa fase podem ser tratadas com maiores chances de sucesso.
Uma das condições que pode ser diagnosticada durante a infância é a ambliopia, popularmente conhecida como "olho preguiçoso". Ela ocorre quando um dos olhos apresenta dificuldade para desenvolver adequadamente a visão.
O tratamento pode envolver o uso de óculos e tampão, dependendo de cada caso. A estimulação visual durante os primeiros anos é essencial. “Se a gente consegue fazer essa estimulação do cérebro e do olho até os sete anos, a criança tem uma chance muito maior de ter uma visão normal do que aquela que a gente atende depois dos sete anos”, explica a oftalmologista.
Após esse período, a capacidade de desenvolvimento da visão pode ser reduzida, tornando mais difícil reverter determinadas alterações. A oftalmologista também ressalta que nem todos os problemas de visão são reversíveis. A miopia, por exemplo, tende a ser progressiva e pode aumentar ao longo dos anos. Já alguns casos de astigmatismo relacionados ao esforço visual e ao uso excessivo de telas podem apresentar melhora com o tratamento adequado e a redução do tempo de exposição.
O impacto das telas
O uso excessivo de celulares, tablets, computadores e outros dispositivos eletrônicos é, atualmente, uma das principais preocupações relacionadas à saúde ocular infantil.
Segundo Renata, a recomendação é que crianças de até dois anos não tenham contato com telas. Entre dois e cinco anos, o uso deve ser limitado a aproximadamente uma hora por dia. Já entre seis e dez anos, a orientação é de até duas horas diárias. Para adolescentes, o limite pode chegar a cerca de três horas por dia, sempre considerando a necessidade de pausas e hábitos saudáveis.
A distância também é importante. A orientação é manter o aparelho a, pelo menos, 30 centímetros dos olhos, evitando o uso em ambientes totalmente escuros ou debaixo das cobertas.
O excesso de telas pode contribuir para o desenvolvimento e a progressão da miopia. A médica explica que, tradicionalmente, a condição era associada principalmente à hereditariedade, mas o aumento do tempo dedicado a atividades que exigem visão de perto e a redução do contato com ambientes externos têm ampliado a preocupação entre especialistas. “Nos últimos congressos, a nossa maior preocupação é com a miopia. A gente está vendo uma progressão muito grande nas crianças por conta do uso excessivo das telas”, afirma.
Além da exposição às telas, o ambiente também pode influenciar o desconforto ocular. Durante o inverno, o uso de lareiras e estufas pode deixar o ar mais seco e contribuir para sintomas como ressecamento e coceira nos olhos. Em casos de alergia ou irritação, a recomendação é não utilizar colírios por conta própria. “O olho é muito sensível e não dá para usar qualquer coisa, principalmente nas crianças”, alerta a oftalmologista.
Mais do que esperar o surgimento de sintomas, o acompanhamento oftalmológico durante a infância permite identificar alterações precocemente e monitorar o desenvolvimento da visão. Para os pais, observar o comportamento da criança e manter as consultas em dia são atitudes simples, mas que podem fazer diferença para que ela enxergue o mundo com mais qualidade.

