Cidade
Guasqueria reúne gerações no primeiro Encontro de Guasqueiros Jesus Veloso
Evento realizado no Parque do Gaúcho durante o final de semana valoriza a arte em couro e mostra que o ofício também pode ser profissão
por Miquéli Romero
O couro, as ferramentas e muitas histórias reuniram guasqueiros de diferentes municípios no primeiro Encontro de Guasqueiros Jesus Veloso, realizado no sábado (15), no Centro de Eventos do Parque do Gaúcho Dimas Costa, em Bagé. A programação, que segue hoje, conta com exposição de trabalhos, oficinas, demonstrações e troca de experiências entre mestres, novos artesãos e admiradores da cultura campeira.
A iniciativa nasceu de uma ideia antiga do guasqueiro bajeense Clair Almeida, de 56 anos, que trabalha profissionalmente com cordas há cerca de 20 anos. Segundo ele, a vontade de reunir os profissionais existe há aproximadamente uma década.
A relação de Clair com o ofício, porém, começou muito antes. Desde jovem, esteve ligado às cordas e à vida campeira. Trabalhou em estância e, posteriormente, passou a se dedicar profissionalmente à atividade. Ao longo dos anos, conheceu outros guasqueiros e ampliou seus conhecimentos, até transformar a antiga vontade de reunir os profissionais em realidade. “Bagé é uma cidade que tem muito guasqueiro, mas não tinha uma reunião como essa”, afirma.
O trabalho também é compartilhado dentro de casa. A esposa de Clair participa da produção das peças e é responsável pela parte de costura, dividindo com ele as etapas do processo artesanal.
A proposta, construída com o apoio do guasqueiro Danrlei Correia, de Pelotas, é justamente criar um espaço para aproximar os profissionais, compartilhar técnicas e incentivar novas gerações. Para Danrlei, que há três anos vive exclusivamente da guasqueria, o encontro também mostra que é possível transformar a tradição em profissão.
Ele começou aos 13 anos, quando um padrinho o levou até um guasqueiro em Canguçu, que lhe ensinou a fazer o primeiro botão. Anos depois, aprimorou as técnicas com outros artesãos e passou a trabalhar exclusivamente com couro.
Para o coordenador do Parque do Gaúcho, Tiago Cesarino, sediar a primeira edição do encontro representa também uma oportunidade de fortalecer uma cadeia produtiva que nem sempre encontra espaços para se reunir e compartilhar saberes. “Não tem muita forma de tu aprender esse ofício senão conversando com outros guasqueiros, trocando informações, compartilhando conhecimento”, destaca.
Segundo Cesarino, o evento contribui para fortalecer a guasqueria enquanto atividade ligada à economia criativa e reforça o papel do Parque do Gaúcho na preservação da cultura e da arte campeira.
Memória que atravessa gerações
Um dos momentos de maior significado é a homenagem à família de Jesus Veloso, que dá nome ao encontro. O filho Alvaristo Veloso conta que o pai dedicou cerca de 40 anos à atividade e foi responsável por transformar técnicas tradicionais em trabalhos com maior elaboração artística.
A guasqueria também atravessa a própria família Veloso. O conhecimento passou do bisavô para o avô, depois para Jesus e chegou aos filhos.
Alvaristo, que completa 40 anos de trabalho com couro, vive da atividade junto com o irmão. Ao longo da carreira, suas peças chegaram a diferentes estados brasileiros.
“Viver de arte é uma coisa que é muito admirada, mas nem sempre valorizada”, destaca.
Para ele, o encontro representa uma oportunidade de dar visibilidade ao ofício e manter vivo o legado do pai, falecido em 2009.
Do ofício à profissão
A história de Fábio Fischer, de 26 anos, mostra uma outra face da guasqueria. Sem ter crescido ligado à cultura campeira, ele conheceu o trabalho com couro há cerca de oito anos, inicialmente buscando uma fonte de renda.
Começou produzindo peças nas horas vagas, enquanto trabalhava como recepcionista. Quando a renda obtida com o couro passou a superar o salário do emprego, decidiu viver exclusivamente da atividade.
Hoje, além de produzir, Fischer prepara e comercializa couro e outros materiais para guasqueiros, atendendo clientes no Brasil, Uruguai e Argentina.
“Eu hoje me digo mais empreendedor do que guasqueiro em si”, explica.
Para ele, encontros como o realizado em Bagé são importantes para aproximar clientes e artesãos, valorizar as peças e permitir que novas pessoas conheçam o trabalho.
A experiência dos mestres
Aos 78 anos, Aníro Rodrigues é um dos guasqueiros mais antigos de Bagé. Trabalhou durante décadas com couro, inicialmente como atividade complementar ao trabalho em estância e, posteriormente, como profissão.
Ele acompanhou a chegada dos materiais sintéticos e das novas ferramentas, mas permaneceu fiel ao couro cru.
“Eu só segui a linha do couro cru, sempre”, conta.
Hoje, observa com atenção os novos artesãos e reconhece que as técnicas também evoluíram. Se antes o trabalho era feito praticamente apenas com marreta, curador, cravador e faca, atualmente algumas etapas contam com máquinas.
É justamente essa troca entre gerações que o encontro pretende estimular.
O guasqueiro Alexandre Rosa, de São Lourenço do Sul, que participou da programação com palestra e oficinas, considera a guasqueria um dos grandes patrimônios culturais da região pampeana. Para ele, ainda existe uma lacuna na valorização do ofício, e encontros como o de Bagé ajudam a fortalecer a atividade.
“A gente se encontra, troca experiências, troca estímulos e renova forças para continuar na luta pela preservação e pelo crescimento desse ofício”, resume.
Uma semente para os próximos anos
O primeiro Encontro de Guasqueiros Jesus Veloso chega ao fim neste domingo (16), mas a intenção dos organizadores é que a iniciativa seja apenas o começo. Para Clair Almeida, a primeira edição representa uma “semente” para que o encontro se torne anual e reúna, a cada edição, mais artesãos, aprendizes e admiradores da atividade.
Mais do que expor peças de couro, o evento revela o conhecimento que existe por trás de cada trabalho: horas de dedicação, técnicas aprendidas com outros mestres e histórias que atravessam gerações.
Em um cenário de avanço dos materiais industrializados, reunir quem mantém técnicas tradicionais também significa preservar um saber que faz parte da identidade campeira. No encontro, diferentes trajetórias se cruzam: quem aprendeu com o pai, quem encontrou um mestre pelo caminho, quem cresceu no campo e quem descobriu na guasqueria uma profissão.
Para Clair, essa troca é justamente o que pode garantir a continuidade do ofício.
A programação deste domingo começou cedo e segue até a tarde, com mateada às 14h e encerramento às 15h, com show de Augusto Camargo.

