Minuano Conecta
A história ensinada pelo solar espanhol
Clarisse Ismério Historiadora, Doutora em História do Brasil. Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp Coordenadora do Curso de Pedagogia da Urcamp
por Melissa Louçan
Quando contemplamos o majestoso Solar da Sociedade Espanhola, percebemos que sua arquitetura vai além da função estética: ela constitui uma verdadeira narrativa histórica esculpida em pedra. A riqueza de sua ornamentação permite compreender aspectos da cultura, da identidade e da memória da imigração espanhola em Bagé por meio da linguagem simbólica presente em sua fachada.
Na parte central da platibanda destaca-se a representação de um globo terrestre circundado por volutas. Segundo relatos de antigos moradores da cidade, originalmente existia sob o globo a figura de uma caravela, posteriormente removida durante um restauro do prédio. Essa informação permite interpretar o conjunto iconográfico como uma referência às grandes navegações e às conquistas marítimas espanholas, responsáveis pela expansão ultramarina da Espanha a partir do final do século XV.
As grandes navegações e seus símbolos remetem ao imaginário medieval sobre o Oceano Atlântico, então conhecido como "Mar Tenebroso". Antes do desenvolvimento das grandes navegações, acreditava-se que suas águas eram habitadas por gigantescos monstros marinhos capazes de destruir embarcações e devorar marinheiros. Também era difundida a crença de que a Terra possuía limites físicos e que, ao alcançar a linha do horizonte, as embar
cações despencariam em um grande abismo. Tais concepções refletiam o medo do desconhecido e os limites do conhecimento geográfico da época.A partir do Renascimento, entretanto, a valorização da observação, da experiência e dos avanços científicos modificou gradativamente essa visão de mundo. A transição da mentalidade medieval para a moderna, marcada pelo antropocentrismo e pelo desenvolvimento das ciências náuticas, estimulou a exploração dos oceanos e tornou possível a expansão marítima europeia.
Embora Portugal tenha sido pioneiro no aperfeiçoamento das técnicas de navegação e na exploração da costa africana, foi a Espanha que, em 1492, financiou a expedição do navegador genovês Cristóvão Colombo. A viagem, que resultou na chegada ao continente americano, alterou profundamente a história mundial e inaugurou uma nova etapa da expansão europeia. Poucos anos depois, Portugal e Espanha dividiram as áreas de conquista ultramarina por meio do Tratado de Tordesilhas (1494), consolidando seus impérios coloniais.
Portanto, a representação do globo terrestre na fachada do Solar da Sociedade Espanhola simboliza não apenas as conquistas marítimas da Espanha, mas também a ampliação do conhecimento geográfico proporcionada pelas grandes navegações. Mais do que um símbolo de poder, o globo representa a descoberta de novos caminhos, o intercâmbio entre povos e culturas e o espírito de exploração que marcou a Era Moderna.
Sob essa perspectiva, o conjunto escultórico celebra um período em que a expansão dos horizontes geográficos transformou profundamente a compreensão do mundo e promoveu intensas trocas culturais, econômicas e científicas entre diferentes continentes.
Durante o reinado de Carlos V, no século XVI, a Espanha transformou-se em uma das maiores potências da Europa, sustentada pela vasta extensão de seus domínios e pelas riquezas provenientes das colônias americanas. Nesse contexto, os elementos ornamentais do Solar evocam a memória desse período de expansão política, econômica e marítima.
As figuras centrais da composição são ladeadas por dois leões, tradicionalmente considerados guardiões. Na simbologia ocidental, o leão representa força, coragem, poder, justiça e sabedoria, razão pela qual sua imagem é amplamente utilizada em brasões, insígnias e monumentos. Na fachada do Solar, esses leões podem ser interpretados como referências à proteção da Coroa Espanhola e ao apoio concedido pelos Reis Católicos, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, às expedições marítimas que transformaram a Espanha em uma potência ultramarina.
Complementando a composição arquitetônica, destacam-se as colunas de ordem coríntia, cujos capitéis ornamentados com folhas de acanto conferem imponência e elegância ao edifício, reforçando sua inspiração neoclássica.
Desde 1921, o Solar abriga o Instituto Municipal de Belas Artes Rita Jobim de Vasconcellos (IMBA), permanecendo como um dos mais importantes patrimônios arquitetônicos de Bagé. Sua fachada constitui um verdadeiro livro de história a céu aberto, no qual cada elemento ornamental preserva memórias das grandes navegações, da cultura espanhola e da identidade dos imigrantes que contribuíram para a formação histórica e cultural do município.

