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Saúde

Canetas para emagrecimento ganham espaço, mas uso exige indicação e acompanhamento médico

Em 24/08/2026 às 09:00h
Miquéli Romero

por Miquéli Romero

Canetas para emagrecimento ganham espaço, mas uso exige indicação e acompanhamento médico | Saúde | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
O interesse pelos medicamentos está principalmente na capacidade de promover uma redução significativa de peso Foto: Magnific

Conhecidas popularmente como “canetas emagrecedoras”, as medicações injetáveis que atuam sobre hormônios relacionados à fome e à saciedade ganharam espaço nos consultórios e nas redes sociais. O interesse pelos medicamentos está principalmente na capacidade de promover uma redução significativa de peso, mas, segundo a endocrinologista Mônica Lovatto, seus efeitos vão muito além do emagrecimento.

“As canetas são medicamentos semelhantes aos hormônios que nós produzimos. O GLP-1, por exemplo, é produzido no intestino. A semaglutida é um análogo do GLP-1, enquanto a tirzepatida é análoga ao GIP e ao GLP-1. Essas substâncias atuam nos receptores e ajudam a regular a fome e a saciedade. Elas foram desenvolvidas com uma ação mais prolongada e estável, por isso podem ser utilizadas uma vez por semana”, explica.

Diferenças entre os medicamentos

A semaglutida atua sobre o GLP-1, enquanto a tirzepatida tem ação sobre dois hormônios: GIP e GLP-1. Essa ação dupla faz com que a tirzepatida apresente, em estudos, um potencial maior de perda de peso.

“Uma é semelhante somente a um peptídeo, enquanto a outra atua sobre dois. A tirzepatida tem esse efeito duplo, por isso apresenta um potencial de perda de peso maior. A semaglutida pode proporcionar uma redução em torno de 10% do peso, enquanto a tirzepatida pode chegar a aproximadamente 20%. Mas isso não significa que uma seja melhor para todo mundo. A escolha depende do perfil de cada paciente”, esclarece Mônica.

Entre os medicamentos estão a liraglutida, comercializada como Saxenda; a semaglutida, presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, além da versão oral Rybelsus; e a tirzepatida, comercializada como Mounjaro.

Muito além do emagrecimento

A endocrinologista destaca que essas medicações não devem ser vistas exclusivamente como tratamentos para perda de peso. A semaglutida, por exemplo, possui indicações relacionadas à proteção cardiovascular e renal em determinados pacientes.

“Essas canetas não são simplesmente medicamentos para emagrecer. Elas têm um potencial muito maior. Hoje temos a semaglutida indicada para determinados pacientes que já tiveram um evento cardiovascular, como infarto ou AVC, com o objetivo de prevenir um novo evento. Também existem indicações relacionadas à proteção renal em pacientes diabéticos e com perda da função dos rins. Então, uma pessoa pode ter indicação para utilizar a medicação mesmo sem ter como objetivo principal perder peso”, afirma.

A indicação, porém, depende das condições de saúde e das aprovações específicas de cada medicamento.

Não existe uma “melhor caneta”

A escolha entre os medicamentos não deve ser feita apenas pela expectativa de perda de peso. Idade, doenças associadas, diabetes, doenças cardiovasculares, função renal e composição corporal são alguns dos fatores avaliados.

“Não existe uma regra dizendo que determinada caneta é sempre melhor. Eu preciso olhar o paciente. Um paciente idoso, por exemplo, não pode perder muito peso rapidamente porque existe o risco de perder massa muscular. Já outro paciente pode ter segurança para emagrecer mais rapidamente. Então, a escolha é individual”, explica Mônica.

A médica também reforça que peso não é sinônimo de gordura. Duas pessoas com o mesmo peso podem ter composições corporais completamente diferentes. “Eu posso ter duas pessoas com o mesmo peso e uma ter mais gordura enquanto a outra tem mais musculatura. Por isso, não podemos olhar somente para a balança. Precisamos avaliar a composição corporal”, ressalta.

Cuidado com a perda de massa muscular

A preocupação com a massa muscular é especialmente importante quando o paciente emagrece rapidamente ou passa por sucessivos ciclos de perda e ganho de peso.

“Quando a pessoa perde três quilos, por exemplo, e parte dessa perda é de massa muscular, quando recupera dois quilos, normalmente não recupera os dois quilos de músculo. Recupera principalmente gordura. Se isso acontece várias vezes, ela vai acumulando gordura e perdendo musculatura. É justamente isso que queremos evitar”, alerta.

Além disso, como as canetas podem diminuir significativamente a fome, o paciente pode passar a consumir menos proteínas, vitaminas e outros nutrientes. “Às vezes a caneta diminui tanto a fome que o paciente passa a comer muito pouco. E aí ele pode estar perdendo aquilo que não deveria perder. Pode ocorrer perda de massa muscular e deficiência de vitaminas e nutrientes. Por isso, precisamos acompanhar desde o início do tratamento e avaliar a necessidade de suplementação”, afirma.

Perder alguns quilos não significa ter indicação

O uso das canetas exclusivamente para fins estéticos também preocupa a especialista. Para quem deseja perder apenas alguns quilos, por exemplo, a medicação não necessariamente é indicada.

“Se a pessoa quer perder apenas alguns quilos por uma questão estética, isso não significa que ela tenha indicação para usar uma dessas medicações. O que precisamos tratar é o paciente que realmente tem indicação clínica. Quando alguém utiliza por conta própria para perder pouco peso, pode acabar entrando em um ciclo de perder e ganhar novamente, favorecendo a perda de massa muscular”, explica.

Mitos sobre as canetas

A popularização dos medicamentos também trouxe uma série de informações nas redes sociais. Entre elas está a ideia de que as canetas poderiam reduzir ou anular o efeito da pílula anticoncepcional. Segundo Mônica, não há evidências suficientes para afirmar que esse seja um efeito direto das medicações.

“Existe uma confusão. Não existe, até o momento, um trabalho que prove que a caneta simplesmente tira o efeito da pílula anticoncepcional. O que acontece é que, quando uma pessoa emagrece significativamente, independentemente de ser com uma caneta, com cirurgia bariátrica ou com uma dieta, ela pode ter melhora da fertilidade. Então, uma mulher que antes tinha dificuldade para engravidar pode se tornar mais fértil com a redução do peso, o que pode aumentar a possibilidade de uma gravidez”, explica.

A médica reforça, entretanto, que as medicações não são recomendadas durante a gravidez. Outro ponto que costuma gerar dúvidas é a pancreatite. A possibilidade de efeitos adversos deve ser avaliada individualmente pelo médico, assim como as contraindicações e o histórico de cada paciente.

Obesidade é uma doença crônica

Outro equívoco é pensar que a caneta deve ser usada somente até atingir determinado peso e depois abandonada. Segundo Mônica, a obesidade precisa ser encarada como uma doença crônica.

“A obesidade é uma doença e nós não temos, atualmente, um tratamento definitivo. Temos tratamentos muito eficazes, e as canetas são uma das ferramentas mais importantes que temos hoje. Mas o efeito acontece enquanto o tratamento está sendo realizado. Em alguns casos, pode ser necessário utilizar por muito tempo, assim como acontece com outras doenças crônicas”, afirma.

A interrupção também deve ser planejada pelo médico, já que alguns pacientes podem recuperar parte do peso.

“Não é simplesmente tomar até emagrecer e parar. Se o paciente tem obesidade e interrompe o tratamento sem acompanhamento, existe a possibilidade de recuperar o peso. Por isso, vamos reduzindo a dose, acompanhando e trabalhando a manutenção”, acrescenta.

Exercício e alimentação continuam importantes

Mesmo com o uso das medicações, atividade física e alimentação permanecem fundamentais, especialmente para preservar a massa muscular e manter o peso.

“O exercício físico é fundamental, principalmente para manter a massa muscular e ajudar na manutenção do peso. Durante uma perda muito grande e rápida, às vezes o paciente não tem energia para fazer uma atividade intensa. Por isso, o exercício precisa ser direcionado. Alimentação e exercício são fundamentais para que o resultado seja sustentado”, explica.

Atenção aos produtos sem procedência

Com a popularização das canetas, também aumentou a oferta de produtos vendidos fora dos canais regulares. A médica chama atenção especialmente para produtos anunciados como “retatrutida”, substância que ainda estava em fase de estudos clínicos no momento da entrevista.

“Se um medicamento ainda está em estudo, ele não deveria estar sendo vendido como se fosse um produto aprovado. Se uma pessoa compra uma caneta sem aprovação e sem procedência, ela não tem garantia do que realmente existe dentro daquele produto. Eu não sei a composição, como foi produzido ou armazenado. É um risco muito grande”, alerta.

Acompanhamento médico é fundamental

Para a endocrinologista, o primeiro passo de quem considera utilizar uma dessas medicações deve ser buscar orientação profissional.

“Não basta simplesmente entregar uma receita. É preciso acompanhar a perda de peso, a massa muscular, a alimentação, as vitaminas e a resposta do organismo. Vejo pacientes utilizando essas medicações sem qualquer suplementação ou acompanhamento, e isso pode trazer prejuízos. O medicamento precisa ser uma ferramenta dentro de um tratamento, e não uma solução utilizada por conta própria”, conclui Mônica.

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