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Cidade

Mais de 15,6 mil motos circulam em Bagé e revelam mudanças na mobilidade

Em 30/08/2026 às 08:51h
Suélen Delabari

por Suélen Delabari

Mais de 15,6 mil motos circulam em Bagé e revelam mudanças na mobilidade | Cidade | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Maioria das motos são utilizadas para meio de trabalho. Foto: Suélen Delabari

Mais de 15,6 mil motocicletas, motonetas e ciclomotores circulam pelas ruas de Bagé, conforme dados do Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Sul (Detran-RS). Em uma cidade com pouco mais de 120 mil habitantes, o número representa uma presença significativa dos veículos de duas rodas na mobilidade urbana e também no mercado de trabalho.

A expansão da frota, porém, ocorre em um cenário de mudanças no comportamento do consumidor, aumento da utilização profissional das motocicletas e reclamações relacionadas ao trânsito. Para entender esse cenário, a reportagem ouviu profissionais ligados à venda, manutenção, consórcio e utilização das motos no município.

Mercado sente redução no poder de compra

Na avaliação de Bruna Soder, gerente de uma loja Honda em Bagé, o mercado de motocicletas apresentou redução nas vendas. Segundo ela, a falta de incentivos para a aquisição e a perda do poder de compra do consumidor estão entre os fatores que ajudam a explicar o momento.

Bruna afirma que existe atualmente equilíbrio entre a procura por motocicletas de passeio e modelos de maior potência. Outra mudança observada no comportamento dos consumidores é a preferência pelo consórcio em relação ao financiamento.

O cenário também é percebido por quem trabalha diretamente com a manutenção dos veículos.

Oficina recebe mais motos, mas clientes enfrentam dificuldades

O mecânico Eduardo Pereira afirma que atende diariamente cerca de 10 motocicletas para manutenção. Ao mesmo tempo em que percebeu o aumento no volume de motos em circulação e no movimento da oficina, ele relata que muitos proprietários enfrentam dificuldades financeiras para manter os veículos.

Segundo Pereira, há motocicletas que permanecem na oficina por longos períodos, algumas há cerca de quatro anos, aguardando condições para que os proprietários possam realizar os reparos necessários.

Ele também identifica uma mudança no perfil das motos que chegam para manutenção. De acordo com o mecânico, os veículos utilizados profissionalmente representam a maior parte da demanda, especialmente motocicletas empregadas em entregas e serviços realizados por aplicativos.

Motocicleta como ferramenta de trabalho

A utilização da moto como instrumento de trabalho também é percebida por Jeferson Bicca, empresário que atua há cerca de 20 anos com manutenção de motocicletas e, desde agosto, passou a comercializar uma marca de origem indiana.

Segundo ele, o novo negócio tem registrado um fluxo significativo de vendas, principalmente entre consumidores que buscam uma motocicleta para trabalhar. A facilidade de aquisição, conforme o empresário, tem contribuído para a procura pelos modelos.

A avaliação é semelhante à de Scheila Lucas, administradora de consórcios. Ela afirma que a modalidade vem apresentando crescimento e atribui parte desse movimento à busca do consumidor por planejamento financeiro.

Segundo Scheila, o consórcio permite organizar a aquisição do veículo sem a incidência dos juros característicos de operações de financiamento. A modalidade, porém, possui regras próprias, como a necessidade de contemplação para a utilização do crédito.

Mototaxista aponta dificuldades no trânsito

Para quem utiliza a motocicleta diariamente para transportar passageiros, os principais problemas estão relacionados ao comportamento no trânsito.

José Celso La Rosa, 74 anos, trabalha como mototaxista há 15 anos. Segundo ele, a falta de respeito entre os diferentes usuários das vias é uma das principais dificuldades enfrentadas pelos motociclistas.

La Rosa também defende uma fiscalização mais efetiva sobre os profissionais que realizam transporte de pessoas e cargas, especialmente para diferenciar aqueles que estão devidamente regularizados daqueles que atuam de maneira irregular.

Prefeitura reconhece motocicleta como parte da mobilidade

A Secretaria de Segurança e Mobilidade informa que o Plano Diretor de Transporte e Mobilidade Urbana de Bagé (PlanMob), instituído pela Lei Complementar nº 069/2018, reconhece as motocicletas e demais veículos de duas rodas como parte da mobilidade urbana.

De acordo com a Pasta, esses veículos são enquadrados na categoria de veículos motorizados e devem seguir as regras gerais de circulação, a sinalização e os limites de velocidade estabelecidos para cada via.

O plano também reconhece o mototáxi como serviço oficial de transporte público individual. A atividade é regulamentada por legislação específica, a Lei Municipal nº 5.221/2013.

A Secretaria esclarece, contudo, que o PlanMob não estabeleceu infraestrutura exclusiva para motocicletas, como faixas específicas. As regras relacionadas ao serviço de mototáxi são tratadas pela legislação municipal e pelas normas federais de trânsito.

Município tem 240 mototaxistas cadastrados

Atualmente, segundo a Secretaria de Segurança e Mobilidade, Bagé possui 240 mototaxistas cadastrados e autorizados a exercer a atividade. A legislação municipal estabelece limite de 500 autorizações.

A Prefeitura informa ainda que cada autorização permite que um titular e um auxiliar trabalhem utilizando a mesma motocicleta.

Outra mudança recente envolve os requisitos para o exercício da atividade. Em maio de 2026, a Medida Provisória nº 1.360 alterou a Lei Federal nº 12.009/2009 e retirou as exigências de idade mínima de 21 anos, de pelo menos dois anos de habilitação e de aprovação em curso especializado para o exercício das atividades de mototaxista e motoboy. A legislação passou a exigir habilitação na categoria A ou autorização para conduzir ciclomotores, além do uso de colete de segurança com dispositivos retrorrefletivos.

Conforme a Secretaria, em Bagé permanecem entre as exigências municipais o cadastro e a autorização junto à Prefeitura, apresentação da documentação pessoal e certidões criminais, além da manutenção da motocicleta em condições adequadas e com os equipamentos de segurança previstos na legislação.

Fiscalização e segurança entram no debate

Com milhares de motocicletas compartilhando diariamente o espaço viário com carros, caminhões, bicicletas e pedestres, o aumento da frota também coloca a segurança no trânsito no centro da discussão.

De um lado, profissionais que dependem da motocicleta destacam a agilidade e o baixo custo operacional do veículo, especialmente para atividades de entrega, transporte e prestação de serviços. De outro, usuários apontam a necessidade de respeito às regras de circulação e de fiscalização para garantir que tanto motociclistas quanto demais condutores cumpram a legislação.

A Secretaria de Segurança e Mobilidade informa que eventuais irregularidades relacionadas ao transporte realizado por motociclistas podem ser comunicadas diretamente à Pasta pelo telefone (53) 3241-5932.

Mais do que um meio de transporte, a motocicleta passou a ocupar um espaço relevante na economia local. O crescimento da frota acompanha uma realidade em que o veículo é utilizado tanto para deslocamento pessoal quanto como ferramenta de trabalho, enquanto consumidores e comerciantes lidam com um cenário de menor poder de compra, busca por alternativas de financiamento e aumento da demanda por serviços de manutenção.

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