Região
Cooperativa Caseirinhos busca autonomia para mulheres em Candiota
por Miquéli Romero
O que começou como uma padaria comunitária para oferecer oportunidades de geração de renda a mulheres assistidas pela Secretaria Municipal da Mulher de Candiota está entrando em uma nova fase. O projeto Caseirinhos está sendo estruturado para dar origem a uma cooperativa de massas caseiras, administrada pelas próprias participantes.
A iniciativa começou a ser estruturada em 2024, com a aquisição de equipamentos por meio de uma emenda federal. Desde o início, a proposta foi oferecer às mulheres estrutura, insumos e qualificação para que pudessem produzir e comercializar alimentos, ficando com a renda obtida pelas vendas.
Uma das primeiras experiências foi a produção do Candiotone. Dez mulheres participaram da atividade e, em apenas 18 dias, foram produzidas e comercializadas mais de 1,1 mil unidades. Empresas da região adquiriram os produtos e as próprias participantes também atuaram nas vendas. Ao final, cada uma recebeu aproximadamente R$ 2,8 mil.
Depois da experiência, o Caseirinhos ampliou a produção para bolos, pães e coffee breaks, atendendo demandas do município e de empresas da região. Ao longo do projeto, mais de 15 mulheres já participaram das atividades.
Para a secretária municipal da Mulher, Juliana Baumhardt, a iniciativa surgiu da necessidade de criar alternativas concretas de trabalho e renda para as mulheres acompanhadas pela Secretaria. “Desde o início, a lógica sempre foi essa: o poder público oferece estrutura, insumos, qualificação e cria oportunidades, as mulheres produzem e a renda do trabalho é delas”, destaca.
Nova etapa
Atualmente, o espaço do Caseirinhos passa por reformas e adequações. A pausa nas atividades faz parte do processo de transformação do projeto.
Para a nova etapa, 25 mulheres foram selecionadas para uma qualificação realizada pelo SENAI, viabilizada com aproximadamente R$ 89,5 mil captados pelo município através do programa RS Qualificação. Além das técnicas de produção, elas aprenderão sobre custos, precificação, desenvolvimento de produtos, vendas, marketing digital e administração.
Cada participante também receberá uma bolsa de R$ 750 para auxiliar nas despesas durante a formação.
A previsão é de que a qualificação seja concluída em novembro. Ao final, sete mulheres serão selecionadas para integrar o grupo inicial da futura cooperativa. A escolha será baseada no desempenho e no comprometimento demonstrados durante a formação, com acompanhamento técnico.
A proposta é que a cooperativa mantenha a diversidade de produtos já desenvolvida pelo Caseirinhos, incluindo massas, massas para pizza, pães, bolos e produtos para coffee breaks. “O Caseirinhos foi a experiência de geração de renda que mostrou que isso funcionava. A cooperativa é o passo seguinte: transformar essa experiência em um empreendimento organizado e administrado pelas próprias mulheres”, explica Juliana.
Mulheres protagonistas
Para as mulheres que participam das iniciativas, a possibilidade de transformar conhecimento em trabalho representa uma nova perspectiva profissional.
Aos 45 anos, Ionara Moreira Botelho, moradora de Seival, trabalha em casa com a produção de bolos, salgados, doces e produtos para festas. Ela já realizou cursos de panificação pelo SENAI e participou de uma formação em massas em Erechim, por meio de uma parceria envolvendo Emater e Prefeitura.
Para ela, a iniciativa contribuiu para ampliar a visibilidade do trabalho desenvolvido pelas participantes. “A cooperativa incentivou a venda e confecção de produtos e cursos de qualificação. Essa iniciativa ajudou não somente a mim, mas várias mulheres empreendedoras a produzir e se qualificar”, relata.
Aos 24 anos, Silvana Pereira, participa das ações há cerca de um ano e quatro meses e conta que não tinha nenhuma renda antes do projeto. Para ela, a futura cooperativa representa uma possibilidade de crescimento. “Estou com expectativa muito alta, muito ansiosa, pois sei do grande significado que fará na minha vida e vai ajudar no meu crescimento financeiro e na experiência”, afirma.
Já Kaetana Rodrigues Soares, 20 anos, acompanha o projeto desde maio de 2025. Ela começou como estagiária da própria Secretaria da Mulher e, depois de conhecer o Caseirinhos, passou a participar das atividades e capacitações.
Kaetana realizou cursos de panificação, derivados do leite, boas práticas e massas caseiras em Erechim. Também atuou na venda dos produtos do projeto durante aproximadamente seis meses em 2025.
Para ela, a futura cooperativa representa a possibilidade de conquistar um espaço de trabalho construído e administrado pelas próprias mulheres. “Para mim é um sonho que deu certo, pois nós mulheres precisamos de um espaço que seja nosso. Ter essa cooperativa será a conquista desse espaço, principalmente por ser nosso trabalho liderado por nós mesmas”, afirma.
Outras iniciativas
O Caseirinhos integra uma série de ações da Secretaria da Mulher voltadas à autonomia e à proteção das mulheres assistidas. Entre elas estão o Projeto Semear, que incentiva o cultivo de hortas, e as iniciativas de produção de ecobags, que já resultaram na comercialização de mais de 200 unidades para a FAMURS. O Município também adquiriu máquinas de costura e de sublimação para estruturar uma oficina própria.
Na área de assistência, o Aluguel Social oferece suporte às mulheres que precisam de moradia, enquanto a Secretaria busca articular outras oportunidades para que, além do atendimento emergencial, elas possam conquistar condições de maior independência e geração de renda.
Segundo Juliana, o objetivo final é fazer com que o projeto não dependa permanentemente da Secretaria. “O sucesso vai ser quando elas não precisarem mais de nós. Quando estiverem produzindo, vendendo, administrando e gerando a própria renda independentemente de quem esteja ocupando a Secretaria, vamos saber que a política pública cumpriu seu papel”, conclui.

