Cidade
Visita à Catedral revela marcas de diferentes períodos da história da fé e da cidade
por Melissa Louçan
As paredes, torres, colunas e detalhes da Catedral de São Sebastião guardam mais do que elementos arquitetônicos. Cada intervenção realizada ao longo de mais de um século e meio deixou marcas que ajudam a contar diferentes momentos da história de Bagé. Foi a partir desse olhar que Luiz Miguel Saes conduziu, nesta quarta-feira (10), um percurso pelo templo, apresentando ao público parte da pesquisa desenvolvida em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Arquitetura pela Urcamp.
A visita foi acompanhada por integrantes da comunidade, além de acadêmicos e professores da Urcamp, que percorreram diferentes espaços da Catedral para conhecer as transformações pelas quais o templo passou ao longo dos anos.
Intitulado “As Cicatrizes do Eterno: Palimpsesto e Intervenção Arquitetônica na Catedral de São Sebastião de Bagé”, o trabalho investiga as transformações pelas quais a igreja passou desde o início de sua construção, em 1862. A proposta da atividade foi justamente mostrar como essas diferentes camadas permanecem presentes na edificação e ajudam a compreender a trajetória da Catedral e da própria cidade. “Nós estamos aqui na Catedral de Bagé, esse lugar histórico para a nossa cidade, para mostrar como a arquitetura da igreja, nas transformações que ela passou ao longo de todos esses anos, conta uma história rica que deve ser conhecida e preservada pela nossa cidade”, explicou Luiz Miguel durante o encontro.
Ao longo do percurso, o arquiteto apresentou as diferentes campanhas construtivas e modificações que alteraram a configuração do templo. Para facilitar a compreensão das mudanças, ele muniu os participantes com imagens que mostram a Catedral em diferentes fases de sua história, permitindo comparar as alterações na fachada e na estrutura do edifício ao longo do tempo. Também apresentou conceitos arquitetônicos simples a partir da própria fachada, ajudando o público a identificar elementos que muitas vezes passam despercebidos no cotidiano.
A ideia de observar a Catedral como um palimpsesto, conceito associado a um suporte que recebe novas inscrições sem apagar completamente os vestígios anteriores, permite compreender que a edificação atual é resultado de sucessivas intervenções, e não apenas de um projeto único.
Entre as histórias apresentadas durante o percurso está a do Cerco de Bagé, durante a Revolução Federalista de 1893. Ao longo dos 47 dias de conflito, a Catedral serviu de abrigo e hospital para o general Carlos Telles e seus homens, enquanto a fachada foi atingida por disparos. As marcas das balas, no entanto, acabaram sendo encobertas durante uma das reformas do templo e já não podem ser vistas atualmente. O episódio ajuda a compreender a ideia por trás do título do trabalho de Saes, “As Cicatrizes do Eterno”, ao tratar das marcas deixadas por diferentes períodos sobre a edificação.
Para Luiz Miguel, conhecer essas transformações também é uma forma de contribuir para a preservação. “A Catedral é um templo que guarda a Bagé de todos os tempos, e conhecê-la é, cada vez mais, preservar a nossa cultura, a nossa cidade e o nosso patrimônio”, destacou.
A atividade também foi acompanhada por Liane Silveira Fernandes Machado, integrante da comunidade católica da Catedral. Acostumada a frequentar o templo, ela afirmou que, depois do percurso, passa a enxergar de outra maneira os espaços que fazem parte de sua rotina. As explicações sobre as diferentes etapas da construção e os elementos arquitetônicos apresentados por Saes fizeram com que detalhes antes pouco percebidos ganhassem novos significados. "Eu ainda não conhecia a história sobre a arquitetura da nossa Catedral. Soube hoje, através do Luiz Miguel, desse trabalho maravilhoso”, relatou.
A atividade integra o TCC de Luiz Miguel, que propõe um estudo de restauro para a templo. O trabalho parte do princípio de que a preservação não se limita à intervenção física no patrimônio, mas também depende da produção e da difusão de conhecimento sobre ele. “Com certeza, outras atividades, além desse passeio, vão ser desenvolvidas para que a gente possa não só fazer um trabalho acadêmico sobre a igreja, mas realmente produzir conhecimento para que as pessoas, cada vez mais, valorizem a Catedral”, afirmou.
A intenção, portanto, é que o percurso realizado nesta quarta-feira não seja uma atividade isolada, embora ainda não haja planejamento de novas visitas a curto prazo. A pesquisa pretende aproximar a comunidade da história e da arquitetura do templo, fazendo com que elementos muitas vezes vistos diariamente possam ser percebidos sob uma nova perspectiva.

