Eleições 2026
Aposentado completa 50 anos de atuação voluntária nas eleições
por Melissa Louçan
Há cinco décadas, Flávio Tadeu Valério Costa faz parte das eleições em Bagé. Aos 68 anos, o ferroviário aposentado mantém a disposição que o levou, ainda aos 18, a procurar espontaneamente a Justiça Eleitoral para trabalhar. Neste domingo, 4, ele está novamente em uma seção eleitoral, no bairro Morgado Rosa, onde atua como presidente de mesa.
A história começou ainda durante o regime militar. Filho de militar, Flávio conta que cresceu acompanhando as limitações daquele período e alimentando o desejo de participar de alguma forma da construção democrática. Desde criança, também se interessava pelo trabalho realizado durante as eleições. “Eu sonhava desde criança e gostava, adorava ver as pessoas trabalhando na eleição. E eu dizia: um dia eu vou trabalhar. E quando fiz 18 anos, tirei meu título e a primeira coisa que fiz foi correr para trabalhar”, conta.
As primeiras experiências foram bem diferentes das atuais. Na época, Flávio trabalhou no escrutínio, acompanhando a contagem dos votos depois do encerramento da votação. Os resultados eram levados para o local onde ocorria a apuração, e o trabalho podia atravessar a madrugada. Depois, passou a atuar diretamente nas sessões eleitorais. Desde então, não parou mais. Ao longo das cinco décadas, passou por diferentes bairros de Bagé, acompanhando as transformações no processo eleitoral e também fazendo amizades pelo caminho.
A mudança tecnológica é uma das principais diferenças que ele destaca entre as primeiras eleições das quais participou e as atuais. Flávio acompanhou a passagem das cédulas de papel para a urna eletrônica e considera que a modernização facilitou o trabalho de quem atua nas seções. “Eu nunca fui obrigado a trabalhar. Eu trabalho voluntariamente. Eu gosto mesmo”, afirma.
Durante a pandemia de covid-19, por causa da idade, ele não havia sido convocado para trabalhar. Flávio, porém, foi até o cartório para conversar com a juíza e argumentou, com bom humor, que já estava “em zona de risco” havia muito tempo. “Ela me perguntou: ‘O senhor está na zona de risco?’. Eu digo: ‘Estou desde 1958’. E ela: ‘Como assim, a pandemia agora?’. Eu digo: ‘Não, mas eu nasci em 1958. Quando eu nasci, eu entrei na zona de risco, que é a vida’. A vida é uma zona de risco”, recorda. A brincadeira fez a juíza rir e, segundo ele, acabou contribuindo para que fosse liberado para participar daquela eleição.
Neste domingo, porém, a própria urna eletrônica acabou proporcionando uma situação inédita na trajetória de Flávio. O equipamento utilizado na seção apresentou problemas. Apesar de ter funcionado durante o teste realizado no dia anterior, deixou de operar normalmente durante a votação. Técnicos foram chamados, tentaram solucionar o problema e, depois de uma nova falha, a urna acabou sendo substituída. O equipamento voltou a funcionar por volta das 10h. “Foi a dificuldade que eu mais senti. Minha urna não funcionou. Ontem funcionou para o teste e não funcionou para trabalhar. Nunca tinha acontecido isso, foi a primeira vez”, relata.
“Quero que alguém siga meu exemplo”
Apesar dos 50 anos de atuação, Flávio não pensa em encerrar a participação tão cedo. A meta, brinca, é chegar aos 80 anos. Mais do que continuar trabalhando, porém, ele gostaria de ver novas gerações ocupando as seções eleitorais voluntariamente. Para ele, o trabalho também é uma oportunidade de convivência. Ao longo dos anos, fez amigos em diferentes locais e mantém o hábito de tornar o dia de eleição mais leve, com café, chimarrão e conversa entre os colegas. “Eu quero ter saúde para trabalhar até o dia que não der mais. Enquanto tiver saúde, estou trabalhando”, afirma.

