Cidade
Central de Libras amplia acesso da comunidade surda aos serviços públicos em Bagé
Serviço foi inaugurado nesta semana e passa a oferecer interpretação presencial e por videochamada; data que marca o trabalho de tradutores e intérpretes reforça importância da iniciativa
por Miquéli Romero
A comunicação, que para muitas pessoas acontece de forma natural no dia a dia, ainda pode representar uma barreira para parte da população surda. Em Bagé, essa realidade começa a ganhar uma nova estrutura de atendimento. Na segunda-feira, 28 de setembro, o município inaugurou a Central de Interpretação de Libras (CIL), tornando-se o sétimo do Rio Grande do Sul a contar com um serviço específico de intermediação em Língua Brasileira de Sinais (Libras).
A inauguração ocorre em uma semana marcada pelo Dia Internacional da Tradução, celebrado em 30 de setembro. Instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), a data reconhece o trabalho dos profissionais da área de tradução e interpretação e seu papel na comunicação entre diferentes línguas.
Vinculada à Secretaria Municipal de Administração (Smad), a Central funciona na rua Bento Gonçalves, junto ao Procon, na terceira sala. O serviço poderá ser utilizado pela comunidade surda em atendimentos relacionados a diferentes áreas do poder público, como Saúde, Assistência Social, Habitação, Fazenda e Educação.
A estrutura oferece atendimento presencial e também teleinterpretação, por meio de videochamada em tempo real. O objetivo é possibilitar que a pessoa surda tenha a mediação de um intérprete durante o contato com os serviços municipais.
Atendimento já começou
Até quinta-feira, 1º, foram registrados dois atendimentos, um realizado presencialmente e outro por videochamada. Para a coordenadora da CIL, Bete Sousa, a experiência inicial demonstra a importância de garantir que a comunicação aconteça com a mediação adequada. “Foi satisfatório ver a surpresa dos atendidos por, desta vez, terem mediação. Por terem tido atendimento por um profissional como deveria ser e há de ser sempre, visto que agora é lei”, relata Bete.
A legislação municipal que criou a Central é a Lei nº 6.839, de agosto de 2025, originada de projeto da vereadora Ana Paula da Silva Moreira, primeira vereadora surda da história do Rio Grande do Sul.
Segundo Bete, a estimativa é de que Bagé tenha aproximadamente 120 pessoas surdas. O número, explica ela, é baseado em sua experiência de mais de duas décadas de atuação profissional e voluntária junto à comunidade surda. “Para mim, a Libras não é meu material de trabalho, e sim minha vida. É um privilégio ser os ouvidos dos surdos e muita responsabilidade também. Por isso, executo com bastante empenho e carinho”, afirma.
Mais do que um atendimento
A importância da interpretação não se limita ao momento em que a pessoa surda precisa acessar um serviço público. Para a família de Alexandre Teixeira, de 19 anos, que é surdo e atualmente cursa uma faculdade, o contato com intérpretes faz parte de uma trajetória de aprendizado e autonomia.
A mãe de Alexandre, Carla Rosana Brito, não domina a Língua Brasileira de Sinais. Ela conta que acompanhar o desenvolvimento do filho exigiu aprendizado e apoio de profissionais. “Ele nasceu prematuro 1kg e meio e ficou 40 dias na UTI infantil, logo que nasceu fez o teste do ouvido e deu tudo certo, porém aos 2 anos e meio ele acabou perdendo a audição. Foi muito difícil, mas ele conseguiu. Tanto que hoje tem 19 anos e está cursando faculdade. Os intérpretes são muito importantes para eles e para nós também”, relata.
A família precisou de um intérprete para acompanhá-los em um atendimento no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Na ocasião, recorreu à Central de Libras. “Os intérpretes são maravilhosos", conta.
Comunicação como conquista
Alexandre também destaca a importância de haver profissionais preparados para intermediar a comunicação entre surdos e ouvintes. Para ele, a Central representa uma possibilidade de ampliar esse acesso, especialmente em situações do cotidiano.
Na avaliação dele, ainda existem dificuldades de comunicação em estabelecimentos como farmácias, lojas e mercados. A possibilidade de contar com intérpretes por meio de canais digitais, como WhatsApp e aplicativos, também pode facilitar o contato.
Alexandre aprendeu Libras desde criança e também desenvolveu estratégias para se comunicar com a família por meio da leitura e da escrita em português. Segundo ele, a mãe passou a aprender alguns sinais, como o utilizado para “café”, e esse processo representa uma conquista familiar. “Quando eu tinha 13 anos, comecei a ler em português e também a usar legendas e o celular para me comunicar com a família. É uma conquista”, relata.
Na escola e na faculdade, Alexandre também encontrou oportunidades para compartilhar a língua de sinais com colegas ouvintes. “As pessoas ouvintes tinham curiosidade sobre a Libras, e eu ensinava meus colegas. Às vezes faço devagar, usando datilologia e outros sinais, para que as pessoas entendam e aprendam. É muito bom”, afirma.
Como utilizar a Central
A Central de Interpretação de Libras poderá ser acionada para atendimentos presenciais ou por teleinterpretação. O serviço também poderá orientar sobre agendamentos e demais demandas relacionadas ao atendimento da comunidade surda.
Os pedidos podem ser realizados pelo WhatsApp (53) 99997-2291.

