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Ricardo Belleza: o xerife que nunca precisou deixar a fronteira para construir seu próprio faroeste

Em 10/10/2026 às 16:15h
Yuri Cougo Dias

por Yuri Cougo Dias

Ricardo Belleza: o xerife que nunca precisou deixar a fronteira para construir seu próprio faroeste | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Músico celebra mais de 30 anos de produção autoral - Foto: Oficina da Imagem

Por Yuri Cougo Dias

Se Quentin Tarantino tivesse errado a saída para Los Angeles e desembarcado em Bagé, talvez encontrasse Ricardo Belleza antes de encontrar um táxi. Não haveria pistolas escondidas em ternos pretos nem um Mustang atravessando o deserto. O orçamento seria outro: no lugar da Califórnia, o Pampa; do cavalo, uma motocicleta; e, em vez de um xerife com distintivo, um roqueiro de 55 anos, guitarra na mão e disposição quase irresponsável para misturar punk, rockabilly, Jovem Guarda, cinema, trova e música nativista. A violência, por aqui, é mais comportada. O duelo acontece na guitarra, a perseguição pode virar música e o bandido, dependendo da noite, pode acabar virando personagem. Foi assim que Belleza construiu seu próprio faroeste.

O xerife desta fronteira, porém, não patrulha a cidade em busca de foras da lei. Patrulha a memória. Em 2013, Tamile Padilha transformou essa ideia em Xerife da Fronteira, documentário que nasceu de um projeto de videoclipe para “Anjo da Fronteira”. O dinheiro não ajudava; a história, por outro lado, sobrava. O filme encontrou no músico, no motociclista, nas ruas de Bagé e na paisagem da Campanha uma espécie de faroeste sem cavalos suficientes para justificar o clichê. Sergio Leone e Clint Eastwood cabiam ali. Belleza também.

O rock antes da guitarra

Antes do xerife e das letras cheias de personagens, havia um garoto que queria cantar — e, como acontece com boa parte das decisões questionáveis da juventude, queria também ser popular e namorar as gurias do colégio. Enquanto os colegas jogavam basquete, Belleza encontrou no rock uma alternativa mais eficiente para conquistar algum prestígio. A estratégia funcionou.

Começou no Coral de Silveira Martins, ligado aos Ponchos Vermelhos e à maestrina Gilca Collares. Entre os 18 e 20 anos, uma apresentação em uma festa abriu caminho para o Atentado ao Pudor, no início dos anos 1990. Os ensaios aconteciam em garagem e o punk veio junto com a lógica do “faça-você-mesmo”: poucos acordes, mensagem direta e nenhuma necessidade de esperar autorização de gravadora ou sujeito engravatado. Roupas justas, botas e cabelos compridos completavam a equação. No começo, o rock era uma maneira de se diferenciar. Depois, virou maneira de existir.

O xerife conhece o Pampa

Belleza passou por Porto Alegre e conheceu a efervescência das bandas autorais da capital, mas Bagé continuou puxando de volta. A carreira profissional ganhou força a partir de 1996, quando o Atentado ao Pudor virou Abutres. Vieram bares, festivais e uma aparição na Zero Hora, em 1997, como Banda Revelação, após uma apresentação no Cassino. Houve convite para seguir para Porto Alegre, mas não deu certo. A capital parecia ter o hábito de oferecer uma porta e, logo depois, apontar para a saída.

Belleza voltou e define Bagé como seu verdadeiro palco. Em vez de sair para provar que existia, construiu uma linguagem que dizia justamente o contrário: era possível permanecer e produzir algo capaz de atravessar a fronteira. O sotaque aparece nas histórias, nos personagens e na música. É o que ele chama de rock fronteiriço, uma produção que não tenta esconder de onde veio.

Mano Lima entra no bar

Belleza não parece interessado em erguer um muro entre o rock e o universo regional. Se a guitarra pode conversar com o punk, por que não poderia conversar com uma gaita? É aí que Mano Lima aparece entre suas referências. Não para transformar Belleza em músico nativista, mas porque existe uma aproximação na maneira de contar histórias: pegar uma situação cotidiana, encontrar um personagem, exagerar na medida certa e deixar que ele carregue a música.

Belleza faz isso com guitarra; Mano Lima, com gaita e voz. Um parece ter vindo de um rodeio, o outro de uma garagem punk. No fundo, descobriram algo parecido: uma boa história não precisa pedir desculpas por ser engraçada. Belleza chama isso de “pitadinha de humor”. “Ken da Barbie” e “Problemas com Loiras” carregam essa fórmula. Não é pastelão: o humor entra como tempero, enquanto a música continua contando uma história que o ouvinte consegue enxergar.

O roqueiro que pensa como diretor

A relação com o cinema ajuda a explicar essa construção. Durante 11 anos, Belleza escreveu sobre filmes e passou a compor como quem escreve um roteiro: começo, meio e fim, nem sempre nessa ordem. O personagem aparece, alguma coisa acontece e a história anda. Ele enxerga nessa construção uma ligação com a trova e com a música nativista. A diferença é que, no lugar do violão campeiro ou da gaita, pode entrar uma guitarra distorcida.

“A Roqueira”, do EP Embalo Jovem, é exemplo dessa mistura: rock, gaita e geografia regional, com Dom Pedrito dentro da história. “Rua de Sonhos Perdidos” também carrega essa relação. O Pampa não é cenário de cartão-postal. É personagem.

Belleza estrutura os shows como filmes: começa para prender, desacelera no meio e volta a acelerar no final. No Point Bar, chegou a construir apresentações de uma hora e meia pensando nessa curva. O humor segue a mesma lógica. O rock pode falar de morte, vingança, traição e desgraça e, ainda assim, fazer alguém rir.

Quando a cidade escutava junto

Antes de a internet transformar qualquer quarto em emissora de rádio, havia o rádio. E havia os bares. Foi nesse ambiente que o BK Jones encontrou um dos momentos mais fortes da trajetória de Belleza. A banda tocava músicas próprias e repertório do rock gaúcho, dividindo espaço com uma cena em que pagode, pop e rock disputavam público.

Em 1999, “Você Não Vai Se Arrepender Jamais” chegou à Atlântida Bagé. Belleza lembra que Rinaldo Carvalho a tocou. A música alcançou pessoas que talvez nunca entrassem em uma garagem para ouvir quatro sujeitos fazendo barulho. O rádio transformava a música em presença e o palco devolvia a música ao rádio. A gravação foi feita com estrutura modesta, incluindo um equipamento de quatro canais. Como gravar era caro, havia uma conclusão prática: às vezes era mais racional fazer um show. O rock independente sempre foi uma excelente escola de administração financeira involuntária.

Depois do BK Jones, vieram outras experiências, a Power Band e, aos poucos, o próprio nome como projeto. A independência trouxe liberdade: sem gravadora, não havia executivo dizendo que uma música precisava parecer com outra nem contrato obrigando a preencher um disco. Se quiser fazer punk, faz punk. Rockabilly, faz rockabilly. Flamenco em “Anjo da Fronteira”, também. Até John Denver pode atravessar a alfândega da Campanha. Belleza não parece preocupado em escolher uma única identidade musical. Prefere uma identidade territorial. A música pode mudar. O lugar de onde ela vem, não.

A contradição é que esse músico criado longe dos grandes centros encontrou justamente na internet uma rede nacional. Programas independentes passaram a tocar suas músicas; vieram contatos com artistas de Natal, São Paulo e outras cenas alternativas. “Anjo da Fronteira” chegou a playlists de bandas gaúchas pela Rádio Monstro, de Santo Ângelo.

Uma mina, uma motocicleta

A motocicleta faz parte da vida de Belleza quase como a música, misturando-se com estrada, amigos e imagem. Por isso, o audiovisual encontrou terreno fértil. Depois de Xerife da Fronteira, vieram outros videoclipes. “Procurado” brinca com a figura do homem perseguido pelo Oeste e parte de “Wanted Man”, associada a Bob Dylan e Johnny Cash, mas Belleza troca os endereços: o procurado pode estar em Dom Pedrito ou Bagé. O xerife não precisa estar no Texas. Pode estar tomando um café na Rainha da Fronteira.

O dinheiro de um prêmio recebido no Festival Internacional de Cinema da Fronteira ajudou a viabilizar o clipe; Tamile comprou uma GoPro e o projeto saiu. Depois vieram “Sem te Ter” e “Uma Mina e Uma Motocicleta”, este com recursos da Lei Paulo Gustavo. Belleza escreve os próprios roteiros e, de certa forma, continua realizando uma vontade antiga: ser ator. Como isso parecia pouco acessível a um jovem de Bagé nos anos 1990, encontrou uma brecha no palco.

O novo disco é velho só no nome

Embalo Jovem, lançado em setembro, no aniversário de Belleza, não é exatamente uma volta à Jovem Guarda. É uma conversa com ela. “A Roqueira” mergulha na identidade fronteiriça, enquanto “Roque do Silveira” retorna à infância no Silveira Martins, às salas de aula, aos professores, ao sino e ao campo de futebol. Há ainda “Cabra Bagé, Quase o Paraíso”, versão de “Take Me Home, Country Roads”, de John Denver, transformada em declaração de amor à cidade.

Aos 55 anos, Belleza já viu bandas surgirem, rádios mudarem, bares fecharem e tecnologias transformarem a maneira de fazer música. Continua fazendo. Há videoclipes, material gravado na Área 51, com seu parceiro Teko Marques, um projeto audiovisual para “Grita, Matança e Solta os Cães da Guerra”, o podcast Conversas na Fronteira e ideias anotadas no bloco de notas do celular. Até um livro de memórias está guardado. Ainda não chegou a hora.

Belleza sabe que não ficou rico com o rock. Se esse fosse o critério, provavelmente já teria jogado a guitarra pela janela. O retorno é outro: fazer a própria música, criar, ser visto, ajudar projetos, encontrar pessoas e representar a cidade de onde veio.

A vida não foi uma linha reta. Teve bandas, recomeços, sucessos locais, portas fechadas e músicas que encontraram público, enquanto outras ficaram pelo caminho. Mais de três décadas depois, porém, a estrada começa a parecer filme. Quando a câmera se afasta, não há um personagem tentando escapar de Bagé. O xerife não está procurando uma saída. Está procurando a próxima história.

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