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Othon Bastos reflete sobre o tempo, a memória e a arte de viver

Em entrevista exclusiva ao Jornal Minuano, ator de 93 anos revisita sua trajetória, compartilha reflexões sobre a vida e revela o desejo de continuar nos palcos

Em 20/10/2026 às 07:15h
Márlon Castro Posqui

por Márlon Castro Posqui

Othon Bastos reflete sobre o tempo, a memória e a arte de viver | Cidade | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Foto: Miquéli Romero

Pense na imagem de um homem sábio. Características como maturidade, reflexão e tranquilidade podem surgir nesse pensamento. Othon Bastos, 93 anos, se insere nesse arquétipo. O ator que tem mais de 30 trabalhos no teatro, mais de 80 no cinema e quase uma centena de personagens na televisão, concedeu uma entrevista exclusiva à equipe do Jornal Minuano durante sua passagem por Bagé, onde apresentou, na 28ª Feira do Livro, o primeiro monólogo de sua trajetória, “Não Me Entrego, Não!”.

Sentado no Empório da Campanha, no Hotel Obino, Othon não economizou palavras ao revisitar as experiências que moldaram sua vida. O ator demonstrou que, apesar de carregar uma história que se confunde com a do próprio teatro e cinema brasileiros, seu olhar permanece voltado ao presente e às possibilidades do futuro. Para ele, envelhecer não significa deixar a vida para trás, mas continuar acompanhando suas transformações.

No primeiro momento, quando questionado sobre suas impressões de Bagé. Em sua primeira visita ao município, Othon contou ter realizado um passeio pela cidade e se encantado com a arquitetura e os esforços de preservação do patrimônio histórico. "Eu fiquei encantado com a cidade. Eu nunca tinha vindo aqui. Essa luta de preservação tem que ser constante, o passado você não abandona. Ele acompanha você sempre. Você tem que ter sempre o cuidado de estar presente até no passado", reflete.

Uma carreira que começou por acaso

Embora tenha se tornado uma referência da interpretação brasileira, Othon Bastos revelou que nunca sonhou em ser ator durante a infância. Nascido em Tucano, no sertão da Bahia, deixou a cidade natal ainda criança e passou parte da juventude no Rio de Janeiro, onde acompanhava o pai em apresentações teatrais, mas não imaginava que um dia ocuparia aquele mesmo espaço.

O desinteresse pela profissão também foi influenciado por uma professora que, segundo ele, desencorajava qualquer aproximação com as artes. A educadora chegou a afirmar que o jovem não possuía talento e que fracassaria caso seguisse esse caminho. Diante da situação, Othon prometeu que escolheria outra profissão: dentista.

O destino, entretanto, reservava uma experiência diferente. Aos 17 ou 18 anos, precisou substituir um colega em uma apresentação escolar. O estudante era Walter Clark, que posteriormente se tornaria um dos nomes importantes da televisão brasileira. A oportunidade inesperada acabou abrindo as portas para uma carreira que atravessaria gerações.

Foi por volta de 1950 que Othon começou a se aproximar efetivamente do teatro, sob a influência de Pascoal Carlos Magno, figura fundamental para o desenvolvimento das artes cênicas no Brasil. O ator atribui ao mestre não apenas o início de sua trajetória, mas a formação de sua compreensão sobre o ofício.

Antes de subir ao palco, precisou conhecer os bastidores. Aprendeu sobre cenografia, iluminação, música e os diferentes elementos responsáveis pela construção de um espetáculo. "Primeiro você tem que conhecer o bastidor do teatro. Você tem que se formar pelo bastidor do teatro, saber como é que faz um cenário, como é que se ilumina um espetáculo, como é que se coloca a música no espetáculo. Isso tudo que você tem que aprender antes, para quando você subir no palco, você ter o conhecimento do mundo em que você vive", recorda.

A carreira seguiu por diferentes caminhos. Othon estudou na Europa, integrou o movimento de formação teatral na Bahia, participou da construção do Teatro Vila Velha e trabalhou com importantes companhias, como o Teatro Oficina, em São Paulo. Ao lado da esposa com quem divide a vida há mais de 60 anos, a atriz Martha Overbeck, também fundou uma companhia profissional.

Encontro com Glauber Rocha e o Cinema Novo

Entre os episódios mais marcantes de sua carreira está a participação em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, lançado em 1964 e dirigido por Glauber Rocha. Na obra, considerada um marco do Cinema Novo brasileiro, Othon interpretou Corisco, personagem que se tornou um dos mais emblemáticos de sua trajetória.

Durante a entrevista, o ator revelou que a participação no longa-metragem aconteceu de maneira inesperada. Glauber havia escolhido outro intérprete para o personagem, mas, diante de um conflito de compromissos, procurou Othon, que inicialmente resistiu ao convite por estar envolvido na preparação de uma montagem teatral na Bahia.

Após negociações, conseguiu uma liberação de 15 dias para participar das filmagens. O processo de construção do personagem começou ainda durante a viagem ao sertão baiano, em uma jornada de aproximadamente nove horas de jipe, quando ator e diretor discutiram as possibilidades de interpretação.

Othon não desejava reproduzir a imagem tradicional dos cangaceiros já apresentada em outras produções. Queria encontrar a dimensão humana de Corisco, explorando suas contradições e particularidades. "E onde está o humano? O humano do personagem, é a vida do personagem que está ali", questiona.

Segundo ele, a abertura de Glauber Rocha para modificar a concepção original do personagem foi determinante para o resultado.A parceria resultou em uma amizade e em novos encontros profissionais, entre eles o filme “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, lançado em 1969.

Aos 93 anos, a experiência de falar de si mesmo

Depois de interpretar tantos personagens, Othon Bastos encontrou um novo desafio. Em 2024, estreou “Não Me Entrego, Não!”, seu primeiro monólogo, com texto e direção de Flávio Marinho.

A ideia surgiu depois que Othon assistiu a uma peça escrita por Marinho, crítico teatral com quem mantinha uma amizade de longa data. Encantado com o espetáculo, convidou o dramaturgo para desenvolverem um trabalho juntos.

O processo começou com conversas sobre a carreira e a vida pessoal do ator. Para auxiliar na construção do texto, Othon reuniu aproximadamente 600 a 700 páginas de anotações, reflexões, citações e trechos de livros que o acompanharam ao longo dos anos.

Inicialmente, a expectativa era realizar uma temporada de apenas dois meses. A recepção do público, no entanto, superou as previsões e fez o espetáculo percorrer diferentes cidades brasileiras. "A peça teve uma repercussão que eu mesmo não esperava. Eu em cena falando de mim mesmo. Todo dia você faz laboratório de si próprio, quer dizer, você está fazendo uma autoanálise diariamente", explica.

Apesar de revisitar episódios marcantes, conflitos e obstáculos enfrentados ao longo da carreira, Othon estabeleceu uma condição para o espetáculo. Não queria que a narrativa fosse conduzida pela amargura. Seu desejo era demonstrar como as adversidades podem ser superadas sem perder a alegria de viver. "Você tem que mostrar como você conseguiu passar por tudo isso e ir em frente, mesmo com desavenças, mas ter o prazer de viver", destaca.

A escolha está diretamente relacionada à maneira como o ator compreende o papel da arte na sociedade. Para ele, o conhecimento e as experiências acumuladas não devem permanecer restritos a quem os viveu, mas ser compartilhados. "O ator é aquele que doa, ele transmite para os outros, não guarda dentro de si", afirma.

Othon contou que uma das maiores satisfações acontece após as apresentações, quando espectadores se aproximam para agradecer pelas reflexões proporcionadas pelo espetáculo. Alguns chegam a relatar que encontraram na peça um incentivo para não desistir diante das dificuldades.

"Eu nasço contente todas as manhãs"

Aos 93 anos, Othon Bastos preserva uma lembrança da infância que continua orientando sua maneira de enxergar a existência. Quando tinha aproximadamente 11 anos, encontrou em um livro na mesa de cabeceira do pai uma frase atribuída à poeta Emily Dickinson: "Eu nasço contente todas as manhãs".

As palavras atravessaram as décadas e se transformaram em uma espécie de filosofia pessoal."Você tem que ser sempre alegre, você tem que viver a vida com alegria", afirma.

Essa disposição também se manifesta na relação com o palco. Mesmo depois de incontáveis apresentações e personagens, Othon revelou que ainda sente ansiedade antes de entrar em cena. "Continuo sentindo o mesmo pavor de entrar em cena. Quando eu fico esperando estar acontecendo uma cena, para eu poder entrar. Então, esse momento entre entrar, esperar e entrar em cena, evidentemente que eu fico ansioso ", confessou, sorrindo ao falar da expectativa que antecede cada apresentação.

Ao final da entrevista, depois de revisitar mais de sete décadas dedicadas à interpretação, Othon recebeu uma última pergunta sobre o que ainda desejava realizar. Sua resposta não envolveu novos prêmios, personagens grandiosos ou reconhecimentos profissionais. O desejo era mais simples e, ao mesmo tempo, profundamente significativo. "Aos 93 anos, a única coisa que eu peço, eu digo assim: Deus, me dê mais um pouco de tempo para eu continuar fazendo aquilo que eu amo."

Talvez seja essa a maior lição deixada pelo encontro com Othon Bastos. Para um homem que dedicou a vida a interpretar tantas outras existências, o papel mais importante continua sendo o de viver a própria. E, enquanto houver tempo, ele parece determinado a seguir fazendo aquilo que ama. Afinal, como o próprio título de seu espetáculo anuncia: “Não Me Entrego, Não!”

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