Minuano Conecta
Kika Simone volta ao rock sem pedir licença
por Yuri Cougo Dias
Por Yuri Cougo Dias
O rock nunca deixou de acompanhar Kika Simone. O que ficou em suspenso por quase duas décadas foi a possibilidade de voltar a gravar um disco cantado com as próprias composições. Depois do fim da Phosphurus, em 2007, ela continuou tocando guitarra, compondo, produzindo música e trabalhando com trilhas sonoras, mas não lançou outro álbum de rock com sua voz à frente. Agora, aos 51 anos, decidiu que não pretende mais adiar esse reencontro. “Eu vou fazer agora, daqui pra frente, só o que eu quero”, resume.
A frase combina com a artista e com o som que prepara: um rock pesado, arrastado, de letras reflexivas, distante da obrigação de oferecer felicidade instantânea. Enquanto a música de consumo rápido disputa segundos de atenção nas plataformas digitais, Kika quer colocar no mundo canções que falam de cansaço, superficialidade e de uma sociedade que parece ter aprendido a sobreviver sem conseguir viver. O disco será lançado em breve, antecedido pela divulgação de uma ou duas faixas.
A retomada do rock ocorre em paralelo à reativação do Mercado Cultural Fronteira, que Kika Simone passa a conduzir ao lado do músico e produtor Ricardo Belleza. Além de manter o estúdio de ensaio, a proposta é transformar o espaço em um ponto de encontro para a produção autoral, com shows, exposições, oficinas e intercâmbio com artistas de outras cidades e países. A iniciativa busca inserir Bagé de forma mais consistente nos circuitos culturais do Sul, ampliando as oportunidades para músicos locais e aproximando o público de diferentes expressões artísticas.
Uma casa, muitas histórias e nenhum palco
A entrevista acontece dentro do Mercado Cultural Fronteira, ainda em fase de ajustes. Nas paredes, referências ao rock e ao cinema ajudam a compor o ambiente. No andar de cima, uma peça volta a receber músicos para ensaios. O espaço tem detalhes artísticos no piso, uma área externa ampla e uma disposição que privilegia a proximidade. Não haverá palco convencional: os artistas devem tocar dentro da própria casa, sem uma estrutura que estabeleça uma distância rígida entre quem se apresenta e quem assiste.
A conversa transcorre entre cadeiras e copos de água, em um dia quente. Ao lado, uma lareira lembra que o mesmo espaço também precisa funcionar no inverno. Nos fundos, há lugar para preparar comida, dividir uma cerveja e continuar a conversa depois da música. A atmosfera não pretende reproduzir a impessoalidade de uma casa de espetáculos. Kika quer preservar justamente aquilo que os grandes espaços costumam sacrificar em nome da estrutura: a sensação de estar na casa de alguém, com a música acontecendo perto o bastante para dispensar intermediários.
“Eu não considero um bar, mesmo tendo uma cerveja”, afirma. O objetivo é manter um centro cultural em funcionamento, com atividades em horários variados e programação que não dependa exclusivamente da madrugada. A proposta é abrir a casa ao público de quinta a domingo, sem abandonar a rotina de ensaios durante a semana. O espaço também poderá receber residências artísticas, com condições para que criadores trabalhem e permaneçam na cidade.
A ideia tem relação direta com a trajetória de Kika. Em Buenos Aires, ela integrou uma casa de artistas que reunia música, teatro, cinema, dança e instalações. Oito artistas de diferentes países compartilhavam o espaço, que funcionava como residência e lugar de produção. Em Bagé, a escala é outra, mas o princípio se mantém: aproximar linguagens e criar condições para que o trabalho artístico aconteça antes de depender de um palco, de um edital ou de um convite vindo de fora.
Antes do celular, havia o estúdio do Guinho
A retomada do Mercado Cultural Fronteira também traz à memória espaços que contribuíram para formar uma geração de músicos bajeenses. Durante a entrevista, Kika percebe que está perto do endereço onde funcionava o Studio Digital, gerenciado pelo músico, publicitário e produtor musical Hugo Ustárroz Pêgas, o Guinho, que trabalhou com a Phosphurus. Na época, os integrantes da banda aproveitavam as primeiras horas da manhã para gravar no estúdio. Quando surgia um novo arranjo ou uma ideia para uma música, a prioridade era registrá-la antes que se perdesse.
“Cansamos de chegar ali, o Guinho estava gravando outras bandas, e a gente ficava esperando dez minutinhos para entrar e gravar, para não esquecer”, recorda. Não havia celular para registrar uma melodia no instante em que surgia. Havia ensaio, conversa, tentativa e a possibilidade de transformar uma ideia em música com a ajuda de quem entendia de gravação.
O estúdio favorecia uma dinâmica coletiva. Kika levava a estrutura inicial de uma composição, com guitarra e voz; Diego, parceiro de criação na Phosphurus, ajudava a desenvolver os arranjos, acrescentando peso, detalhes e novas soluções. A banda crescia nesse processo de experimentação. A memória daquele período ajuda a explicar por que ela considera tão importante manter uma sala de ensaio disponível para os músicos de hoje. Ter onde tocar não resolve todas as dificuldades de uma banda autoral, mas a ausência desse espaço pode impedir que muita coisa sequer comece.
A história da Phosphurus também está ligada à necessidade de expressão. Entre 2001 e 2007, a banda construiu um repertório de rock pesado e grunge, com uma postura que não se limitava ao som. Kika lembra que os integrantes podiam ser tímidos fora do palco, mas, quando começavam a tocar, a energia mudava. “Parecia que nós íamos botar fogo em tudo”, conta. Quando perguntavam o que haviam consumido antes das apresentações, ela respondia que era a música.
A formação também ocupou espaços ligados ao movimento LGBTQIA+, incluindo apresentações em paradas de São Paulo e Porto Alegre. Em um contexto no qual essa presença não era tão comum, a banda combinava guitarras distorcidas com uma postura de enfrentamento a preconceitos. Kika identifica no Nirvana, especialmente na atitude de Kurt Cobain diante de temas como feminismo e vulnerabilidade, uma referência que ultrapassava a sonoridade.
Para ela, o rock perde força quando se transforma apenas em acabamento técnico. Uma gravação pode ser impecável e um show pode soar perfeito, mas isso não substitui a personalidade nem a disposição de se posicionar diante do que está errado. “Não é no sentido técnico, sonoro, mas no conceito. É a atitude, é a tua vida”, afirma. Não se trata de criar polêmica por esporte, mas de não confundir profissionalismo com neutralidade permanente.
Vinte anos longe dos vocais, mas nunca longe da música
O fim da Phosphurus não encerrou a atividade musical de Kika. Depois de viver em Porto Alegre, ela se mudou para Buenos Aires em 2010 e permaneceu na capital argentina por oito anos. Antes disso, em 2008, havia começado a tocar guitarra na Electric Minds, banda formada por mulheres que circulava pelo circuito alternativo gaúcho e chegou a fazer mais de 130 apresentações em um ano, segundo ela.
Na Argentina, encontrou espaço para aprofundar o trabalho instrumental e ampliar a atuação como compositora. A música passou a dialogar com outras linguagens, especialmente o cinema e o teatro. Nas trilhas, compôs para produções audiovisuais; no palco teatral, desenvolveu sonoplastias e ambientes sonoros executados ao vivo, em coordenação com a iluminação e o andamento dos atores.
Uma cena podia durar mais do que o previsto, e o som precisava acompanhar a mudança. O ruído não podia entrar apenas porque estava marcado no roteiro: tinha de responder ao que acontecia diante do público. Em uma montagem na qual trabalhou por oito meses, Kika brincou com o diretor que, na próxima, talvez incluísse até o cheiro do café. A piada revela o nível de detalhe a que chegava o trabalho — e a experiência de construir uma atmosfera capaz de envolver quem assistia.
Esse percurso ampliou seu repertório artístico, mas não apagou a relação com o rock. Kika continuou compondo e acumulando músicas, muitas delas sem gravação definitiva. Algumas atravessaram anos guardadas; outras chegaram a circular em registros de ensaio, sem entrar nos discos. Ao decidir preparar um novo álbum, ela voltou a esse arquivo e encontrou material que ainda fazia sentido.
O reencontro não é uma tentativa de reproduzir exatamente a banda que existiu nos anos 2000. É uma forma de retomar composições e, ao mesmo tempo, reconhecer quem ela se tornou depois de trabalhar com música instrumental, cinema e teatro. O novo disco deverá reunir entre dez e 11 faixas, algumas compostas há cerca de 16 anos. A canção “Onze”, por exemplo, traz uma reflexão sobre o que dizer quando o mundo estiver acabando — tema que, na avaliação da artista, encontrou o momento certo para ser gravado.
A sonoridade será pesada e arrastada, mas Kika não se preocupa em encaixar cada música em uma categoria. O álbum não pretende disfarçar o desconforto do presente com refrões de otimismo obrigatório. “As pessoas estão muito cansadas. Está todo mundo sobrevivendo, ninguém está conseguindo viver”, diz. Ela critica a exposição permanente nas redes sociais e a obrigação de demonstrar felicidade mesmo quando a realidade não acompanha a imagem publicada.
Há dor nesse repertório, mas não como exercício de autopiedade. Kika acredita que uma música pode acolher justamente por não fingir que está tudo bem. A intenção é oferecer identificação a quem escuta, sem transformar a experiência em mais um produto embalado para consumo rápido.
O passado não cabe inteiro no Spotify
A volta aos vocais também abre a possibilidade de revisitar o repertório da Phosphurus. Parte das gravações está disponível nas plataformas digitais, mas outras composições ficaram de fora dos discos. Kika pretende recuperar algumas delas, regravar músicas e avaliar a remasterização de materiais antigos. Entre as faixas que gostaria de resgatar está “12 Quilômetros”, que não entrou em álbum, além de outras obras que representam momentos específicos da trajetória da banda.
Uma das possibilidades em estudo é incluir no novo disco uma música da Phosphurus que nunca chegou a ser gravada oficialmente. A canção existe em um registro de ensaio e aborda a rotina, a repetição dos dias e a passagem do tempo. Para Kika, recuperar essas obras é também preservar uma parte da história musical de Bagé que corre o risco de ficar restrita à memória de quem acompanhou a banda.
Ela lembra de um show realizado em um pequeno espaço próximo à Praça da Estação, quando a entrada custava cinco reais. A arrecadação chegou a cerca de R$ 1,5 mil — o valor que faltava para concluir a mixagem de um disco. O público entrou, saiu, voltou, comprou camisetas e ajudou a completar o dinheiro necessário para a gravação. Não havia uma estrutura confortável nem um circuito consolidado de casas para receber bandas autorais. Ainda assim, a mobilização aconteceu.
Em outro reencontro, no Tupinambá, em 2017, integrantes da Phosphurus voltaram a tocar depois de mais de uma década sem se reunir. O ensaio foi feito às pressas, algumas letras precisaram ser recuperadas de memória e o som não saiu como desejado. O show, porém, ficou marcado pela energia e pela resposta do público. A lembrança desmonta a ideia de que a história de uma banda se mede apenas pela qualidade de suas gravações ou pela permanência em plataformas digitais. Há também os lugares, as pessoas e as noites em que uma música passa a fazer parte da vida de alguém.
Kika já encontrou sinais desse vínculo em Bagé. Em uma ocasião, uma pessoa cantou para ela uma composição antiga que a própria autora havia esquecido. O repertório continuava vivo na memória de quem o escutou. É por isso que ela pretende voltar a tocar músicas da Phosphurus, inclusive canções que não tiveram grande circulação. Nem todo mundo vai lembrar delas, reconhece, mas isso não diminui a importância de apresentá-las novamente.
Uma rota para quem faz música autoral
A retomada do Mercado Cultural Fronteira dá continuidade a uma atuação que Kika já desenvolve na articulação entre artistas e espaços culturais. Ela participa do Sonora, festival internacional de mulheres compositoras, e mantém contatos que ajudam a aproximar músicos do Brasil, da Argentina e do Uruguai. A intenção é aproveitar essas conexões para fazer de Bagé um ponto de passagem, em vez de assistir a bandas circularem por cidades próximas sem chegar à região.
Kika cita a possibilidade de fortalecer uma rota para artistas de rock e metal, com apresentações periódicas e intercâmbio entre cidades como Santa Maria, Pelotas e Bagé. Também pretende receber músicos de outros países e encaminhar artistas locais para apresentações fora daqui. O Mercado Cultural Fronteira pode funcionar como uma base para esse movimento, desde que a programação priorize a obra autoral e não apenas a ocupação do espaço.
O cuidado com os artistas locais já aparece em experiências anteriores. Kika lembra de músicos que tinham composições gravadas, mas nunca haviam se apresentado diante de público. Em uma dessas situações, convidou um jovem para cantar no estúdio, em uma tarde sem movimento. O que começou como uma tentativa de vencer a vergonha terminou em uma apresentação que surpreendeu quem estava presente. Em outra ocasião, reuniu dez artistas em uma noite de música autoral, com três canções para cada um.
É um trabalho de escuta e incentivo que, para ela, faz diferença na trajetória de quem ainda procura espaço. A qualidade existe, afirma, mas precisa encontrar condições de aparecer. A história da própria Phospurus oferece um exemplo: a banda também contou com pessoas que acreditaram no trabalho e ajudaram a viabilizá-lo. Agora, Kika quer exercer esse papel para outros músicos.
O novo disco deve ganhar apresentação ao vivo no circuito do Morrosttock, festival em que ela tocou em 2010 com a Electric Minds. A intenção é levar o repertório completo do álbum, acompanhado de músicas da Phospurus, em um show de aproximadamente uma hora e vinte minutos. Kika também planeja apresentações no Uruguai e na Argentina, além de buscar oportunidades em outras regiões brasileiras. O lançamento integral está previsto para janeiro, com a possibilidade de divulgar faixas antes disso.
Aos 51 anos, ela segue gravando, compondo, tocando baixo em outro projeto, produzindo atividades para o Mercado Cultural Fronteira e cuidando da mãe idosa. Diz que não consegue se dedicar a uma coisa só — e que é assim que gosta de viver. O retorno ao rock, portanto, não significa abandonar o que veio depois da Phosphurus. Significa colocar mais uma vez a própria voz em circulação, sem abrir mão das outras experiências que acumulou.
Em Bagé, onde a memória de bandas autorais convive com a dificuldade de encontrar espaços permanentes para ensaiar e tocar, Kika quer recuperar músicas que ficaram para trás e ajudar a criar condições para que outras não se percam antes mesmo de chegar ao público. O Mercado Cultural Fronteira é parte dessa tentativa. O disco é outra. Ambos partem de uma ideia simples, embora nem sempre fácil de colocar em prática: a música precisa de espaço para existir — e alguém tem de abrir a porta.

