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Quando o goleiro não consegue defender a última bola

Em 05/07/2026 às 17:14h, por Telmo Carvalho

Antes de começar esta coluna, peço licença aos meus leitores. Hoje não escreverei sobre tática, escalações, resultados ou campeonatos. Hoje, o futebol será apenas o cenário para falar da vida, da saudade e da despedida de um homem que marcou profundamente a minha existência.

Na última sexta-feira, perdi meu tio Zezé. Mas dizer apenas que perdi um tio seria diminuir a dimensão da sua importância. Perdi um homem que sempre considerei um segundo pai, uma referência de caráter, honestidade, simplicidade e dignidade. Um ser humano que transformava suas atitudes nas mais valiosas lições de vida.

Foi ele quem me mostrou que o futebol era muito mais do que um jogo. Ainda menino, era atrás da sua goleira que eu sonhava em fazer grandes defesas. Enquanto ele protegia o gol, eu tentava imitar cada movimento, imaginando que um dia poderia ser um goleiro como ele. Naquelas tardes de domingo, no estádio do Guarani de Piratini, sem que nenhum de nós percebesse, ele estava moldando meus sonhos.

Foi ao seu lado que nasceu em mim o amor pelo esporte. Observando sua coragem, sua liderança e sua serenidade debaixo das traves, escolhi uma posição que poucos têm a coragem de ocupar: a de goleiro. Talvez ele nunca tenha imaginado, mas foi ali, atrás daquela goleira, que começou a nascer a paixão pelo futebol que carrego até hoje.

O goleiro vive uma das mais belas contradições do esporte. Enquanto todos correm em direção ao gol adversário, ele permanece ali, protegendo o que há de mais precioso. Não busca os aplausos fáceis. Sua missão é evitar a derrota. Passa noventa minutos preparado para um único instante decisivo.

A vida também é assim. Ao longo da caminhada, encontramos pessoas que assumem esse papel silencioso. Elas nos protegem das dificuldades, orientam nossos passos sem impor caminhos e nos oferecem segurança apenas pela força da sua presença. São os goleiros da nossa história.

Meu tio foi um desses goleiros. Defendeu meus sonhos quando eles ainda eram pequenos. Protegeu meus valores pelo exemplo, jamais pelo discurso. Fez defesas invisíveis que somente hoje consigo compreender.

Mas existe uma bola que nenhum goleiro consegue alcançar. É a bola da finitude. Contra o tempo não há reflexo suficiente. Contra a vontade de Deus não existe ponte milagrosa, nem defesa espetacular no ângulo. Chega um momento em que o árbitro olha para o relógio e apita o fim da partida.

E, por mais que saibamos que esse dia chegará para todos, o silêncio que permanece depois do apito final é ensurdecedor. Hoje, a arquibancada do meu coração está em luto. Sinto a dor da ausência, mas também a gratidão de quem teve o privilégio de conviver com um homem extraordinário.

Se hoje amo o futebol, se um dia escolhi vestir as luvas e defender uma meta, muito dessa história começou ao seu lado. E essa herança ninguém poderá tirar de mim. Os grandes jogadores permanecem eternos na memória dos torcedores. Os grandes homens permanecem eternos no coração daqueles que tiveram o privilégio de amá-los.

Obrigado, tio Zezé. Obrigado por me ensinar que ser goleiro era muito mais do que defender uma bola. Era defender princípios, amizades, a família e os sonhos. Obrigado por despertar, naquele menino que o observava atrás da goleira, uma paixão que atravessaria toda a vida. Sem saber, o senhor ajudou a construir a minha própria história.

A sua partida deixou um vazio impossível de preencher, mas também um legado que jamais será apagado pelo tempo. Enquanto houver uma bola rolando, um goleiro realizando uma defesa improvável ou uma criança sonhando atrás de uma goleira, de alguma forma o senhor continuará presente.

Porque existem pessoas que deixam o campo, mas jamais deixam o jogo das nossas vidas. E quando o árbitro apitou o fim da sua partida, tenho a certeza de que Deus o recebeu como recebe os grandes craques: de pé, sob aplausos.

Descanse em paz, tio Zezé. A sua missão foi cumprida. O seu legado seguirá vivo em cada lembrança, em cada ensinamento e, principalmente, no coração daqueles que tiveram o privilégio de fazer parte do seu time.

"O árbitro apitou o fim da sua partida. Mas, para quem teve o privilégio de jogar a vida ao seu lado, o seu nome continuará eternamente escalado no time da saudade."

Fraterno abraço e votos de um abençoado final de semana. ∴

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