Saúde
Janeiro Branco e recomeços
Celina Santos Psicóloga e professora do curso de Psicologia da Urcamp
por Viviane Becker
O início de um novo ano carrega, invariavelmente, o simbolismo do recomeço. É nesse contexto de renovação que se estabelece o Janeiro Branco, uma campanha nascida no Brasil em 2014, idealizada por psicólogos com o objetivo de colocar a saúde mental em evidência. A escolha do mês e da cor não é aleatória: janeiro representa uma "folha em branco" em que as pessoas estão mais propensas a projetar metas e revisar trajetórias; o branco simboliza o papel onde se pode escrever uma nova história, destacando que a vida mental é um projeto que demanda planejamento e cuidado contínuo.
Sob a ótica da psicologia, a saúde mental é frequentemente mal compreendida como a simples ausência de transtornos mentais. No entanto, ela é um conceito dinâmico e multidimensional. Trata-se da capacidade do indivíduo de gerenciar suas emoções, lidar com as adversidades inerentes à vida (resiliência) e manter um equilíbrio funcional entre suas capacidades cognitivas e comportamentais. Estar mentalmente saudável significa possuir recursos internos para enfrentar o estresse, trabalhar de forma produtiva e manter vínculos sociais significativos.
Para identificar quando esse equilíbrio está ameaçado, a ciência aponta sinais de alerta que não devem ser ignorados. Alterações persistentes no padrão de sono e apetite, isolamento social súbito, irritabilidade acentuada, perda de interesse em atividades antes prazerosas e uma sensação de exaustão que não se recupera com o descanso são indicadores de que a psique está sob sobrecarga. Ignorar esses sintomas é permitir que quadros leves evoluam para condições mais severas.
Entretanto, é fundamental traçar uma crítica social sobre o tema. Embora o Janeiro Branco cumpra um papel vital de conscientização, não podemos reduzir a saúde mental a um esforço meramente individual ou a um "estado de espírito" alcançado por meio de frases motivacionais. A saúde da mente é indissociável das condições sociais: a insegurança alimentar, a precariedade do trabalho, o racismo, o machismo e a desigualdade socioeconômica são fatores determinantes de adoecimento psíquico. Tratar o bem-estar emocional como um artigo de luxo ou uma responsabilidade exclusiva do sujeito é desconsiderar que mentes saudáveis necessitam de solo social fértil e seguro para se desenvolverem.
A assistência, portanto, deve ser acessível. No âmbito das políticas públicas, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece suporte através das Unidades Básicas de Saúde e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Em âmbito local, destaca-se o papel fundamental do SEPA (Serviço Escola de Psicologia), localizado no Hospital Universitário da URCAMP. Como um braço de formação e atendimento, o SEPA cumpre a função social de democratizar o acesso à psicoterapia, oferecendo um espaço de escuta ética e técnica para aqueles que precisam reorganizar sua "folha em branco".
O Janeiro Branco é o convite, mas o cuidado deve ser a prática diária. Que a conscientização deste mês se desdobre em políticas públicas permanentes e em uma vigilância constante sobre nosso bem-estar, lembrando que a saúde mental se cultiva todos os dias, de janeiro a janeiro.

