Cidade
Calceteira encontra novo caminho de trabalho em Bagé
por Melissa Louçan
Sob o sol forte e em meio à poeira das ruas em obra, uma figura chama a atenção de quem passa. De botina, calça larga, boné e luvas de trabalho, ela encaixa blocos de concreto no chão. Mas há um detalhe que não passa despercebido: os cabelos longos e bem cuidados, as unhas sempre feitas e o batom no lugar. É assim que a calceteira Eline Rochele Vargas Stahl, 42 anos, se apresenta para encarar a rotina nas ruas de Bagé.
Eline começou a trabalhar no setor de calçamento da prefeitura em maio do ano passado. A história dela, no entanto, não começou na construção. Técnica de enfermagem por formação, ela veio de Fortaleza dos Valos, cidade pequena do interior onde sempre esteve acostumada ao trabalho manual. No campo, plantava, colhia e ajudava nas atividades da família.
A mudança para Bagé aconteceu por causa da família. Casada há 24 anos com Rogério e mãe de Andrei e Adriano, ela decidiu acompanhar o marido e os filhos quando surgiu a oportunidade de recomeçar na cidade. Andrei, o mais velho, assumiu um novo desafio no campo, e a família veio junto.
Sem conhecer muita gente e tentando se inserir no mercado de trabalho local, Eline soube que abriria uma seleção para o serviço de calçamento. Não era a área dela, mas era uma oportunidade. Ela se inscreveu, passou e acabou descobrindo um novo caminho em um trabalho que exige técnica e bastante disposição. “Eu não dependo de homem, de marido. Vou aonde tiver serviço”, afirma.
Apesar da rotina pesada, Eline não abre mão de pequenos gestos que considera parte de quem é: “O batonzinho eu não tiro. Minhas unhas eu sempre faço, sou caprichosa. Do feminino eu não abro mão”, conta.
No início, a presença dela no setor chamou atenção. Alguns colegas chegaram a brincar, chamando Eline de “patricinha”. Mas o respeito veio rápido, à medida que o trabalho foi aparecendo. No dia a dia da equipe, ela aprendeu a técnica e a dinâmica das obras.
Nas ruas, a reação das pessoas também costuma ser de curiosidade. Muitos param para olhar ou comentar quando veem uma mulher trabalhando no calçamento. “O pessoal pergunta: ‘o que tu está fazendo aí, tão bonita, trabalhando no sol?’”, conta ela, que costuma levar a situação com bom humor.
{AD-READ-3}O apoio em casa também nunca faltou. Rogério conhece bem o espírito inquieto da esposa (ela mesma diz que é “metida” no sentido de não ter medo de desafio) e respeita as escolhas dela. A independência sempre foi uma marca na trajetória de Eline, seja na enfermagem, no campo ou agora nas ruas da cidade.
Para ela, o esforço vale a pena principalmente quando o resultado aparece. Depois que uma rua fica pronta, não é raro receber mensagens de moradores agradecendo pelo trabalho da equipe. E é nesse momento que vem a sensação de dever cumprido: “É gratificante. A gente passa depois e vê que o serviço ficou ali. É o nosso serviço que fica”, resume.

