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Museu da Colônia Nova revela história de migração e identidade
por Redação JM
No interior de Aceguá, na região de fronteira com o Uruguai, o Museu da Colônia Nova reúne objetos, relatos e tradições que ajudam a contar a trajetória dos descendentes de menonitas que se estabeleceram no sul do Brasil ao longo do século 20. Instalado em um prédio histórico que já funcionou como escola e hospital da comunidade, o espaço é resultado de um esforço coletivo de preservação da memória local.
O acervo do museu foi formado exclusivamente por doações de moradores da própria colônia. Segundo os responsáveis pela iniciativa, os objetos (que incluem móveis, utensílios domésticos, fotografias, instrumentos e até máquinas agrícolas) são, em grande parte, provenientes de famílias que decidiram preservar itens após o falecimento de parentes mais antigos. “Tudo aqui foi doado. São peças que contam a nossa história”, relata Susi Boschmann Martens, uma das responsáveis pelo acervo.
A organização do espaço teve participação direta de membros da comunidade, entre eles a historiadora Ingrid e o morador Johan, responsável por auxiliar na restauração de peças. O museu funciona mediante agendamento prévio e não possui atendimento contínuo, refletindo seu caráter comunitário e voluntário.
Origem marcada por migrações
A história retratada no museu remonta à Europa, mais especificamente à antiga Prússia, território que deixou de existir após ser dividido entre países como Alemanha, Polônia e Holanda. De lá, grupos menonitas migraram para o Império Russo a convite da imperatriz Catarina II da Rússia, atraídos pela promessa de terras férteis e liberdade religiosa.
Após cerca de dois séculos na Rússia, esses grupos passaram a enfrentar perseguições durante o período da Revolução Russa e, posteriormente, na Primeira Guerra Mundial. O cenário levou a novas migrações, com destinos como Canadá, Estados Unidos, Paraguai e Brasil.
No território brasileiro, a chegada ocorreu por volta de 1930, com assentamento inicial em Santa Catarina. Anos depois, em busca de terras mais adequadas ao cultivo de trigo, famílias migraram novamente, desta vez para a região de Aceguá, onde fundaram a Colônia Nova entre o fim da década de 1940 e o início dos anos 1950.
Trabalho coletivo e identidade
Desde sua formação, a Colônia Nova foi marcada por práticas de cooperação. Estruturas como escola, igreja e hospital foram construídas com trabalho voluntário dos moradores e recursos obtidos por meio de doações, inclusive internacionais.
O prédio que hoje abriga o museu é exemplo desse processo. Inicialmente utilizado como escola e igreja, como recorda o presidente da comunidade da Colônia Nova, Davi Boschmann, foi posteriormente adaptado para funcionar como hospital comunitário até o final da década de 1960. Com o crescimento da população, uma nova unidade hospitalar foi construída, também com participação direta dos colonos.
Além da infraestrutura, a comunidade manteve práticas culturais próprias, como o uso do dialeto alemão “plautdietsch” (ou “alemão baixo”), transmitido oralmente entre gerações. Atualmente, no entanto, o idioma enfrenta risco de desaparecimento, já que seu uso é cada vez menos frequente entre os jovens, conforme explica Susi.
Transformações econômicas
A economia da Colônia Nova também passou por mudanças ao longo do tempo. Inicialmente baseada no cultivo de trigo, adaptado às áreas planas da região, a produção agrícola evoluiu para outras culturas e atividades, como a pecuária leiteira e, mais recentemente, o cultivo de soja.
A expansão da comunidade levou ainda à criação de novas colônias agrícolas, como a Colônia Médici, em 1969, e a Colônia Pioneira, em 1998, ambas formadas por descendentes dos primeiros colonos.
Preservação da memória
Mais do que um espaço expositivo, o Museu da Colônia Nova representa um esforço de preservação identitária. Sem financiamento público direto para sua manutenção, o local continua sendo sustentado pela própria comunidade, que mantém viva a tradição de cooperação.
Para os moradores, o museu não apenas guarda objetos, mas também simboliza valores que marcaram a trajetória do grupo: fé, trabalho e união. Em meio às transformações sociais e econômicas, a iniciativa busca garantir que a história das migrações e da construção coletiva da Colônia Nova permaneça acessível às futuras gerações.
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Objetos e documentos ajudam a manter viva a história
O Museu da Colônia Nova reúne um acervo formado inteiramente por doações de famílias da comunidade, como explica Susi e Davi. Composto por móveis antigos, utensílios domésticos, fotografias, brinquedos, instrumentos musicais e equipamentos agrícolas que retratam o cotidiano das diferentes gerações de descendentes menonitas.
As peças, muitas delas preservadas após o falecimento de moradores mais antigos, ajudam a reconstruir a trajetória da imigração e da vida comunitária na região.
O museu está instalado em um prédio histórico multifuncional, erguido com trabalho coletivo dos colonos, que ao longo do tempo já abrigou escola, igreja e, posteriormente, o hospital da comunidade até o fim da década de 1960. Hoje, o espaço mantém sua estrutura original adaptada para exposição e funciona mediante agendamento, reforçando o caráter comunitário e voluntário da iniciativa.

