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Do luto à elegância: as origens históricas do pretinho básico
Clarisse Ismério
Historiadora, Doutora em História do Brasil
Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp
Coordenadora dos Cursos de Pedagogia e História da Urcamp
Em tempos de lançamento do filme O Diabo Veste Prada 2, nada melhor do que trazer à pauta a origem da peça coringa mais famosa do universo fashionista: o pretinho básico.
Toda mulher possui em seu guarda-roupa o famoso pretinho básico, que, segundo os estilistas, é definido como a materialização da simplicidade aliada à mais pura elegância.
Foi idealizado por Coco Chanel, em 1926, quando publicou um croqui de um vestido preto reto na revista Vogue. Em sua obra, Chanel teria traduzido a filosofia da simplicidade na moda defendida por Jean Patou.
Nos anos 1950, já era uma indumentária imprescindível nos coquetéis. Sua consagração, porém, ocorreu em 1961, com o filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s), no qual a atriz Audrey Hepburn vestiu um modelo extraordinário criado pelo estilista Hubert de Givenchy.
Mas quais seriam as origens históricas do pretinho básico? A cor preta não estava ligada ao luto?
A moda difundida pelas cortes europeias era marcada por cores vibrantes, tanto para homens quanto para mulheres. No entanto, a partir da metade do século XVI, devido à ascensão econômica e cultural da Espanha, adotou-se o hábito de usar roupas pretas. Para os espanhóis, tratava-se de uma cor que simbolizava rigor, sobriedade e religiosidade.
A partir desse período, a veste negra passou a representar o luto. Esse caráter foi acentuado pela Rainha Vitória, que, após a morte de seu esposo, o Príncipe Albert, em 1861, optou por usar o luto até o fim de sua vida. Durante a segunda fase da era vitoriana, o preto — extremo e elaborado — vestiu os britânicos e passou a influenciar outros povos.
O almanaque católico Estrela do Sul, de 1928, estabelecia que o tempo de duração do luto deveria ser: “por pais, avós e consortes — 12 meses; por padrastos ou sogros — nove meses; por filhos, genros, noras e cunhados mais remotos — de um a dois meses”.
Além disso, segundo a doutrina positivista, extremamente marcante no Rio Grande do Sul republicano, o laço matrimonial era considerado um vínculo tão forte que deveria ser mantido mesmo após a morte do marido. Existia a chamada “lei da viuvez eterna”, que regulava a vida das viúvas por meio de normas de conduta estabelecidas por Auguste Comte: permanecer fiel ao marido, cultuando sua memória e lamentando eternamente a separação. Mantendo-se assim, preservaria sua pureza e a moral do falecido e, como resultado de seu recato, manteria a família estruturada. Caso não seguisse essas normas, sua moral seria considerada manchada, o que poderia levar à ruína do lar. A viuvez era entendida como um meio de resgatar o caráter divino de “anjo”, perdido com a vida sexual durante o casamento. O homem viúvo, ao contrário, podia casar-se novamente, pois necessitava de outra “rainha do lar” para cuidar da casa, dos filhos e de si mesmo.
Diante de tais normas sociais, constata-se que o vestido preto, já nesse período, tornou-se peça central do guarda-roupa feminino. Em alguns casos, era também o vestido de noiva, como se observa em fotografias de famílias gaúchas. Como a roupa era cara e o luto, frequente, optava-se pela praticidade de confeccionar o vestido de noiva na cor preta.
Na segunda metade do século XX, a tradição do luto perdeu força, e outras qualidades do preto vieram à tona, como a capacidade de alongar e afinar a silhueta.
O fato é que essa cor invadiu o mundo da moda e do cinema, deixando para trás a imagem exclusivamente associada à tristeza para incorporar estilo, sofisticação e sedução. Tornou-se, assim, a escolha certa da mulher sofisticada.

