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Jussara Carpes: entre a política, o patrimônio e a reinvenção da vida
por Jaqueline Muza
Aos 62 anos, Jussara Hockmuller Carpes carrega uma trajetória marcada pelo envolvimento com a política, pela defesa do patrimônio histórico e por uma forte capacidade de reinvenção. Natural de Cruz Alta, foi em Bagé que construiu sua vida, sua família e consolidou sua atuação pública, a ponto de se considerar hoje “mais bajeense do que qualquer outra coisa”.
Jussara chegou ao município há cerca de 34 anos, aos 28, após conhecer o companheiro, Delvo Oliveira. Antes disso, já havia trilhado um caminho profissional em Porto Alegre, onde se formou em Relações Públicas e atuou na área de comunicação social, organizando congressos e trabalhando junto ao Conselho Regional de Psicologia.
A política, no entanto, sempre esteve presente. “Minha família sempre teve relação com a política. Meu avô era um ser político”, relembra. A aproximação direta com a vida pública ganhou força em Bagé, especialmente a partir da atuação do companheiro e, posteriormente, com o convite do então prefeito Luiz Fernando Mainardi para assumir a chefia de gabinete, no início dos anos 2000.
A partir daí, sua trajetória na gestão pública se consolidou. Jussara também foi secretária de Cultura e vereadora, período em que acompanhou e participou de políticas voltadas à valorização do patrimônio histórico do município, tema que, até hoje, a mobiliza.
Ela destaca que o processo de preservação não deve ser visto como obstáculo, mas como cuidado com a memória coletiva. “Não é só um prédio, é história, é a identidade da cidade. Bagé é um museu a céu aberto”, afirma. Segundo ela, o debate atual sobre o tombamento de imóveis precisa ser feito com responsabilidade, evitando distorções. “Não existe tombamento em massa. Existe uma área delimitada e, dentro dela, poucos imóveis têm restrições mais rígidas”, explica.
Mesmo fora de cargos públicos, Jussara segue envolvida com o tema, atuando de forma independente em projetos culturais e de preservação, além de prestar assessorias pontuais. Sua ligação com a política também permanece, ainda que sem filiação partidária. “Eu sigo sendo uma pessoa de esquerda e continuo fazendo campanha, porque acredito em um projeto de sociedade mais justa”, diz.
A vida, no entanto, impôs desafios que redefiniram prioridades. Em 2010, Jussara foi diagnosticada com câncer, enfrentando posteriormente uma recidiva da doença. O processo exigiu uma pausa na carreira política e uma reconfiguração de sua rotina. “Eu precisei me permitir ser cuidada e me permitir ser curada”, relata.
Hoje, vivendo com uma bolsa de colostomia há mais de uma década, ela fala com naturalidade sobre a condição e reforça a importância da adaptação. “Isso não me impede de fazer nada. A gente se reinventa”, resume.
A experiência também trouxe uma mudança de foco: a família passou a ocupar o centro de sua vida. Mãe de três filhos e avó, Jussara valoriza o tempo que hoje pode dedicar aos seus. “É uma fase linda. Hoje eu cuido da minha família, algo que antes, com a rotina intensa da política, nem sempre era possível”, afirma.
Apesar das transformações, mantém o olhar voltado para o coletivo. Sonhadora, como se define, deseja uma cidade e um país mais justos. “Eu quero dignidade para todos. Tive oportunidades na vida e gostaria que isso fosse realidade para todas as pessoas”, destaca.

