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Sessão-homenagem Sapiran Brito e o teatro em Bagé
por Márlon Castro Posqui
Este jovem acadêmico de jornalismo que vos escreve teve, ainda no Ensino Médio, uma daquelas experiências que permanecem como marco, não apenas na formação profissional, mas na própria relação com a arte de entrevistar. Em 2024, encontrou-se com Sapiran Brito. Pouco mais de meia hora de conversa rendeu um material que orbitava uma ausência: o Teatro Municipal de Bagé.
O diálogo deixou evidente a convicção de Sapiran, que foi político, vice-prefeito e secretário de Cultura de Bagé, sindicalista, ator e diretor: a cidade carece de um espaço adequado para as artes cênicas. Mais do que uma estrutura física, trata-se de um motor cultural e econômico. Na entrevista concedida em 2024, ele sintetizou: “O que vai acontecer tendo uma Casa? Vai despertar vocações, vai profissionalizar pessoas, vai especializar pessoas. Além de que, tendo uma Casa, vai ter que contratar gente, professores, porteiro, eletricista. Então a roda gira, a roda da economia gira”. Fica evidente que a arte, além de seu valor cultural, também representa impacto econômico para o município, impulsionando a chamada economia criativa.
Sessão-homenagem
Na 17ª edição do Festival Internacional de Cinema da Fronteira, uma sessão-homenagem marcou o início da mostra competitiva. Antes da exibição do longa mexicano Ángeles, o curta de 22 minutos “Sapiran Brito e o Teatro em Bagé” foi exibido, projetando na telona não apenas uma trajetória, mas uma ideia insistente: a de que o teatro, em Bagé, sempre existiu, mesmo sem estrutura adequada.
No documentário, essa defesa ganha contornos íntimos. Sapiran relembra que “nasceu com o teatro no sangue” e que, ainda criança, organizava pequenas encenações para um público paciente de avós e tias-avós. O encantamento se fortaleceu na infância, quando sua mãe o levava ao antigo Cine Capitólio e ao Avenida para assistir a companhias vindas do Rio de Janeiro. Já na adolescência, teve contato com grandes nomes da cena brasileira, experiências que consolidaram sua ligação com o palco.
Mas a trajetória também é feita de lacunas e encontros. Em Bagé, a dificuldade de manter grupos permanentes era constante, e o teatro acontecia onde fosse possível: salões paroquiais, espaços improvisados, iniciativas quase sempre sustentadas pela insistência. Foi nesse contexto que surgiu um dos encontros mais decisivos de sua vida: ao ser apresentado ao então Conservatório de Música, hoje Instituto Municipal de Belas Artes, Sapiran conheceu Marilu, que organizava um elenco para uma peça infantil.
“Sabendo do meu interesse para o teatro, me apresentaram para Marilu, que estava formando um elenco para encenar uma peça infantil. Cheguei, encaixei de primeira. Ela dirigia, mas como eu tinha um pouquinho mais de experiência, fui metendo o bedelho e virei assistente de direção e ator. Encenamos Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado”, relembra no curta. A montagem de Pluft marcou o início de uma parceria que atravessaria décadas. Entre atuações, assistência de direção e experimentações, o vínculo artístico se transformou em uma convivência duradoura. Anos depois, ao reencontrá-la após um longo período afastado, Sapiran reconheceria, com certa melancolia, o tempo perdido.
Essa parceria deu origem a uma trajetória intensa no teatro bajeense. Ao longo dos anos, Sapiran esteve envolvido em montagens que vão de adaptações do imaginário regional, como O Negrinho do Pastoreiro e A Salamanca do Jarau, a encenações de maior densidade estética, como A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca.
“Em todos os sentidos, nossa trajetória foi um ato de amor, porque isso dá uma satisfação, o teatro é uma satisfação, é uma realização do momento, do que você está criando, está produzindo. Uma coisa maravilhosa, e melhor ainda é a resposta de público, quando você acerta, claro.”, afirma no documentário, ao explicar a filosofia que guiou esses trabalhos. “Mas se você também não acerta, é bom saber, porque te dá uma referência. Eu fui muito feliz, acertei na maioria das vezes, acho que acertei na maioria das vezes, por isso eu tenho este encanto, este apego, esta coisa.”
Entre as histórias narradas, surgem também episódios que revelam tensões políticas e culturais. Ainda jovem, ao tentar encenar uma colagem sobre a Guerra do Vietnã dentro do Conservatório, foi repreendido pela direção, que classificou a proposta como “subversiva”. A resposta de Sapiran foi chamar o espaço de “mausoléu da arte”, o que resultou em sua expulsão. O modo como o diretor comentou trouxe uma conotação divertida, mas que antecipa uma característica que atravessou toda a sua trajetória. Sapiran encarava o teatro como espaço de confronto, expressão e resistência.
Ao longo das décadas, as montagens se multiplicaram: O Dragão Verde, com suas metáforas políticas; Poetizando, com textos modernistas; Baile de Máscaras, costurado a partir de poemas de Luiz Coronel; e até grandes produções coletivas, como A Paixão de Cristo, encenada nas ruas. Em todas elas, há uma tentativa de fazer teatro mesmo diante da precariedade estrutural.
Essa precariedade, aliás, não é recente. No documentário, Sapiran lembra que Bagé já teve uma grande casa de espetáculos, o Teatro 28 de Setembro, destruído por um incêndio. Desde então, a cidade passou a conviver com espaços pequenos ou improvisados. A maioria das peças produzidas pelo diretor foi encenada no palco do Cenarte/Urcamp, local onde as imagens foram captadas para o curta, que teve pesquisa de Marilu da Luz e Marizele Garcia.
A ausência de um teatro municipal não é apenas simbólica, ela também se materializa em projetos interrompidos. Durante sua atuação na gestão pública, Sapiran participou da idealização de um centro cultural que abrigaria, entre outros espaços, um teatro. Hoje, o local abriga a Biblioteca Municipal. Na entrevista de 2024, ele relembra: “Para nós, seria o Centro Cultural Tarcísio Taborda, com pinacoteca, oficinas de teatro, cinema, fotografia e pintura”. A obra chegou a avançar, mas não foi concluída. “Fizemos dois terços. O último terço, que seria o teatro municipal, não aconteceu. O governo que nos sucedeu resolveu emparedar o nosso trabalho”.
Finalizando a entrevista de 2024, em um ano eleitoral, Sapiran dirigiu uma mensagem direta ao futuro gestor da cidade: “Oi, prefeito. Não sei quem é o senhor. Estou falando com o prefeito de 2025. Salve o teatro, salve a arte teatral! Construa esse tão sonhado Teatro Municipal de Bagé”.
Ao final do documentário exibido no cinema, a fala de Sapiran transcende a própria biografia e assume um caráter quase manifesto: “Nós passamos, o teatro fica”. A frase ecoa como síntese de uma vida inteira dedicada à arte.
Sapiran Brito nos deixou em 2 de julho de 2025, mas sua presença permanece na memória dos palcos, na formação de novos artistas e na resistência cotidiana de quem insiste em fazer do teatro um espaço de permanência. Sua voz, sua luta e sua incansável defesa para que o teatro não fosse esquecido seguem reverberando, como um gesto que se recusa a sair de cena.

