Minuano Conecta
Moda Consciente transforma moda circular em experiência de estilo e sustentabilidade
por Érica Alvarenga
O que antes era visto apenas como uma alternativa para economizar, hoje se torna escolha de estilo, consumo consciente e até expressão de identidade. Em Bagé, o Moda Consciente Brechó acompanha e ajuda a construir essa transformação há sete anos, unindo curadoria, moda circular e um ambiente pensado para fazer com que as clientes se sintam confortáveis, acolhidas e livres para experimentar novas versões de si mesmas.
À frente do negócio está a administradora Silvana Osband, natural de Porto Alegre. O contato com a moda circular começou muito antes da criação do brechó, ainda na infância, dentro de uma família numerosa. “Quando eu via uma sacola de roupas usadas chegando em casa, aquilo era o nosso novo. Sempre foi um comportamento muito natural pra mim”, relembra.
Formada em Administração, Silvana trabalhava na empresa da família, mas carregava o desejo de construir algo próprio. A oportunidade surgiu de maneira inesperada, a partir de uma conversa que ouvira na academia. Uma mulhe que precisava se mudar para Porto Alegre e não sabia o que fazer com a enorme quantidade de roupas e acessórios acumulados ao longo dos anos.
Silvana então se ofereceu para ajudar. O que começou com algumas viagens com o porta-malas do carro cheio de sacolas, acabou se transformando em negócio. As peças foram organizadas inicialmente em um quarto de hóspedes de sua casa, com o apoio da cunhada, Elisiane Machado, que participou do primeiro ano do projeto. “Começamos tirando fotos no chão, em cima da cama, pendurando roupas na porta do guarda-roupa. Depois fui chamando amigas, promovendo workshops e encontros”, conta.
Durante a pandemia, enquanto muitos empreendimentos enfrentavam dificuldades, o Moda Consciente cresceu. Silvana já realizava vendas online e lives pelo Instagram antes mesmo do período de isolamento, algo ainda pouco comum na época. O movimento aumentou tanto que a loja saiu da área da residência da empresária para um contêiner instalado no pátio da casa. Hoje, o espaço ocupa três contêineres.
Mais do que um local de compras, o brechó se tornou uma experiência. Quem entra no Moda Consciente encontra um ambiente aconchegante, organizado, perfumado e cheio de personalidade – embalado por música, conversas leves e o alto astral de Silvana e da equipe, que transformam a visita em um momento de descontração e bem-estar. “Quando as pessoas se deslocam até uma loja, elas querem viver um momento prazeroso. Então a gente precisa oferecer um ambiente bonito, divertido e acolhedor”, afirma.
A empresária acredita que o brechó deixou de ser tendência para se tornar realidade consolidada no cotidiano das pessoas. Para ela, a mudança aconteceu de forma natural, impulsionada tanto pela consciência ambiental quanto pela busca por roupas de qualidade com preços mais acessíveis. “Hoje não existe mais preconceito. O que existe, talvez, é falta de hábito. As pessoas ainda estão aprendendo a consumir moda circular”, avalia.
Ela destaca que o conceito vai além da compra de peças usadas. Para Silvana, participar da moda circular significa também desapegar do que está parado no guarda-roupa e permitir que as roupas continuem circulando. “O desapego é um exercício. E ele não está só em vender aquilo que é teu, mas também em consumir aquilo que é do outro. Aí, sim, fecha o círculo da sustentabilidade”, explica.
No Moda Consciente, a curadoria é uma das prioridades. Silvana afirma que recebe peças diariamente, mas seleciona com rigor aquilo que entra na loja. O foco está em roupas de qualidade, marcas conhecidas e peças em bom estado. “O meu objetivo nunca foi receber qualquer roupa. Quero fazer circular aquilo que está parado nos guarda-roupas das pessoas e oferecer peças realmente boas para quem compra”, ressalta.
A relação emocional com as roupas também aparece frequentemente no atendimento. Segundo ela, muitas clientes chegam ao brechó enfrentando dificuldade em desapegar de determinadas peças por memórias afetivas ou mudanças pessoais. “Às vezes a pessoa chega com dor no coração de deixar uma roupa. Tem histórias, sentimentos envolvidos. Mas também existe uma sensação muito boa quando ela percebe que aquela peça pode continuar tendo vida em outro lugar”, comenta.
Além do consumo consciente, o brechó também acaba funcionando como espaço de descoberta de estilo. Silvana incentiva as clientes a experimentarem peças diferentes daquelas às quais estão acostumadas, justamente porque o brechó oferece essa possibilidade sem o peso de um investimento elevado. “Tem muita cliente que mudou completamente a forma de se vestir depois de começar a frequentar brechó. Aqui elas conseguem se testar, experimentar novos estilos e descobrir possibilidades”, diz.
A empresária também observa mudanças no comportamento do próprio mercado da moda. Segundo ela, grandes marcas já trabalham com conceitos ligados à circularidade, incentivando que os produtos continuem em uso ao invés de permanecerem guardados.
Mesmo após sete anos de trajetória, Silvana segue defendendo com orgulho o termo “brechó”, palavra que, segundo ela, também precisou se modernizar. “Eu nunca quis tirar o ‘brechó’ do nome. Porque é isso que somos. O brechó mudou, evoluiu, e hoje faz parte de uma nova forma de consumir”, afirma.
O brechó se transforma também em espaço de reencontro com a própria identidade, um lugar onde vestir-se deixa de ser apenas consumo e passa a ser expressão, descoberta e essência.
Ao final, ela deixa um convite para quem ainda nunca viveu a experiência da moda circular. “Experimenta. Vai sem preconceito. O brechó é um lugar onde tu consegues testar estilos, descobrir coisas novas e consumir de forma mais inteligente. Às vezes tu encontra aqui exatamente aquilo que nem sabia que estava procurando”.

