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Valdomiro Martins aposta no interior como palco de um novo noir brasileiro

Em 01/08/2026 às 08:30h

por Melissa Louçan

Valdomiro Martins aposta no interior como palco de um novo noir brasileiro | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Bajeense é um dos organizadores da coletânea Foto: Divulgação

Da perspectiva de que a visão bucólica e romântica do campo também divide espaço com um lado mais sombrio, permeado por violência e personagens movidos por dilemas morais é que parte Rural Noir, coletânea de contos que está em pré-lançamento. Organizada por Valdomiro Martins, Rodrigo Tavares e André Timm, a obra propõe uma leitura brasileira do noir ao deslocar suas histórias para cenários rurais.

Em fase de pré-lançamento pela Casa de Astérion, Rural Noir reúne 12 escritores de diferentes regiões do país para explorar o lado menos romantizado do interior brasileiro. A coletânea transporta o universo do country noir para paisagens nacionais, onde estradas de chão, pequenas comunidades e áreas rurais se tornam palco para histórias de crime, violência e dilemas morais. Além de Martins e Tavares, o livro também traz a presença de outros autores ligados à região, como o também bajeense Fernando Risch, além de Marciele Gotzke, natural de Pelotas e residente em Bagé, e André Timm, porto-alegrense radicado em Chapecó que mantém vínculos familiares com a Rainha da Fronteira.  

A ideia do novo projeto nasceu em 2025, durante conversas entre Martins, Tavares e Timm sobre o Country Noir, vertente norte-americana que ganhou força na literatura e no cinema. A conclusão foi de que o Brasil possuía paisagens, culturas e conflitos suficientes para desenvolver uma identidade própria.

"O Rural Noir ainda é um subgênero jovem. Depois de analisarmos o Country Noir, percebemos que era preciso criar um estilo nacional. Temos ambientes rurais com linguagem, crenças e códigos morais próprios, muito diferentes dos norte-americanos", explica. Segundo ele, a coletânea também buscou representar diferentes regiões do país, reunindo autores que escrevem a partir do Pampa, do Cerrado e da Caatinga.

Mais do que mudar o cenário, a proposta altera a própria natureza das histórias. Se o noir clássico encontra tensão nas ruas escuras das grandes cidades, o ambiente rural desloca esse conflito para dentro das pessoas.

"No ambiente rural, a escuridão está muito mais dentro das personagens. Elas escondem segredos, dogmas e motivações que muitas vezes só aparecem quando um fato grave vem à tona. Além disso, comunidades mais afastadas preservam valores morais, religiosos e linguísticos muito particulares, capazes de conduzir tanto ao bem quanto ao mal", observa.

A experiência de organizar a obra também reforçou uma convicção que acompanha sua trajetória: a de que a literatura brasileira não pode ser limitada aos grandes centros urbanos. Para o escritor, ainda existe uma tendência de concentrar a produção literária nas capitais, enquanto autores de outras regiões permanecem à margem do debate nacional.

Essa defesa da diversidade regional está presente também em sua própria obra. Embora ambientados, em grande parte, no Rio Grande do Sul e na Campanha, seus livros dialogam com temas universais. Para o autor, o cenário só ganha força quando as personagens são consistentes. O espaço pode ter cheiro, cor e identidade, mas é a experiência humana que permite que leitores de qualquer lugar se reconheçam na narrativa.

Ao longo de quase duas décadas de carreira, seus livros revisitaram episódios históricos, discutiram identidade e protagonismo negro sem perder de vista questões que atravessam qualquer sociedade. Na avaliação do autor, mudanças políticas podem influenciar a literatura, mas não determinam sua permanência.

"O cerne da literatura sempre será o ser humano. Escrevo sobre memória, identidade e violência sob a ótica do protagonismo negro, mas também sobre amor, ódio, vingança e perdão, experiências comuns a todos nós."

Nos últimos anos, a trajetória de Valdomiro ganhou novos reconhecimentos. Ele passou a integrar o Literafro, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tornou-se o primeiro patrono negro da Feira do Livro de Bagé e recebeu homenagens que consolidaram seu nome entre os principais escritores contemporâneos do Estado. Ainda assim, faz questão de relativizar esse momento.

Para ele, permanecer na literatura exige motivação que vai além do reconhecimento público. "Continuo à margem. Para se manter como escritor sério no Brasil é preciso uma motivação interna muito forte. O processo de criação evolui com o tempo, torna-se mais complexo, mas a responsabilidade assumida quando decidi escrever continua a mesma."

Valdomiro também observa com cautela o cenário editorial brasileiro. Se por um lado publicar um livro nunca foi tão acessível, por outro ele acredita que isso nem sempre se traduz em formação de leitores. Para ele, o mercado vive um momento em que publicar passou a ser mais fácil do que ler, enquanto a figura do crítico literário perdeu espaço como mediador entre obras e público.

Essa reflexão se estende às transformações tecnológicas. Em uma época em que algoritmos sugerem leituras e ferramentas de inteligência artificial produzem textos em poucos segundos, o escritor acredita que a essência da criação artística permanece intacta. Para ele, a literatura continua sendo um exercício profundamente humano, alimentado pela curiosidade, pela imaginação e pela capacidade de compreender as contradições da existência.

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