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O céu armado de Armando Azambuja

Em 23/05/2026 às 21:31h

por Redação JM

O céu armado de Armando Azambuja | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Azambuja preserva o primeiro termômetro que utilizou / Foto: Sidimar Ferreira Rostan/Especial JM

Em Bagé, quando o céu fecha e o vento muda, costuma-se dizer que “o tempo está armado”. Há décadas, Armando Azambuja acompanha esses sinais antes mesmo de a chuva chegar. Em cadernos espalhados pela casa, registra milímetros de precipitação, geadas, direção dos ventos e variações do clima. Assim, constrói, dia após dia, um arquivo sobre o tempo na cidade que cresceu junto à fronteira com o Uruguai.

O método nasceu com a lida rural. No começo, Azambuja anotava tarefas comuns do trabalho no campo: rodeios, manejo de animais, troca de potreiro, banho de gado, esquila. E no meio dessas informações aparecia a chuva. "No diário, se anotava quantos milímetros chovia, de manhã ou de tarde", recorda.

A observação era feita de forma simples, dentro do caderno do serviço rural. Depois, os dados do clima ganharam espaço próprio. E desde então, Azambuja transformou a observação diária do clima em uma espécie de arquivo meteorológico particular de Bagé. Hoje, ele mantém controles mensais e anuais de chuva, número de dias chuvosos, geadas, temperaturas mínimas e comportamento dos ventos. Os registros ocupam cadernos inteiros e atravessam décadas.

A disciplina da medição segue uma lógica própria. Azambuja não aceita o acúmulo de chuva em períodos diferentes apenas porque a precipitação atravessou a madrugada. Para ele, o dia termina exatamente à meia-noite. "Pode estar inverno, zero grau. Se está chovendo e dá meia-noite, eu me levanto, vou no pátio, vejo quanto choveu, esvazio o pluviômetro e volto a dormir", explica.

A preocupação é separar com precisão o que caiu em cada data. "Tem gente que diz que choveu 75 milímetros no dia 10, por exemplo. Mas a chuva começou no dia 10 e terminou no 11. Então, no 10 choveu 30 e no 11 choveu 45. Eu faço essa observação nas minhas anotações", detalha.

Os pluviômetros ficam no pátio da casa, na rua Doutor Penna, endereço nobre no centro de Bagé. Os dados são anotados diariamente e depois transferidos para resumos anuais. Em cada fechamento de ano, ele calcula totais de chuva, médias mensais, quantidade de geadas e dias de precipitação.

Os acumulados ao longo do tempo ajudaram Azambuja a construir interpretações próprias sobre o comportamento climático da região. Para ele, Bagé não enfrenta escassez de chuva. "Nunca teve problema de água. Tem problema de má distribuição das águas", avalia.

A afirmação está amparada nos registros. Afinal, seus cadernos atestam que 2014 terminou com 2.262 milímetros de chuva. Em 2015, foram 2.004 milímetros. Em 2019, o total chegou a 2.349. Em 2023, foram 2.475 milímetros. Em 2024, outros 2.394. Armando aponta que a média anual da cidade se mantém acima do padrão histórico. "A média é 120. Nós geralmente damos 125, 130 milímetros mensais", mensura.

O problema, segundo ele, está na capacidade de armazenamento dos reservatórios e na gestão da água. Azambuja critica o sistema de racionamento e afirma que a cidade não amplia sua estrutura para guardar água em períodos de chuva intensa. "Quando a barragem seca, ninguém entra para limpar o barro e aumentar a capacidade dela", reflete.

Ele cita episódios extremos registrados em seus próprios arquivos. Em janeiro de 2019, por exemplo, anotou 615 milímetros de chuva em apenas um mês. Em outubro do mesmo ano, outros 602 milímetros. "Se tivesse onde guardar água, nós estávamos muito bem", pondera.

Além das chuvas, o controle detalhado das geadas feito por Azambuja também incluem quantidade anual, datas e intensidade das mínimas negativas. Em 2014, ele contabilizou 16 geadas. Em 2015, 24. Em 2016, 29. Em 2020, 25. Em 2025, até o momento da entrevista, já eram 14. Entre os dados, aparece a chamada “geada preta”, fenômeno que não forma gelo visível sobre a vegetação, mas congela a base das plantas. "Ela mata por baixo, na raiz. Tu olha e parece que não teve geada", revela.

Azambuja explica o fenômeno de maneira prática, relacionando a formação da geada à temperatura. "De quatro graus para baixo forma gelo", garante.

Rotina rígida
O acompanhamento do tempo também passa pela observação direta da paisagem. Todos os dias, Azambuja acorda entre 4h30 e 5h, prepara o mate e sai para observar o céu, o vento e o comportamento das nuvens. "Eu vou para a rua ver de onde está vindo o vento", revela.

Depois, fotografa o nascente e o poente, mede a temperatura e publica um boletim diário nas redes sociais. As postagens incluem informações sobre vento, lua, temperatura, condição do céu e previsão baseada em observação. "Eu não faço previsão. Eu faço constatação", salienta.

O hábito acabou transformando Azambuja em uma referência informal sobre o clima da cidade. Segundo ele, moradores acompanham suas publicações nas redes sociais antes de sair para o trabalho. "Tem gente que olha para saber como vai se vestir", destaca.

Ele também se tornou personagem frequente em programas de rádio. Conta que muitas pessoas o abordam na rua para perguntar se vai chover. 

De olho no Uruguai
As observações sobre o tempo vieram acompanhadas de histórias antigas da fronteira. Azambuja recorda do uruguaio Antares, personagem conhecido na região por interpretar sinais do clima a partir da observação do ambiente. "Se o tempo estava bom no Uruguai, era sinal de tempo bom para nós", pontua.

Segundo ele, Antares virou referência popular muito antes da existência de aplicativos e previsões digitais. Era consultado por moradores da fronteira para saber se vinha chuva ou frio.

Azambuja também relatou uma história que costuma usar para ilustrar os limites da meteorologia técnica. Nela, dois estudantes recém-formados passaram a noite em uma propriedade rural após ouvirem de uma moradora que choveria naquela madrugada, apesar do céu limpo. Horas depois, uma tempestade atingiu o local. No dia seguinte, os jovens perguntaram como ela sabia da mudança do tempo. "Ela disse que o burrinho dela tinha voltado para dormir no galpão. E quando ele fazia isso, era porque vinha chuva", narra.

Para Azambuja, a observação da natureza continua sendo parte central da compreensão do clima. Hoje, aos primeiros sinais de luz do dia, ele repete o ritual iniciado décadas atrás na campanha. O mate é preparado antes do amanhecer. O céu é observado em silêncio. O vento é conferido na rua. A temperatura é anotada. A chuva é medida em milímetros exatos. Depois, tudo segue para os cadernos. Um arquivo produzido diariamente, onde Bagé aparece contada pelo tempo.

Lenço branco no pescoço
Armando é bisneto do coronel Antônio Xavier de Azambuja, primeiro intendente de Bagé, nomeado por Júlio de Castilhos no fim do século XIX. Seu bisavô participou do cerco de Bagé durante a Revolução Federalista de 1893, nos arredores da Catedral de São Sebastião. O confronto ocorreu em um perímetro fechado entre as ruas próximas à igreja, onde tropas legalistas e federalistas travaram combate.

Mais tarde, em 1923, outro integrante da família entrou nos conflitos políticos gaúchos: o avô, coronel Armando Xavier de Azambuja, que lutou ao lado de Tupy Silveira.

A memória dessas revoluções permanece presente dentro da casa, em fotografias, documentos e referências familiares. Em uma das imagens mostradas que preserva na sala, Azambuja aparece ao lado dos filhos e netos diante da antiga residência do bisavô.

A ligação familiar também explica um hábito que ele mantém até hoje: o uso do lenço branco no pescoço. "Me perguntam por que eu só uso lenço branco. É por causa da família", enfatiza.

O símbolo remete aos grupos ligados ao castilhismo durante as revoluções gaúchas, conhecidos como “chimangos” ou “pica-paus”, identificados pelo lenço branco. Os adversários políticos eram os maragatos. Mas Azambuja faz questão de destacar que, apesar dos conflitos, havia respeito entre os grupos. "Eram pessoas de vergonha. Cada um pensava de uma maneira", reflete.

Mesmo vindo de uma família ligada à política local, ele afirma nunca ter desejado ocupar cargos públicos. "Já me convidaram. Nunca quis", confessa, ao destacar que, na sua visão, a política mudou de sentido ao longo do tempo. "Antigamente os homens faziam política sem receber salário", pondera.

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