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A bajeense que levou o piano dos corredores do Imba aos bastidores da televisão brasileira

OLHO: “São Paulo me assustou. O Rio me acolheu”

Em 30/05/2026 às 14:10h
Jaqueline Muza

por Jaqueline Muza

A bajeense que levou o piano dos corredores do Imba aos bastidores da televisão brasileira | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Musicista nunca rompeu os vínculos com Bagé / Foto: Érica Alvarenga

A música entrou cedo na vida da pianista bajeense Zaida Valentim. Antes mesmo de entender o que era técnica ou partitura, ela já identificava o som do piano nas músicas que ouvia no rádio. “Eu dizia para minha mãe: ‘mãe, piano, piano’”, relembra. Décadas depois, aquele encantamento infantil se transformaria em uma trajetória de mais de 50 anos dedicada à música, ao ensino e às artes cênicas, passando por Bagé, São Paulo, Rio de Janeiro e os bastidores da televisão brasileira.

Hoje, aos 67 anos, Zaida divide a rotina entre aulas, projetos culturais e os cuidados com os pais idosos, em Bagé — cidade que nunca deixou de carregar consigo, mesmo durante os cerca de 40 anos em que viveu no Rio de Janeiro.

Nascida e criada em Bagé, Zaida começou os estudos musicais aos 9 anos, depois de descobrir que uma colega de escola fazia aulas de piano com a professora Sheila Rodrigues. Sem ter instrumento em casa, iniciou as primeiras lições em uma pequena escola musical da cidade e, pouco tempo depois, ingressou no Instituto Municipal de Belas Artes (Imba), onde realizou formação técnica em música.

A dedicação ao piano rapidamente se tornou profissão. Ainda jovem, passou a dar aulas no próprio Imba e também atuou como professora no Colégio Espírito Santo. Paralelamente, cursava bacharelado em Música na então Faculdades Unidas de Bagé (Funba), atual Urcamp. Mas Bagé começou a parecer pequena para quem queria viver intensamente a música.

Durante cursos de férias em cidades como Campos do Jordão e Brasília, Zaida teve contato com músicos de diferentes partes do país e percebeu que desejava ampliar horizontes. Aos 22 anos, tomou uma decisão que mudaria sua vida: deixou Bagé rumo a São Paulo.

Na capital paulista, viveu o impacto de uma metrópole que descreve como “assustadora”. Sobreviveu dando aulas particulares de violão, dividindo apartamento e tentando encontrar espaço em um cenário musical competitivo. “São Paulo me assustou. O Rio me acolheu”, resume.

Foi justamente o Rio de Janeiro que transformou sua trajetória profissional. Aprovada no mestrado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Zaida mergulhou no universo do teatro musical, das produções televisivas e da preparação artística de atores. Um dos primeiros trabalhos surgiu quando foi chamada para orientar Ana Paula Arósio em cenas ao piano na minissérie “Hilda Furacão”. Depois vieram outros projetos, incluindo trabalhos com Malu Mader, além de produções da TV Globo, novelas e musicais.

Retorno definitivo

Ao longo dos anos, Zaida conviveu com artistas como Thiago Lacerda, Miguel Falabella, José Mayer e Flávio Bauraqui. Mais do que ensinar técnica musical, ajudava atores a construir corporalidade e presença cênica ao piano. “Eu nunca deixei a música no superficial. Sempre quis entender o personagem, conversar com autores, compreender o contexto da obra”, conta.

Em 2005, conquistou estabilidade ao ingressar, por concurso público, na UFRJ como pianista da universidade. Ainda assim, manteve os trabalhos artísticos e o envolvimento com o teatro e a televisão.

Mesmo vivendo intensamente o Rio de Janeiro — cidade pela qual demonstra profundo carinho — Zaida nunca rompeu os vínculos com Bagé. “Sempre fui bairrista”, afirma. A cidade aparecia em suas conversas, histórias e memórias compartilhadas com amigos artistas, muitos deles curiosos para conhecer o município que ela tanto mencionava.

O retorno definitivo começou a ser desenhado nos últimos anos, impulsionado pelo envelhecimento dos pais e pela vontade de desacelerar a rotina intensa da capital fluminense. Hoje, atua junto à Unipampa, onde encontrou um novo sentido para sua experiência artística.

Segundo ela, a vivência na universidade bajeense aproximou sua trajetória de uma dimensão mais social da música e da educação. “Aqui eu encontrei um contato mais humano, mais próximo das pessoas e das necessidades reais”, observa.

Entre concertos, aulas, projetos culturais e histórias acumuladas em diferentes cidades, Zaida segue em movimento. O piano de cauda — sonho conquistado após anos de trabalho no Rio — hoje ocupa espaço especial em sua casa em Bagé.

E embora pense na aposentadoria, admite que ainda não consegue imaginar uma vida distante da música. “Eu não quero parar. Talvez diminuir o ritmo. Mas parar, não”, destaca.

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