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“Existe produção cultural séria aqui também”: Rodrigo Tavares defende a literatura fora do eixo
"Ainda falta o bageense olhar para seus próprios escritores com mais seriedade”
por Melissa Louçan
Enquanto parte do mercado editorial brasileiro segue concentrada nas capitais, o escritor bajeense Rodrigo Tavares construiu sua trajetória literária olhando para outra direção: a fronteira, a Campanha e os personagens que habitam um Brasil distante dos grandes centros urbanos. Autor de obras como Noite Escura (2009), Andarilhos (2017), Ainda que a Terra se Abra (2020) e Carancho (2023), ele faz parte de uma geração de escritores que ajudou a recolocar o regionalismo no centro do debate literário brasileiro.
Para Tavares, a literatura produzida no interior ainda enfrenta resistência, especialmente por conta de uma visão que durante muito tempo associou o regionalismo a algo menor ou meramente folclórico. Segundo ele, essa leitura continua presente em parte dos espaços acadêmicos e culturais.
O autor rejeita representações cristalizadas sobre a identidade gaúcha e prefere voltar o olhar para personagens mais complexos e contraditórios: “O gaúcho do dia a dia é muito mais dinâmico, contraditório, cheio de nuances. É sobre essas pessoas de carne e osso que eu escrevo”, afirma.
A proposta aparece desde Noite Escura, thriller ambientado no interior gaúcho, passa pelos peões errantes de Andarilhos e chega às tensões familiares e aos retornos às origens presentes em Ainda que a Terra se Abra. Em todas essas narrativas, o pampa surge menos como cenário e mais como elemento que molda os personagens e seus conflitos.
Para o escritor, o sucesso recente de obras ambientadas fora dos grandes centros mostra que o regionalismo está longe de ser um limite, pelo contrário: “O regionalismo é universal por excelência, porque fala de pessoas, de sentimentos humanos, de conflitos que existem em qualquer lugar. O regional é o tempero, aquilo que diferencia uma história das demais.”
A própria trajetória de Tavares reforça essa percepção. Lançado em 2017, Andarilhos encontrou leitores em diferentes regiões do país e ajudou a consolidar o que o autor costuma definir como uma literatura regional contemporânea, marcada por identidade local, mas conectada a temas humanos universais.
Mesmo assim, ele acredita que os obstáculos para escritores do interior continuam sendo significativos. Além da distância dos grandes eventos literários, há também a necessidade constante de legitimar uma produção cultural feita longe dos centros mais influentes do país. “O primeiro desafio é provar que existe produção cultural séria aqui também”, observa.
Nesse contexto, as redes sociais e o YouTube se transformaram em ferramentas importantes para aproximar autores e leitores. Tavares utiliza esses espaços para discutir literatura, processo criativo e mercado editorial, criando uma relação direta com o público e ampliando o alcance de suas obras.
Apesar de enxergar um momento positivo para a literatura regionalista brasileira, ele avalia que ainda falta reconhecimento aos escritores locais, inclusive dentro das próprias cidades. “Vejo, sim, um grande momento para o regionalismo no Brasil, mas ainda falta o bageense olhar para seus próprios escritores com mais seriedade”, afirma.
Próximo lançamento reúne autores do interior do país
Entre os próximos projetos de Rodrigo Tavares está a coletânea Rural Noir, prevista para o segundo semestre pela editora Casa de Asterion. Organizada por Tavares, André Timm e o também bajeense Valdomiro Martins, a obra reunirá escritores de diferentes regiões do Brasil com uma característica em comum: todos nasceram ou vivem fora das capitais.
Inspirada no gênero country noir, tradicional na literatura norte-americana, a coletânea apresentará histórias de crime ambientadas em cenários rurais e pequenas cidades, explorando o lado mais sombrio do interior brasileiro.
O livro contará com textos de André Timm, Carina Luft, Danielle Sousa, Fernando Risch, Tailor Diniz, Marciele Gotzke, Paulo Raviere, Irka Barrios, Valdomiro Martins, Roberto Denser, Paula Febbe e Rodrigo Tavares.
A publicação também terá forte presença de autores ligados a Bagé. Além de Tavares e Martins, participa o escritor Fernando Risch. A coletânea conta ainda com Marciele Gotzke, natural de Pelotas e atualmente residente em Bagé, e com André Timm, porto-alegrense radicado em Chapecó que mantém vínculos com a Rainha da Fronteira por meio da família.

