Minuano Conecta
O cenário como personagem que se comunica visualmente
Muito além da decoração, a cenografia ganha papel de personagem no teatro bajeense, unindo criatividade, memória e trabalho coletivo na construção dos espetáculos
por Márlon Castro Posqui
Uma cadeira antiga sob a luz baixa, o rangido discreto de uma madeira no palco, tecidos que desenham paredes inexistentes e objetos retirados do esquecimento ajudam a construir mundos inteiros diante do público. Em Bagé, entre cenários montados artesanalmente, móveis garimpados em briques e estruturas erguidas pelas próprias mãos dos artistas, a cenografia não serve apenas para ambientar uma peça, ela respira junto com o espetáculo, conduz emoções e transforma o palco em memória, casa, rua, sonho e imaginação.
Segundo o Diretor do Grupo Os Carlitos, Michel Godinho, o cenário é muito além de uma decoração. A cenografia ocupa um papel fundamental dentro das artes cênicas. Ela ajuda a contar histórias, cria atmosferas e interfere diretamente na relação do público com a narrativa apresentada em cena. “O papel da cenografia dentro de um espetáculo de teatro é fundamental porque ela ajuda a contar a história. Eu sempre falo que o cenário é um personagem. Ele não é só uma decoração, ele é a atmosfera e conduz as emoções”, afirma Godinho.
Segundo Michel, o cenário começa a nascer ainda nas primeiras leituras do texto. Antes mesmo dos ensaios, as ideias visuais já surgem junto da adaptação e da proposta estética do espetáculo. Porém, a construção definitiva acontece durante o processo, acompanhando as necessidades do elenco, do palco e da movimentação das cenas. “Às vezes a ideia inicial muda completamente quando o elenco ocupa o espaço. Tem espetáculo que precisa de muita cenografia, enquanto outros funcionam apenas com uma cadeira e a presença humana”, destaca.
Co-fundadora do Grupo Os Carlitos, atriz, maquiadora, figurista e cenógrafa, Fabi Godinho acredita que a cenografia tem justamente a função de transportar o público para dentro do universo da peça. Apaixonada pela criação visual, ela conta que começa a imaginar os cenários já na primeira leitura do texto, mas vê a concepção amadurecer ao longo dos ensaios. “Muitas vezes a cenografia conversa com os atores e se torna parte importante da narrativa, como um personagem que se comunica visualmente com o público”, afirma.
Entre as montagens mais desafiadoras do grupo está “O Morto do Encantado Morre e Pede Passagem”. Na peça, Fabi precisou recriar uma casa suburbana carioca dos anos 1970 em um palco pequeno, com 15 atores em cena e intensa movimentação de móveis e objetos. “Eu precisava criar dois ambientes distintos, utilizando móveis firmes para suportar os atores, mas leves para serem carregados durante as trocas. Além disso, os objetos retrô também ajudavam a contar parte da história”, relembra.
Outro desafio lembrado pela cenógrafa foi a criação da Acrópole de “Lisístrata”. Utilizando tecidos e madeira, o grupo construiu colunas inspiradas na Grécia Antiga dentro de um espaço reduzido. “Foram muitas noites sem dormir pensando em como recriar algo tão monumental em um palco pequeno”, conta.
Michel e Fabi lembram da cadeira de “A Casa de Bernarda Alba”, da cama utilizada em “O Morto do Encantado Morre e Pede Passagem” e das estruturas gregas de “Lisístrata” como alguns dos cenários mais emblemáticos da história do grupo.
Gabriel Medeiros, diretor do Coletivo Movimento, é formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e acumula experiências em diferentes palcos do Rio Grande do Sul por meio de festivais e circuitos culturais dos quais participa. A partir dessa trajetória, o diretor conheceu contextos com maior estrutura para a produção teatral, realidade ainda distante da encontrada em Bagé. Segundo ele, a cenografia segue sendo uma área escassa não apenas no município, mas em grande parte do estado.
Medeiros aponta que o cenário é responsável por “recortar o espaço” e materializar visualmente o imaginário do espetáculo. Segundo ele, até mesmo a escolha de não utilizar elementos cênicos já representa uma decisão cenográfica. “O teatro se dá no tempo e no espaço. A partir do momento em que se pensa essa espacialidade, a cenografia já começa a existir”, explica.
Gabriel destaca que um dos maiores desafios de produzir cenografia em Bagé é justamente a falta de profissionais especializados na área. Diferentemente de grandes centros culturais, onde existem equipes específicas para cada função técnica, os grupos locais acabam acumulando tarefas. “A realização da cenografia geralmente é feita pelos próprios integrantes do espetáculo, que já estão envolvidos com atuação, direção e produção”, afirma.
No Coletivo Movimento, o tecido se tornou um dos principais elementos de criação. Gabriel explica que o material ajuda a dar forma e textura às montagens, aparecendo em espetáculos como “Para Onde Voam as Borboletas?”, “Doente Imaginário” e “Coração Dinossauro”.
Foi justamente “Coração Dinossauro” que apresentou um dos maiores desafios cenográficos do coletivo. A montagem utiliza estruturas de ferro, bonecos, jogos de sombra e um coração cenográfico que precisa acender no momento exato da cena. “É um espetáculo que não funciona da forma como foi concebido sem o uso total da cenografia”, afirma Gabriel. Foi na peça infantojuvenil que o grupo também contou com os bonecos criados pela artista plástica Clélia Camargo, referência na confecção de bonecos no Rio Grande do Sul.
A construção de um cenário pode levar semanas ou meses e, segundo os artistas bajeenses, nunca está completamente finalizada. Mudanças acontecem até os últimos ensaios antes da estreia, acompanhando o amadurecimento do espetáculo.

