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Árvores: memória viva, pertencimento e patrimônio

Em 30/05/2026 às 16:50h
Viviane Becker

por Viviane Becker

Árvores: memória viva, pertencimento e patrimônio | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Zeno Freitag deixou um legado ambiental

Por : Nívea dos Santos Marques – Professora e Discente do PPGE/UNIPAMPA Rodrigo de Morais Kanaan – Biólogo CRBio n.º 101857, Professor e Produtor Rural Integrantes do Grupo EcoArte

 

Em Bagé, a transição das estações redesenha não apenas a paisagem, mas a própria forma como vivenciamos a cidade. Quando as folhas mudam de cor, os galhos florescem e os ventos espalham sementes, as ruas ganham novos contornos e significados. Nesse movimento silencioso da natureza, as árvores revelam uma presença que transcende a beleza estética: elas se consagram como partes integrantes da nossa memória coletiva, da identidade urbana e da relação afetiva que construímos com o território.

O patrimônio arbóreo e a arborização urbana são, acima de tudo, bens culturais. Carregam valores ambientais, históricos, sociais e simbólicos que atravessam gerações. Mais do que meros elementos naturais, as árvores são guardiãs de histórias. Muitas cresceram junto com Bagé, testemunhando nossos encontros, transformações sociais, manifestações culturais e o simples correr do cotidiano. Sob suas sombras, crianças brincaram, famílias se reuniram e lembranças se enraizaram na memória afetiva de nossa gente.

Do ponto de vista ambiental, as árvores figuram entre os nossos maiores tesouros. Elas amenizam as temperaturas, purificam o ar, abrigam a biodiversidade e são cruciais para o equilíbrio climático e hídrico. Em um cenário global de emergência climática, de impermeabilização do solo e de crescimento acelerado, preservar esse patrimônio deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade inadiável e uma responsabilidade coletiva.

Essa premissa dialoga intimamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, em especial o ODS 11, que propõe cidades mais sustentáveis, resilientes e inclusivas; o ODS 13, focado na ação contra a mudança global do clima; e o ODS 15, voltado à proteção da vida terrestre. Cuidar da nossa flora urbana é, portanto, assumir um compromisso ético com as futuras gerações.

Para que essas metas se tornem realidade, a educação ambiental deve ir além da teoria, guiando-se pela consciência crítica, pelo diálogo e pela transformação da nossa realidade. Afinal, nós nos constituímos a partir das relações que estabelecemos com o outro e com o espaço ao nosso redor. Compreender que todas as formas de vida estão profundamente interligadas exige de nós uma postura em que o cuidado seja o princípio fundamental da existência. Uma convivência pautada no respeito e na cooperação muda a nossa visão: as árvores deixam de ser vistas como mero cenário e passam a ser reconhecidas como parte viva das relações sociais e culturais que sustentam a cidade.

Nessa perspectiva, além de incentivar o plantio de novas mudas, é imperativo voltarmos nosso olhar para as árvores que já compõem a paisagem e a alma de Bagé. O debate ambiental muitas vezes se limita ao ato de plantar, enquanto árvores antigas, históricas e vitais para o ecossistema sofrem com podas agressivas, ausência de manutenção ou remoções injustificadas. Cuidar do que já existe significa reconhecer que o patrimônio arbóreo é vivo. Preservar essas raízes é proteger não apenas a biodiversidade, mas os espaços de convivência que fortalecem o nosso sentimento de pertencimento.

Algumas dessas árvores possuem um significado ainda mais profundo. Seja pela raridade da espécie, pela idade centenária, pela imponência ou pela extrema relevância histórica, certos exemplares merecem o reconhecimento oficial e a proteção legal do tombamento. São testemunhas silenciosas que acompanham a trajetória da cidade, preservando as marcas do tempo e as vivências do espaço urbano.

Por isso, iniciativas de educação patrimonial nas escolas são tão necessárias. Ao ensinar crianças e jovens que as árvores são heranças vivas, formamos cidadãos mais sensíveis e comprometidos com a preservação. É preciso lembrar que a nossa própria memória emocional é construída ao redor delas: a sombra no pátio do colégio, a praça da infância, o perfume de uma florada marcando a época do ano ou aquele caminho arborizado percorrido todos os dias. São esses detalhes que tornam os espaços urbanos mais acolhedores e cheios de significado.

Em tempos de urbanização acelerada, o cuidado com as árvores traduz-se, em essência, no cuidado com as pessoas, com a nossa história e com a própria qualidade da vida. O majestoso patrimônio arbóreo bajeense é uma herança coletiva, pacientemente construída a muitas mãos e raízes. Proteger esse legado é garantir que, no futuro que nos aguarda, nossos descendentes continuem a encontrar sombra gentil, beleza serena, memória afetiva e um profundo sentido de pertencimento sob as generosas copas que assinam a identidade de Bagé. 

Dedicamos este texto à memória do Biólogo e professor Zeno Freitag. Seu imenso legado ambiental, eternizado no plantio e no cuidado das nossas árvores, continuará a dar vida, beleza e sombra à nossa Bagé, a Rainha da Fronteira

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