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Cemitérios Patrimoniais: cidade dos mortos e memória dos vivos

Em 15/06/2026 às 10:40h
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Clarisse Ismério

Historiadora, Doutora em História do Brasil.

Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp

Coordenadora dos Cursos de Pedagogia e História da Urcamp

Integrante da Academia Bajeense de Letras (ABL)

 

Os cemitérios caracterizam-se como espaços destinados à última morada dos mortos. Na Idade Média, os sepultamentos ocorriam, em geral, fora do perímetro urbano; contudo, à medida que a Igreja passou a ser concebida como “espaço sagrado”, muitos mortos passaram a ser enterrados em seu entorno ou em seu próprio solo.

A partir do século XVIII, em razão das crescentes preocupações com os princípios de higiene pública e com a necessidade de conter as recorrentes epidemias, os enterramentos foram gradativamente transferidos para áreas mais afastadas dos centros urbanos. Nesse contexto, ampliou-se também a valorização estética dos túmulos, jazigos e mausoléus, reflexo do gosto artístico e das práticas de distinção social da burguesia ascendente.

Tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, os cemitérios perderam, paulatinamente, sua imagem exclusivamente mórbida e desoladora, transformando-se em espaços de convivência, sociabilidade e contemplação. Por conservarem os restos mortais de figuras ilustres, passaram a desempenhar o papel de guardiões da cultura e da memória coletiva. Mais do que locais de repouso eterno, converteram-se em verdadeiras instituições culturais, uma vez que são autênticos museus a céu aberto, permeados por significados, representações e símbolos que alimentam o imaginário de seus visitantes.

Segundo Philippe Ariès (1982), esses espaços consolidaram-se como depositários da memória social ao preservarem a lembrança de indivíduos notáveis. Ademais, os cemitérios não foram concebidos apenas para acolher os mortos, mas também para serem apreciados pelos vivos, uma vez que, conforme destaca Queiroz (2007), os cemitérios criados no período romântico “foram concebidos precisamente para ser visitados e admirados pelas obras de arte neles contidas”, muitas vezes representativas do que havia de mais refinado na produção artística de sua época.

Outro elemento fundamental para a consolidação dessa perspectiva foi a difusão das ideias positivistas. Auguste Comte, por meio da máxima “Os vivos são sempre e, cada vez mais, governados pelos mortos”, defendia que a memória, os feitos heroicos e as trajetórias dos homens notáveis do passado deveriam servir de exemplo e inspiração às gerações futuras.

Esse processo também se manifestou nos cemitérios brasileiros, que constituíram, ao longo do tempo, um acervo de expressivo valor histórico, artístico e cultural, objeto de estudo de pesquisadores como Clarival Valadares, Maria Elizia Borges, Harry Bellomo, entre outros historiadores dedicados ao tema.

Cada cemitério pode ser compreendido como um museu capaz de revelar a história das famílias tradicionais, os processos de mobilidade social e as mentalidades de determinada sociedade, aspectos frequentemente relacionados à relevância política e à prosperidade econômica dos municípios.

Na cidade de Bagé, destaca-se o Cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé (1858), cujo acervo escultórico reúne mausoléus, jazigos e túmulos de expressiva riqueza artística, histórica e simbólica. Suas obras não apenas evidenciam elevado valor estético, mas também revelam a mentalidade, os valores sociais e a trajetória histórica de uma época em que a cidade era reconhecida como a “Rainha da Fronteira”. Sobre esse importante espaço de memória, encontram-se relevantes estudos e produções acadêmicas, entre os quais se destacam os trabalhos e artigos de Tarcísio Taborda e Eliane Tonini; o projeto Cemitério Memória Viva, desenvolvido por Nilo Rossell Romero e Heloísa Morgado; e, mais recentemente, a coletânea de pesquisas produzidas pelos acadêmicos do Curso de Arquitetura da Urcamp, intitulada “Cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé: Estudos de Arquitetura Funerária”.

Desde minha chegada a Bagé, em 2005, tenho me dedicado ao reconhecimento, à valorização e à preservação do patrimônio cemiterial, por meio de pesquisas, produções científicas e do Projeto Cultural Sarau Noturno, somando, ao longo dessa trajetória, mais de duas décadas de investigações e produções acadêmicas.

Entretanto, apesar do empenho de pesquisadores e profissionais da área, constato que o tema ainda permanece envolto em certo tabu, uma vez que poucas pessoas reconhecem a magnitude histórica, artística e cultural desses espaços.

Os cemitérios patrimoniais, enquanto lugares de memória, possuem muito a ensinar por meio de suas histórias, símbolos e representações. Em uma leitura simbólica, podem ser compreendidos como um grande livro aberto, cujos capítulos são escritos por mausoléus, túmulos e jazigos.

Assim, convido o(a) leitor(a) a olhar os cemitérios sob uma nova perspectiva: não apenas como espaços de morte, mas como verdadeiros museus a céu aberto, guardiões da memória, da arte e da história de uma comunidade.

 

 

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