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Severino Rudes Moreira e a sabedoria que resiste ao tempo
SUGESTÃO DE OLHO: “Nós um dia morreremos e nossa voz se calará, mas nossas palavras continuarão vivas"
por Melissa Louçan
Em um tempo em que quase tudo cabe na tela de um celular e a informação circula em velocidade cada vez maior, o escritor candiotense Severino Rudes Moreira, 73 anos, mantém seu olhar em outra direção: a dos conhecimentos transmitidos de geração em geração, muitas vezes apenas pela conversa entre pais, filhos e avós. Desse universo nasceu O Saber dos Velhos, obra que recentemente recebeu reconhecimento estadual ao ser premiada na categoria Folclore pela Estância da Poesia Crioula.
A publicação reúne conhecimentos que fizeram parte da vida cotidiana de homens e mulheres do campo. São saberes relacionados ao trabalho rural, às crenças populares, às formas de cultivo, aos remédios caseiros e às experiências acumuladas ao longo de décadas.
A origem da obra está em uma atividade que Severino desenvolve há anos. Semanalmente, ele grava áudios sobre cultura regional para emissoras de rádio, em um projeto que chama de “charlas de galpão”. A proposta é abordar temas ligados à vida campeira e às tradições gaúchas. Com o tempo, esse material acabou encontrando um novo destino.
“Na verdade, ele já estava pronto antes de escrever, pois é um compilado de vários áudios gravados para emissoras de rádio e depois ‘transcritos’ para o papel”, explica o autor. Os textos nasceram desse processo e foram reunidos em um volume que preserva parte de um patrimônio cultural cada vez mais ameaçado pelo avanço das transformações no meio rural.
Para Severino, a riqueza da cultura gaúcha está justamente na capacidade de reunir diferentes influências ao longo do tempo. Embora profundamente ligada ao Rio Grande do Sul, ela também dialoga com tradições dos países vizinhos, especialmente por meio do folclore, da literatura, da música e do vocabulário regional. Na avaliação do escritor, preservar esses elementos significa manter viva uma forma de compreender o mundo construída a partir das experiências de quem viveu e trabalhou no campo.
O interesse pela cultura popular tem raízes profundas na própria história de vida do escritor. Filho de um pequeno produtor rural, ele cresceu em uma família numerosa, aprendendo desde cedo as práticas e os ensinamentos da lida campeira. Entre todas as referências, uma figura permanece central em sua memória: a do pai. “Ele mal assinava o nome, mas domava seus cavalos, amansava seus bois, cultivava as terras conforme as fases da lua, benzia e receitava ervas. Pouco estudou, mas era formado na faculdade da vida”, recorda.
Para Severino, registrar esses conhecimentos em livro é uma forma de garantir que eles sobrevivam ao tempo. Se antes os ensinamentos eram transmitidos naturalmente na convivência familiar e comunitária, hoje muitos deles correm o risco de desaparecer junto com as gerações que os carregam.
“Muita coisa se perdeu e muito mais ainda se perderá”, lamenta. Segundo ele, parte dessa cultura permanece concentrada em pessoas que acumularam grande conhecimento ao longo da vida, mas que nem sempre tiveram oportunidade ou meios para transmiti-lo adiante.
É justamente por isso que a literatura assume um papel de resistência. Para o escritor, os livros continuam sendo uma das formas mais eficazes de preservar experiências humanas. “Nós um dia morreremos e nossa voz se calará, mas nossas palavras continuarão vivas para quem quiser ‘ouvir’ através dos olhos”, afirma.
O reconhecimento obtido por O Saber dos Velhos também ampliou a responsabilidade do autor com o trabalho de pesquisa e registro cultural. Segundo ele, premiações funcionam como incentivo para seguir produzindo e reafirmam que existe interesse do público por temas ligados à memória e às tradições regionais.
Atualmente, Severino soma 12 livros publicados e afirma que o retorno dos leitores demonstra que essas histórias e conhecimentos continuam encontrando espaço mesmo em tempos de mudanças aceleradas. Neste momento, o foco está na finalização de seu primeiro romance, que já ultrapassa 300 páginas.
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