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A Deusa da Agricultura: patrimônio cultural e identidade regional
Clarisse Ismério Historiadora, Doutora em História do Brasil. Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp Coordenadora do Curso de Pedagogia da Urcamp Integrante da Academia Bajeense de Letras (ABL)
Numa casa localizada na esquina da Rua Marechal Floriano com a Avenida Presidente Vargas, encontra-se representada a deusa da Agricultura, Deméter para os gregos e Ceres para os romanos. Filha de Cronos e Réia, irmã e amante de Zeus, foi mãe de Perséfone, é uma das divindades mais veneradas da Antiguidade. Seu culto estava associado à maternidade, à fertilidade da terra, à semeadura, à colheita e à sucessão das estações do ano.
Considerada a deusa da civilização, Deméter simbolizava a passagem das sociedades humanas do nomadismo para a vida sedentária, uma vez que o desenvolvimento da agricultura possibilitou a formação de comunidades estáveis, o aperfeiçoamento de técnicas produtivas e a criação de novos códigos sociais e culturais.
Entre seus principais atributos destacava-se o trigo, símbolo da abundância, da prosperidade e da própria civilização. Também era frequentemente representada
portando uma cesta ou cornucópia repleta de grãos, flores e frutos, elementos que remetem à fertilidade e à fartura.
Na releitura escultórica presente no prédio, que hoje abriga a OrthoDontic e uma das unidades do Senac, a deusa é representada com feições jovens, emoldurada por um brasão ornamental. A composição é enriquecida por volumosas guirlandas de uvas, símbolo da abundância, da riqueza e da opulência. Na parte superior, dois leões ladeiam a figura feminina, como guardiões da deusa-mãe, reforçando sua majestade e poder simbólico.
Desde a Antiguidade, o leão ocupa lugar de destaque no imaginário simbólico das sociedades humanas. Associado à força, à coragem e à majestade, tornou-se um símbolo de poder, proteção e justiça. Em muitas culturas, sua vinculação ao sol reforçou sua condição de emblema da autoridade e da soberania. Não por acaso, a figura do leão foi amplamente incorporada à arte, à arquitetura e à heráldica, sendo utilizada por monarcas e chefes de Estado para expressar liderança, prestígio e domínio.
Em outro detalhe ornamental do imóvel, observa-se uma composição simbólica formada por mascarões de leão, gavinhas e folhas de acanto. Nessa representação, o leão assume uma função apotropaica, isto é, de proteção, evocando o poder místico de afastar o mal e resguardar o edifício e seus ocupantes contra influências negativas ou ameaças externas.
As cabeças de leão encontram-se interligadas por ramos sinuosos, folhas e delicadas gavinhas que se entrelaçam e se curvam, criando um conjunto harmonioso que remete à natureza, à fertilidade, ao crescimento e à abundância. Complementando a composição, destacam-se as folhas de acanto, elemento recorrente na ornamentação da arte grega e romana, especialmente nos capitéis coríntios. Associadas à vitalidade, à renovação e ao triunfo, elas também conferem sofisticação e elegância ao conjunto decorativo.
As guirlandas de uvas podem ser interpretadas como uma alusão à vocação produtiva da Região da Campanha, cuja tradição vitivinícola remonta ao século XIX. Em 1882, José Marimon fundou a vinícola J. Marimon & Filhos, na Quinta do Seival, atual município de Candiota, empreendimento pioneiro que projetou a produção local para além das fronteiras nacionais. Os vinhos ali produzidos abasteciam mercados brasileiros e eram exportados para os países platinos, evidenciando a relevância econômica da atividade. Assim, a representação das uvas transcende seu sentido clássico de abundância e fertilidade, constituindo também um símbolo da riqueza, do desenvolvimento econômico e da identidade cultural da região.
Embora ocupe posição de destaque na ornamentação do edifício, o significado dessa representação foi gradativamente obscurecido pelo tempo. Ainda assim, sua presença permanece significativa, especialmente em um município cuja trajetória histórica e econômica continua profundamente vinculada à agropecuária, atividade que desempenha papel fundamental na formação e no desenvolvimento regional.

