Minuano Conecta
Um patrimônio afetivo servido no pão
por Redação JM
Bagé é conhecida pela realização da Festa Internacional do Churrasco. Mas, ao lado da carne assada, outro símbolo da gastronomia local conquistou lugar cativo no imaginário bajeense: o pancho. A fama do lanche é tamanha que ele aparece entre as sugestões do livro 1002 coisas para fazer no RS antes de morrer, da Cerveja Polar, um livro-guia colaborativo lançado em 2012. Na página 12, a sugestão de número 38 convida o leitor a “comer um pancho a vapor bem abagualado de Bagé”, indicação enviada por um bageense que transformou uma paixão gastronômica em memória afetiva.
O autor da sugestão, Bruno Amaral Giacomolli, engenheiro químico formado pela primeira turma da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), precisou deixar a cidade por motivos profissionais, mas levou consigo uma lembrança que nenhum dos lugares por onde passou conseguiu substituir: o sabor do pancho.
Com uma carreira marcada por viagens internacionais, Bruno morou em diferentes regiões do Brasil. Após se formar, trabalhou em Candiota, na fábrica de cimento da Intercement; depois passou pelo Rio Grande do Norte e por Minas Gerais, atuando em grandes empresas do setor de cimento e cal. Mais tarde, trabalhando em uma empresa de combustão em São Paulo, viajou a trabalho por países como Argentina, Peru, Colômbia, Equador, Panamá, El Salvador, Guatemala, Estados Unidos, Marrocos, Egito, França, Espanha e Dinamarca. E mesmo conhecendo diferentes culturas e gastronomias ao redor do mundo, ele afirma que nenhum lanche conquistou seu paladar como o da terra natal. “Nenhum lanche para mim é melhor que o pancho”, destaca.
Bruno recorda que nunca recebeu uma cópia do livro-guia colaborativo da Polar, mas revela satisfação por sua contribuição. “Fiquei bem feliz na época. Gostei muito da iniciativa, porque eu gostava muito da Polar como cerveja”, relembra.
Sabor popular que virou tradição
Preparado tradicionalmente com pão, salsicha, queijo, ketchup, maionese e prensado até ficar dourado e crocante, o pancho conquistou o paladar dos bajeenses. Hoje, além da versão clássica, também é possível encontrar opções com diferentes recheios, como coração de frango, entre outros sabores.
Com preços que variam, em média, de R$ 8 a R$ 20, o lanche se mantém como uma alternativa acessível e popular. E além dos tradicionais trailers e lancherias, também pode ser encontrado em aplicativos de entrega, ampliando sua presença na rotina dos consumidores.
A origem do nome pancho não possui uma comprovação histórica definitiva, mas uma das hipóteses mais aceitas, apresentada pelo site Étimos do Sul, especializado em etimologia, relaciona o termo à palavra alemã Frankfurter, nome dado à tradicional salsicha de Frankfurt. Quando esse alimento chegou aos países de língua espanhola, a expressão alemã, considerada difícil de pronunciar, teria sido adaptada popularmente. A palavra “Frank” teria sido associada ao nome Francisco, cujo apelido em espanhol é Pancho, dando origem ao termo usado para identificar o lanche com salsicha nos países do Prata, especialmente Argentina e Uruguai. Assim, o pancho seria uma versão castelhana do hot dog, resultado da adaptação cultural de um alimento de origem europeia que ganhou identidade própria na América Latina.
Na fronteira entre Brasil, Uruguai e Argentina, o pancho encontrou terreno fértil para se transformar em tradição. Em Bagé, ele ultrapassou a condição de simples lanche e passou a ocupar um espaço de memória e pertencimento.
O conceito de patrimônio está ligado àquilo que uma sociedade reconhece como parte da sua história, dos seus costumes e da sua identidade. Embora o pancho não seja um patrimônio oficial registrado, ele pode ser entendido como um patrimônio afetivo, construído pelas experiências compartilhadas, pelas lembranças de família e pelo hábito cotidiano de frequentar os pontos de venda espalhados pela cidade.
E esse patrimônio afetivo é formado nas pequenas cenas do dia a dia: no estudante que compra um lanche após a aula, no trabalhador que faz uma pausa durante a jornada, na família que passa pelo trailer para levar um pancho para casa ou no bajeense que, mesmo vivendo longe, encontra no sabor do lanche uma conexão com a cidade natal.
O trabalho por trás do sabor
Há mais de duas décadas trabalhando na produção de panchos, Rita Costa conhece bem essa relação. Ela atua no ramo desde 2003 e trabalha em um trailer localizado na Praça Silveira Martins, um dos pontos de maior concentração de trailers de pancho no centro de Bagé.
Para ela, o sucesso do lanche está na simplicidade aliada ao cuidado. “Não tem segredo. Tem que trabalhar com produtos de qualidade e fazer com amor. Cada dia a gente procura fazer o melhor”, afirma.
Segundo Rita, a escolha dos ingredientes faz toda a diferença. O queijo é ralado diariamente, os condimentos seguem um padrão de qualidade e o preparo exige poucos minutos. “Um pancho fica pronto em cerca de oito a dez minutos, porque o cliente gosta dele bem prensadinho”, explica.
A praticidade também ajuda a explicar o movimento constante. Somente no turno da manhã e da tarde, a produção gira em torno de 100 lanches por dia, enquanto à noite a procura aumenta ainda mais. O campeão de vendas é o pancho completo.
Para Rita, o diferencial do lanche vai além do sabor. “Quem vem de fora e gosta de um lanche prático, rápido, saboroso e com bom preço precisa experimentar um pancho”, pontua.
Tradição que passa de geração em geração
Entre quem consome, o sentimento é semelhante. A bajeense Rejane Costa Figueiredo conta que, sempre que passa pelo centro da cidade, leva um pancho para o filho Douglas, de 12 anos, apaixonado pelo tradicional pancho completo. “Ele adora. Sempre que consigo passar por aqui, levo um para ele”, diz.
Para ela, o pancho representa uma tradição local difícil de encontrar em outras cidades. “É uma experiência diferente. Em São Sepé, por exemplo, cidade natal da minha mãe, não tem um pancho como o daqui. É um símbolo de Bagé”, define.

