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Cookie Lettuce: entre sonhos, improvisos e a psicodelia do pampa

Em 21/09/2026 às 10:15h
Yuri Cougo Dias

por Yuri Cougo Dias

Cookie Lettuce: entre sonhos, improvisos e a psicodelia do pampa | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Da esquerda para a direita: Raphael Mena (baixo), PuL Jones (voz, guitarra e produtor), Maíza Postiglioni (teclado) e Diego Silveira (bateria) - Foto: Augusto Devincenzi | Especial JM

Por Yuri Cougo Dias

 

No Su(L)rrealista, a Cookie Lettuce propôs uma experiência que começava pela música, mas não precisava terminar nela. Em torno das novas canções, PuL Jones (voz, guitarra e produtor), Maíza Postiglioni (teclado), Diego Silveira (bateria) e Raphael Mena (baixo) reuniram diferentes artistas e o público em um ambiente em que cada pessoa poderia ocupar aquele espaço à sua maneira. Não havia uma instrução sobre como assistir, interagir ou interpretar. Havia um convite para se deixar levar.

A ideia era sair, ainda que por algumas horas, da realidade cotidiana. A música funcionaria como transporte para um mundo construído pelo imaginário, onde cada espectador pudesse viver a própria experiência, encontrar aquilo que deseja e, quem sabe, encarar aquilo que precisa ser curado. O que acontecia no palco, portanto, não estava completamente sob o controle de quem tocava. O público também fazia parte da construção daquele momento.

É a partir dessa liberdade que se entende a Cookie Lettuce. Mais do que uma banda de rock, o grupo composto por PuL, Maíza, Diego e Raphael constrói suas apresentações como espaços de experimentação, nos quais música, artes visuais, improviso e diferentes linguagens podem se encontrar. A identidade não está necessariamente em repetir uma fórmula, mas em preservar a possibilidade de descobrir alguma coisa nova a cada experiência.

Essa concepção ajuda a entender o caminho que a Cookie Lettuce percorre agora com seu novo álbum. O trabalho parte de um tema que poderia parecer simples, mas ganha outras dimensões dentro da linguagem da banda: sair do medo. Na expressão popular, ficar “sem grilo”, abandonar a bad. No universo criado pelo grupo, porém, o medo não é algo que simplesmente precisa desaparecer. Ele existe, é natural e pode se tornar parte do caminho para a libertação mental e a autodescoberta.

São cinco faixas, três inéditas e duas novas versões de músicas antigas. Entre elas está “Cabeça de Lobisomem”, composição lançada originalmente em 2009, quando a Cookie Lettuce ainda não tinha músicos reunidos em uma formação de banda. O disco, assim, aproxima passado e presente sem se apoiar na nostalgia. As antigas canções retornam sob outra forma, enquanto as inéditas dão continuidade a uma maneira de criar que começou muito antes de a banda ocupar os palcos.

Em 2009, Cookie Lettuce era um codinome. O projeto funcionava como uma espécie de diário e laboratório musical, reunindo composições, registros e experiências. As primeiras músicas foram publicadas no Palco MP3, plataforma que, naquele período, servia como espaço para artistas independentes colocarem suas criações na internet. Não havia uma banda propriamente dita. Havia a vontade de fazer música, registrar ideias e experimentar.

A psicodelia já fazia parte daquela primeira concepção, mas não apenas como referência sonora. Para PuL Jones, voz, guitarra e produtor da banda, o termo também representa uma forma de criar com liberdade, explorando conceitos surrealistas e deixando a música escapar de modelos previamente determinados. A intenção não era simplesmente reproduzir um gênero, mas encontrar uma maneira própria de pensar a criação.

O projeto levou anos até chegar aos palcos. Nesse intervalo, as ideias e as canções circularam por outras bandas das quais PuL participou. Vieram shows independentes, festivais, apresentações de música de rua e até uma experiência com orquestra filarmônica. Cada uma dessas passagens acrescentou alguma coisa ao repertório de possibilidades que, mais tarde, ajudaria a transformar o antigo codinome em uma banda.

A oportunidade concreta surgiu depois do período de isolamento social. Em 2024, uma proposta de show-tributo acabou funcionando como uma desculpa para reunir músicos e colocar a Cookie Lettuce em atividade. Em pouco mais de um mês, o grupo preparou a apresentação e, na sequência, gravou um single e um álbum. A velocidade daquele momento escondia um processo muito mais longo: anos de experiências musicais e de aprendizado com gravações feitas em casa.

O primeiro show dessa nova fase, no Mr. Broa, encontrou uma casa cheia. Projeções psicodélicas, improvisos, diferentes instrumentos e equipamentos próprios fizeram parte da apresentação. Aquela estética associada ao movimento hippie — ligada à liberdade, à experimentação e à experiência musical — deixava de existir apenas no imaginário das composições para ganhar presença diante do público de Bagé.

Do blues à valsa gaúcha

A banda também passou a descobrir que o palco poderia ser um lugar de construção, e não somente de reprodução. As músicas possuem espaços destinados ao improviso e podem receber instrumentos diferentes conforme a ocasião. Violino, flauta, gaita de boca e guitarra baiana estão entre as possibilidades. O local da apresentação, o estado emocional dos músicos e, principalmente, a reação do público interferem no resultado.

É por isso que uma apresentação da Cookie Lettuce pode mudar de uma noite para outra. Quanto maior a liberdade percebida pelos músicos, maior o espaço para aquilo que não estava previsto. O improviso deixa de ser um adereço e passa a integrar a própria linguagem da banda. “A pergunta seria o que a banda sempre foi e não o que a banda é hoje”, afirma a tecladista Maíza Postiglioni ao definir essa identidade. O art rock e o rock psicodélico permitem ao grupo experimentar diferentes compassos, arranjos e estruturas, sem a preocupação de encaixar as músicas em uma fórmula determinada pelo mercado.

Essa liberdade, no entanto, não significa fazer música sem conhecer suas regras. Uma das marcas do processo de composição está justamente na exploração da teoria musical. “Não se quebra as regras sem conhecer elas primeiro”, observa PuL. Em “Tudo Vai, Tudo Vem”, por exemplo, a banda trabalha com o compasso 12/8 do blues e o aproxima do 3/4 da valsa gaúcha.

É uma combinação que ajuda a localizar a Cookie Lettuce. A psicodelia não aparece como algo importado de um lugar distante, separado da paisagem em que a banda existe. Ela encontra o pampa, seus espaços abertos, seus silêncios e suas referências musicais. O resultado é uma experimentação que pode olhar para fora sem deixar de conversar com aquilo que existe ao redor.

Há também uma questão prática nessa maneira de fazer arte. Na Campanha gaúcha, avalia PuL, o “faça você mesmo” muitas vezes deixa de ser escolha estética e vira condição para que as coisas aconteçam. Ou o próprio artista faz, ou ninguém fará por ele. A Cookie Lettuce encontrou nesse cenário uma possibilidade de aproximação com outros artistas e segmentos culturais que também trabalham de forma independente.

A banda não separa essas manifestações em compartimentos. Música, artes visuais, produção de eventos e outras linguagens podem ocupar o mesmo espaço. A perspectiva multicultural está ligada justamente à ideia de não colocar a arte em gavetas — uma separação que, segundo a concepção do grupo, contraria a própria aproximação com o pensamento surrealista.

Essa mesma lógica aparece no processo de gravação. As sessões caseiras podem durar entre quatro e oito horas. Não se trata de romantizar a falta de recursos, mas de reconhecer que a necessidade acabou criando também uma margem de liberdade. Arranjos podem surgir durante a gravação, instrumentos podem ser testados e até um erro pode encontrar lugar na versão final.

A música, nesse processo, não precisa chegar pronta ao estúdio. Ela pode descobrir alguma coisa enquanto está sendo gravada. A criatividade não obedece a horário, prazo ou fórmula. As canções são construídas, mas não necessariamente segundo uma lógica tradicional. E não há pressa para decidir quando uma ideia está realmente pronta.

‘Faça você mesmo’

O novo álbum nasce desse mesmo princípio. As duas releituras retomam parte do passado da Cookie Lettuce, enquanto as três inéditas levam adiante uma proposta que continua aberta à experimentação. A banda prefere chamá-lo de álbum, mesmo com cinco faixas, pela unidade conceitual do trabalho. Para os músicos, a definição não deveria depender dos números que, em outros períodos, eram determinados pelas limitações físicas do vinil ou do CD.

Até a capa segue a mesma lógica artesanal. As imagens são formadas por colagens de desenhos em aquarela feitos à mão por Maíza. A produção visual acompanha a musical: ambas são construídas dentro da própria estrutura independente da banda.

O resultado é um trabalho que conecta diferentes momentos da trajetória da Cookie Lettuce. A composição de 2009 encontra novas versões; o laboratório doméstico chega ao palco; o improviso do show conversa com as possibilidades abertas durante as gravações; e o surrealismo deixa de ser apenas uma referência estética para aparecer na própria maneira de pensar a experiência artística.

Para quem faz arte longe dos grandes centros, o futuro nem sempre aparece como um projeto de longo prazo. Na Campanha, muitas vezes, é preciso construir o presente com os recursos disponíveis. “A arte se faz pelo momento”, resume PuL.

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