Cidade
Bazar Criativo Cultural transforma encontro entre empreendedores em movimento de economia
por Miquéli Romero
Depois de uma trégua no período chuvoso, o sol voltou a iluminar Bagé no sábado, 25, e, com ele, também voltou a ocupar espaço nas ruas uma parte importante da cidade: a economia criativa. No Mr. Broa, a calçada e os espaços internos do empreendimento foram tomados por cores, texturas, livros, roupas, bolsas, artesanato, gastronomia e música.
O que começou na Feira da Ismael tornou-se, para muitos pequenos empreendedores, mais do que uma oportunidade de venda. É espaço. É visibilidade. É encontro. É a possibilidade de que alguém, ao passar por uma banca, descubra um produto, uma história ou um talento que talvez nunca encontrasse em outro lugar.
O Bazar Criativo Cultural reúne brechós, marcas autorais, gastronomia, música e diferentes expressões da economia criativa de Bagé. Mas, para quem participa, ele representa algo que vai além de um evento no calendário. É uma forma de fazer a cidade circular e de permitir que quem produz também possa circular por ela. "É a arte do encontro", resume a empreendedora Tai Fernandes.
Em um tempo marcado pelo avanço das tecnologias e da inteligência artificial, ela acredita que a Feira da Ismael resgata justamente aquilo que nenhuma tela substitui: a troca direta entre pessoas. "Essa troca de culturas, de saberes, de roupas, de peças, essa economia solidária e circular, circular de fato, mas também muita troca. Muitas vezes, uma pessoa gosta de uma peça ou de uma bolsa, e o pessoal faz troca, faz escambo. É resgatar essa arte do encontro", afirma.
Um espaço para quem produz em casa
A idealizadora do Bazar Criativo Cultural, Quélen Colares, conta que a iniciativa nasceu do desejo de tornar Bagé uma cidade mais viva, com ruas mais ocupadas e espaços onde as pessoas possam se encontrar e apresentar aquilo que produzem.
A proposta também atende a uma necessidade concreta de muitos empreendedores: nem todos possuem uma loja ou espaço físico para comercializar seus produtos. "Gente que produz em casa, que aprendeu em um grupo a fazer crochê, de repente encontra um espaço onde pode, além de exercer uma coisa que gosta de fazer e que aprendeu, vender isso, tornar isso uma renda e auxiliar na renda da casa por meio do seu trabalho manual", explica Quélen.
Para ela, o bazar é uma forma de movimentar a economia dos pequenos produtores, do artesanato, da moda circular e da gastronomia, mas também de estimular a comunidade a habitar a própria cidade. "A ideia é movimentar a comunidade bajeense, movimentar as ruas, fazer com que todo mundo circule, habite a cidade onde mora, possa fazer suas vendas e movimentar a economia", destaca.
O que começou como um encontro de brechós transformou-se em um bazar coletivo, aberto a diferentes formas de produção e expressão da economia criativa, como antiguidades, vinis, artesanato e gastronomia.
A ideia é que o evento seja realizado mensalmente, aos sábados, ocupando diferentes espaços do Mr. Broa e contando também com atrações musicais, como apresentações ao vivo e DJs. "Queremos deixar as portas abertas para que todo mundo que tenha algo a agregar dentro da economia criativa possa vir fazer parte junto com a gente", afirma Quélen.
Quando a chuva também interrompe a renda
Para quem vive das feiras, a realização de um evento também representa a possibilidade de não deixar o trabalho parar. Luana de Souza conta que várias feiras das quais participaria ao longo do mês foram canceladas por causa do mau tempo.
Luana trabalha com produtos voltados ao universo geek e nerd, como miniaturas, pelúcias, chaveiros, bottons e adesivos. Depois de deixar o emprego formal para se dedicar aos cuidados com a família, especialmente com os dois filhos, ambos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ela precisou encontrar uma forma de conciliar a rotina de cuidados com uma atividade profissional.
Entre consultas, tratamentos e as demandas do dia a dia, voltar ao trabalho com carteira assinada já não se encaixava na nova realidade familiar. Foi então que surgiu a ideia de transformar um interesse compartilhado pela família em uma possibilidade de renda. Luana e os familiares sempre gostaram de animes, jogos e desenhos, mas encontravam dificuldade para adquirir esse tipo de produto em Bagé. "Muitas vezes, a gente ia para outras cidades e achava um pouco caro. Então surgiu a ideia, nossa e de muitos amigos que gostam, de vender produtos geeks e nerds", conta.
As feiras são hoje uma importante fonte de renda para Luana. Ela também realiza vendas pelo Instagram e WhatsApp e, mediante agendamento, recebe clientes em casa. Durante a semana, dedica-se à casa e à família. Nos finais de semana, com o apoio do marido, encontra nas feiras um espaço para trabalhar. "É a única forma que a gente tem de poder vender o produto, oferecer para o pessoal e fazer com que conheçam a gente", explica.
Visibilidade que transforma trabalho em oportunidade
Entre livros, ecobags e bordados, a escritora e artista Giana Guterres também encontrou nas feiras um espaço para fazer seu trabalho chegar mais longe.
Para ela, esses encontros têm uma importância que vai além da questão econômica. São espaços de visibilidade e de contato direto com o público. "Eu sou uma artista que vive de realizar projetos e de vender meus livros nas ruas. Então, esse contato direto com o público é muito legal", conta.
Foi justamente por meio desses encontros que seu trabalho chegou a lugares inesperados. Giana já recebeu convites para ir a escolas e encontrou pessoas que conheceram seus livros em diferentes espaços da cidade. "Às vezes, eu tenho uma dimensão de onde o meu trabalho está chegando em Bagé a partir do contato com o público nas feiras", relata.
Valor de uma peça única
Na banca de Alessandra Madruga, cada bolsa carrega também uma história de reaproveitamento. Uma delas nasceu de um guarda-chuva. Outra, de uma calça jeans. O trabalho utiliza materiais como tricoline, sarja e tecidos impermeáveis, em uma prática que se aproxima do upcycling, quando materiais que seriam descartados ganham uma nova função e um novo valor.
Para a empreendedora, que também não tem uma loja física, a realização de eventos em espaços protegidos também é uma alternativa durante o inverno, quando chuva e vento dificultam a realização de feiras ao ar livre. Alessandra defende que Bagé ainda pode desenvolver uma cultura maior de valorização do trabalho artesanal e da produção local.
Diferentemente de produtos industrializados, suas bolsas são únicas. "O modelo pode ser parecido, mas não é igual. Não têm o mesmo tamanho, nem o mesmo material. Então, é exclusividade", afirma.
Uma cidade mais viva
Enquanto as pessoas circulam pelo espaço, experimentam roupas, folheiam livros, conhecem produtos e conversam com quem produz, o Bazar Criativo Cultural cumpre uma função que nem sempre aparece nos números de uma venda. Ele cria encontros.
Uma roupa que estava esquecida no guarda-roupa pode encontrar um novo dono. Uma bolsa feita à mão pode chegar a alguém que nunca conheceria o trabalho da artesã. Um livro pode ser descoberto por um leitor que não o encontraria em uma livraria. Um produto feito em casa pode se transformar em renda.
A proposta do Bazar Criativo Cultural é justamente essa: fazer circular produtos, ideias, talentos e pessoas. Em uma cidade que busca alternativas de lazer, cultura e desenvolvimento, iniciativas como a Feira da Ismael e o Bazar Criativo Cultural mostram que ocupar espaços pode ser também uma forma de fortalecer quem produz, estimular a economia local e construir pertencimento.

