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Saúde

Do medo ao controle: os avanços no tratamento da esclerose múltipla

Doença inflamatória e autoimune afeta o sistema nervoso central e costuma surgir em adultos jovens; informação é uma das principais ferramentas para reconhecer sinais e buscar atendimento

Em 29/08/2026 às 09:33h
Miquéli Romero

por Miquéli Romero

Do medo ao controle: os avanços no tratamento da esclerose múltipla | Saúde | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Foto: Divulgação

A esclerose múltipla ainda é cercada por dúvidas e, principalmente, por antigos conceitos que nem sempre correspondem à realidade dos pacientes atualmente. Doença inflamatória crônica e autoimune que afeta o sistema nervoso central, ela pode provocar diferentes manifestações neurológicas e, quando diagnosticada precocemente, pode ser controlada com tratamentos cada vez mais eficazes.

O Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla, celebrado em 30 de agosto, reforça a importância de ampliar o conhecimento sobre a doença, que costuma atingir principalmente adultos jovens e é mais frequente em mulheres.

Segundo o neurologista João Bastianello, a esclerose múltipla ocorre quando o sistema imunológico passa a atacar, de maneira inadequada, estruturas do próprio sistema nervoso. O principal alvo é a mielina, uma espécie de camada que reveste e protege as fibras nervosas.

“Esse processo provoca áreas de inflamação e desmielinização no cérebro e na medula espinhal. Com o passar do tempo, também pode ocorrer lesão das próprias fibras nervosas. Dependendo de onde essas lesões aparecem, o paciente pode apresentar alterações de visão, sensibilidade, força, equilíbrio, coordenação, controle urinário, entre diversos outros sintomas”, explica.

Embora seja frequentemente associada ao cérebro, a doença não se limita a esse órgão. A esclerose múltipla pode comprometer diferentes estruturas do sistema nervoso central, incluindo o cérebro, a medula espinhal e os nervos ópticos. É justamente essa variedade de áreas que ajuda a explicar por que os sintomas podem ser tão diferentes entre os pacientes.

Sinais que merecem atenção

Os primeiros sintomas variam de acordo com a região afetada. Entre as manifestações mais características estão perda ou redução da visão em um dos olhos, muitas vezes acompanhada de dor ao movimentá-lo; visão dupla; formigamento ou perda persistente de sensibilidade; perda de força em um braço ou uma perna; alterações de equilíbrio e coordenação; dificuldade para caminhar; fadiga importante e alterações urinárias.

O médico alerta, porém, que nem todo sintoma neurológico representa esclerose múltipla. Formigamentos, por exemplo, podem estar relacionados a problemas de coluna ou ansiedade, enquanto alterações visuais podem inicialmente ser atribuídas a condições oftalmológicas.

“Um sintoma isolado não diagnostica esclerose múltipla. O neurologista procura identificar se existe um padrão clínico compatível e, a partir disso, define a necessidade de investigação”, afirma Bastianello.

Outro aspecto importante é a duração dos sintomas. Segundo o neurologista, manifestações neurológicas típicas de um surto geralmente persistem por mais de 24 horas. Por isso, sintomas rápidos e inespecíficos não devem ser automaticamente relacionados à doença.

Diagnóstico depende de investigação

Não existe um único exame capaz de confirmar a esclerose múltipla em todos os casos. O diagnóstico é feito a partir da combinação da história clínica, exame neurológico e exames complementares.

A ressonância magnética do cérebro e, em muitos casos, da medula espinhal, é uma das principais ferramentas utilizadas. Também podem ser realizados exames do líquido cefalorraquidiano, obtido por punção lombar, além de exames de sangue para descartar outras doenças que possam apresentar manifestações semelhantes.

“A ressonância magnética é extremamente importante, mas uma ressonância alterada, sozinha, não significa esclerose múltipla. Existem diversas outras condições capazes de produzir alterações na substância branca cerebral”, esclarece o especialista.

Atualmente, o diagnóstico pode ser realizado de forma mais rápida do que no passado. Em apresentações típicas e com acesso à avaliação especializada e à ressonância magnética, pode ser possível estabelecer o diagnóstico já após o primeiro evento neurológico. Em casos atípicos ou com sintomas pouco específicos, entretanto, a investigação pode levar meses ou até anos.

Por que o diagnóstico precoce é tão importante?

Para o neurologista, reconhecer a doença o quanto antes é uma das principais mudanças na abordagem da esclerose múltipla. Isso porque a atividade inflamatória pode continuar ocorrendo mesmo quando o paciente não apresenta sintomas aparentes.

“Diagnosticar e tratar adequadamente a doença desde suas fases iniciais pode reduzir novos surtos, novas lesões e o acúmulo de incapacidade neurológica ao longo dos anos. Na esclerose múltipla moderna, nosso objetivo não é simplesmente tratar os sintomas quando eles aparecem. Procuramos evitar que novas lesões aconteçam”, destaca.

Atualmente, existem diferentes terapias modificadoras da doença, disponíveis em medicamentos injetáveis, comprimidos e tratamentos administrados por infusão. A escolha depende de fatores como atividade e tipo da doença, idade, outras condições de saúde, planejamento de gestação, riscos relacionados aos medicamentos e características individuais de cada paciente.

Esses tratamentos podem reduzir significativamente a ocorrência de surtos e o surgimento de novas lesões observadas na ressonância magnética. Dependendo do medicamento e do perfil do paciente, também podem diminuir o risco de acúmulo de incapacidade.

Esclerose múltipla não é sinônimo de cadeira de rodas

Um dos principais mitos relacionados à doença é a ideia de que o diagnóstico levará inevitavelmente à perda da mobilidade. Para Bastianello, essa visão está relacionada, em grande parte, ao período em que existiam poucas alternativas de tratamento.

“Receber o diagnóstico de esclerose múltipla não significa que a pessoa ficará em uma cadeira de rodas”, enfatiza.

O cenário atual é diferente. O avanço dos medicamentos e das estratégias de acompanhamento permite controlar a atividade inflamatória da doença de maneira mais eficaz. Muitas pessoas diagnosticadas conseguem trabalhar, estudar, praticar atividades físicas, constituir família e manter uma vida ativa durante décadas.

“É fundamental abandonar a visão antiga de que o diagnóstico de esclerose múltipla determina inevitavelmente incapacidade grave”, reforça o médico.

A doença, no entanto, apresenta diferentes formas e comportamentos. Na forma mais comum, chamada remitente-recorrente, podem ocorrer surtos, com o surgimento de novos sintomas neurológicos ou piora significativa de sintomas anteriores, seguidos de melhora parcial ou completa. Em outras situações, especialmente nas formas progressivas, pode ocorrer uma piora neurológica mais lenta e gradual.

Uma doença multifatorial

A causa exata da esclerose múltipla ainda não é conhecida. A compreensão atual é de que a doença resulta da interação entre predisposição genética e fatores ambientais.

Entre os fatores estudados estão a infecção prévia pelo vírus Epstein-Barr, tabagismo, obesidade principalmente durante a adolescência e questões relacionadas à vitamina D e à exposição solar. Ter um familiar com esclerose múltipla também aumenta o risco, mas a doença não é considerada hereditária no sentido clássico.

“É importante esclarecer que ela não é uma doença hereditária no sentido clássico. A grande maioria dos familiares de pacientes com esclerose múltipla nunca desenvolverá a doença”, explica Bastianello.

A doença também não é contagiosa. Atualmente, não existe uma estratégia capaz de garantir sua prevenção. Ainda assim, hábitos como não fumar, manter peso adequado, praticar atividade física e corrigir eventual deficiência de vitamina D fazem parte dos cuidados gerais de saúde e podem estar relacionados à redução de alguns fatores de risco.

Informação também é tratamento

Para além do acompanhamento médico, a conscientização tem papel importante. O neurologista destaca que a informação pode ajudar a reconhecer sintomas persistentes, acelerar a busca por atendimento e combater o preconceito.

“Informação ajuda o paciente a reconhecer sintomas que merecem avaliação, facilita o diagnóstico precoce, combate preconceitos e mostra à sociedade que uma pessoa com esclerose múltipla pode continuar tendo uma vida produtiva e independente”, afirma.

A orientação é procurar avaliação médica diante de sintomas neurológicos novos, persistentes ou recorrentes, especialmente situações como perda de visão em um olho, visão dupla, perda de força, alteração persistente da sensibilidade, desequilíbrio ou dificuldade para caminhar.

Isso não significa que essas manifestações sejam necessariamente provocadas pela esclerose múltipla, já que existem diversas outras causas possíveis. O importante é que sintomas persistentes sejam investigados.

Para quem acaba de receber o diagnóstico, a mensagem do neurologista é de que o futuro não precisa ser definido pelas histórias de pacientes de décadas atrás. “A esclerose múltipla continua sendo uma doença crônica e que exige acompanhamento, isto é verdade. Mas o cenário atual é completamente diferente. Temos diagnóstico mais precoce, melhores métodos de acompanhamento e tratamentos muito mais eficazes”, afirma.

“Hoje, para muitos pacientes, é possível manter a esclerose múltipla controlada durante muitos anos e preservar uma excelente qualidade de vida”, completa.

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