Fogo Cruzado
Ao professor que me ensinou que jornalismo também se faz nos bastidores
por Redação JM
A notícia da morte de Orlando Carlos Brasil me alcançou de uma maneira diferente. Não apenas porque morreu um dos nomes importantes do jornalismo de Bagé, mas porque morreu um professor que teve participação direta em alguns dos caminhos que percorri profissionalmente.
Orlando foi meu professor na Urcamp e coordenava o curso de Comunicação Social quando me formei em Jornalismo, em 2006. Também coordenava o curso de Pós-Graduação em Comunicação e Política quando o concluí, em 2010. Foi ele quem me fez o primeiro convite para ser professor, assumindo temporariamente o componente de Cinema. Naquele momento, talvez eu não tivesse a dimensão do significado daquela oportunidade. Hoje, olhando para trás, sei que aquele convite abriu uma possibilidade profissional que passou a fazer parte da minha trajetória.
Também como coordenador do curso, Orlando me chamou para atuar como editor no estúdio de televisão do curso de Jornalismo. Eu pouco sabia sobre o ofício, mas não podia recusar o convite. Dediquei dois meses das férias àquela tarefa e aprendi. Eram experiências que se somavam à formação acadêmica e me aproximavam, na prática, de diferentes dimensões da comunicação.
Do seu compromisso com a ciência nasceu um concurso de monografias. A iniciativa acabou cancelada porque teve apenas um inscrito. Eu era o único. O trabalho que submeti, buscando a premiação, que consistia na publicação de um livro, tratava da cobertura jornalística do traslado de Silveira Martins pelo Correio do Sul. Anos depois, o assunto voltaria à minha trajetória acadêmica, desta vez no curso de Licenciatura em História, quando desenvolvi meu Trabalho de Conclusão de Curso a partir da perspectiva da construção da memória daquele mesmo processo.
Duas décadas depois da minha formatura, estou à frente da edição do Jornal Minuano, função que Orlando exerceu entre 1995 e 2001, e assinando o Fogo Cruzado, coluna que ele criou e que permanece até hoje entre os conteúdos tradicionais do jornal. Orlando inaugurou uma maneira própria de fazer cobertura política no Minuano. Acompanhava as sessões da Câmara, construía relações com fontes e não se limitava às informações oficiais. Seu Fogo Cruzado trazia notícias, notas e bastidores da política local, registrando movimentos que muitas vezes não apareciam nas páginas tradicionais de uma cobertura legislativa. Era uma forma de olhar para a política para além daquilo que era dito oficialmente e de transformar o que acontecia nos bastidores em informação.
Há um desafio em continuar um trabalho que, antes de mim, foi feito por alguém que ajudou a estabelecer uma linguagem e uma maneira de enxergar o jornalismo político. Mas há, sobretudo, um valor afetivo e profissional imenso em saber que parte do que faço hoje passa por caminhos que Orlando ajudou a abrir.
Em outra das coincidências que a profissão nos proporcionou, tive a oportunidade de entrevistá-lo para um especial dos 30 anos do Jornal Minuano. Coube a mim ouvir Orlando contar sua própria história, reconstruir sua trajetória profissional e registrar, a partir de suas lembranças, parte das transformações pelas quais o jornal havia passado. Eu estava, de certa forma, diante de uma fonte que também era parte da história que eu próprio ajudava a contar.
Naquele momento, Orlando não era apenas o professor que eu havia conhecido anos antes. Era uma fonte privilegiada para compreender a história do jornal em que eu trabalhava. Ao ouvi-lo falar sobre o Minuano, suas mudanças e diferentes momentos, percebi novamente como algumas trajetórias se cruzam de maneiras que só o tempo é capaz de revelar. Isso torna, para mim, sua ausência ainda mais significativa.
Para mim, sua trajetória tem ainda significado próprio. Orlando não é apenas alguém sobre quem escrevo porque fez parte da história do jornalismo de Bagé. É alguém que participou da minha própria história.
Foi meu professor. Foi quem me convidou a dar meus primeiros passos como professor. Foi quem me ofereceu oportunidades quando eu ainda estava começando. Foi também alguém que, anos depois, sentei para entrevistar, desta vez não como aluno, mas como jornalista, para que sua memória ajudasse a contar a história do jornal onde hoje trabalho.
Seu nome fica no jornal, na Urcamp, no Fogo Cruzado e nos muitos jornalistas e publicitários que ajudou a formar. No meu caso, fica também em uma parte da estrada que percorri para chegar até aqui.

