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Biografia de Lucio Yanel revisita trajetória e fala sobre o futuro da música

Em 05/09/2026 às 19:26h
Suélen Delabari

por Suélen Delabari

Biografia de Lucio Yanel revisita trajetória e fala sobre o futuro da música | Cidade | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Pesquisador, João Daniel Telles, e o músico biografado Foto: Suélen Delabari

Aos 80 anos de idade e com 65 anos dedicados à música, o violonista argentino Lucio Yanel teve parte de sua trajetória celebrada neste sábado, 5, em Bagé. A Livraria LEB recebeu, no final da tarde, o lançamento e a sessão de autógrafos da segunda edição do livro “O Violão Pampeano de Lucio Yanel: memórias de um fazer musical no Sul do Brasil”, escrito pelo músico e pesquisador José Daniel Telles dos Santos.

O encontro ocorreu entre as atividades que marcam a passagem de Yanel pela Rainha da Fronteira. No mesmo dia, o músico participa da programação da 14ª Galponeira de Bagé, reforçando a ligação construída ao longo de mais de quatro décadas entre seu trabalho e a cultura do Rio Grande do Sul.

A biografia é resultado de uma pesquisa iniciada por José Daniel em 2007. Ao longo dos anos, o pesquisador reuniu entrevistas, documentos, fotografias, depoimentos de outros músicos e materiais do acervo pessoal de Yanel para reconstruir uma trajetória que, segundo ele, ultrapassa a história individual do violonista.

José Daniel conta que o interesse pela vida de Yanel nasceu ainda na infância, quando ouviu pela primeira vez o som do violão do músico em um rádio de pilha, no interior. A partir daquela experiência, Yanel tornou-se uma de suas primeiras referências musicais. “Quando eu quis pesquisar sobre o Lúcio, não tinha uma linha escrita. Tinha a biografia do Bardo, do Villa-Lobos, de todo mundo. E esse artista que fez parte da minha infância não tinha nada escrito sobre ele. Então eu decidi escrever”, relata o pesquisador.

Segundo Telles, uma das características que mais o impressionaram durante os anos de pesquisa foi a espontaneidade de Yanel. Sem formação musical formal, o argentino desenvolveu sua maneira de tocar a partir da tradição oral, do convívio com outros músicos e da experiência nas ruas e nos palcos.

Yanel chegou ao Rio Grande do Sul em 1982 e trouxe consigo referências da música argentina, da cultura guarani e de diferentes expressões musicais da região pampeana. Sua maneira singular de tocar influenciou gerações de violonistas e contribuiu para a consolidação do chamado violão pampeano.

Uma história construída pela oralidade

Para o pesquisador, a trajetória de Yanel também provoca uma reflexão sobre o ensino musical. Telles, que é professor universitário, destaca que a formação acadêmica e o conhecimento adquirido por meio da tradição oral não precisam ser vistos como caminhos opostos. A partitura, segundo ele, foi fundamental para preservar obras e conhecimentos musicais ao longo da história. Ao mesmo tempo, a experiência de Yanel demonstra a importância da vivência, da escuta, da troca entre músicos e da interpretação pessoal.

É justamente essa característica que, para ele, constitui uma das principais heranças deixadas por Yanel às novas gerações: a compreensão de que o músico também é responsável por imprimir sua própria identidade àquilo que executa.

A segunda edição da obra conta com 290 páginas e amplia o projeto iniciado na primeira publicação. Além do livro físico, o trabalho inclui uma versão digital em audiolivro de acesso gratuito e a série de podcasts “Yanel e seus tempos”, com dez episódios sobre a trajetória do violonista.

A segunda edição de “O Violão Pampeano de Lucio Yanel” está disponível na Livraria LEB.

“Tenho só agradecimento à vida”

Para Lucio Yanel, revisitar seis décadas e meia de carreira por meio da biografia foi também uma oportunidade de enxergar a própria história através do olhar de outras pessoas.

O músico conta que ficou emocionado ao ler o livro e destacou o trabalho realizado pelo autor ao reunir fragmentos de sua trajetória e depoimentos de pessoas que acompanharam sua carreira. “Eu li o livro e realmente gostei muito. Fiquei bastante lisonjeado com algumas declarações que existem testemunhadas no livro. Muito lindo, muito feliz”, afirmou.

Aos 80 anos, Yanel diz não ter mais a preocupação de acrescentar novos capítulos à própria biografia. Prefere deixar que a vida siga seu curso: “Eu sou um homem de 80 anos já, então eu não posso exigir mais nada, não posso pedir mais nada. Eu tenho só agradecimento à vida”.

Mesmo assim, o músico ainda carrega um desejo: aproximar a academia das manifestações culturais e musicais ligadas ao território pampeano. Para Yanel, universidades e cursos de música poderiam dedicar maior atenção às manifestações produzidas na região, incluindo compositores, poetas e músicos latino-americanos que ajudaram a construir a identidade cultural do território.

“Eu gostaria que a parte acadêmica se ocupasse disso”, afirmou. “Quanta riqueza nós temos aqui em todo o território pampeano, território missioneiro, em matéria de música, em matéria de poesia.”

O músico defende que os estudantes tenham contato não apenas com nomes consagrados da música erudita europeia, mas também com artistas que fazem parte da história cultural de seus próprios territórios.

Bagé como parte da história do violão

A passagem de Yanel por Bagé também despertou no pesquisador o interesse por outra história ainda pouco conhecida: a relação da cidade com grandes nomes do violão latino-americano.

José Daniel cita a passagem pelo município do paraguaio Agustín Barrios Mangoré, considerado um dos grandes compositores para violão da história da música. Segundo o pesquisador, Bagé teria sido a primeira cidade brasileira em que o músico se apresentou. A descoberta alimenta um projeto futuro de pesquisa sobre o papel da cidade na história do violão na América do Sul.

A ideia é investigar quais músicos passaram pela cidade, quais repertórios eram executados e qual espaço o violão ocupou na memória cultural da Rainha da Fronteira. “Tenho muita vontade de, num futuro, me juntar com outros pesquisadores e tentar resgatar Bagé como também um lugar de protagonismo na história do violão dentro da América do Sul”, projeta. 

Para José Daniel, a localização geográfica do município ajuda a compreender esse protagonismo. Situada no coração do Pampa, Bagé esteve historicamente conectada a diferentes fluxos culturais vindos da Argentina, do Uruguai e de outras regiões do Rio Grande do Sul.

 

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