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Cinema ganha espaço nas escolas de Bagé
Nova política municipal amplia espaço para o cinema e o audiovisual brasileiro na rede pública de Bagé; antes da lei, professores já desenvolviam experiências que utilizavam filmes para estimular debates e formar um olhar crítico nos estudantes
por Márlon Castro Posqui
Uma sala escurece. Por alguns minutos, as atenções se concentram em uma tela. Quando os créditos sobem, porém, a aula não termina. Para alguns professores, é justamente nesse momento que ela começa. O filme pode abrir espaço para perguntas, confrontar ideias, apresentar outras realidades e provocar discussões que ultrapassam aquilo que foi projetado.
Em Bagé, essa relação entre cinema e educação ganhou um novo capítulo. Sancionada em 4 de setembro de 2026, a Lei Municipal nº 7.061 instituiu a Política Municipal de Difusão e Exibição do Cinema e do Audiovisual na Rede Pública Municipal de Ensino. A legislação estabelece, entre seus objetivos, fortalecer o uso de obras audiovisuais brasileiras como recurso pedagógico, desenvolver o senso crítico, estético e cultural dos estudantes e ampliar o acesso da comunidade escolar ao cinema, com valorização das produções locais e regionais.
A iniciativa municipal se soma a uma determinação que existe em âmbito nacional desde 2014. A Lei nº 13.006 acrescentou à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional a obrigatoriedade da exibição de filmes de produção nacional como componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica das escolas, por no mínimo duas horas mensais.
Na prática, porém, a presença do cinema nas escolas nem sempre dependeu de uma política específica. Experiências como a da professora de línguas Flávia Azambuja, da EMEF Dr. João Severiano da Fonseca, mostram que parte desse trabalho já acontecia a partir da iniciativa dos próprios educadores.
Um cineclube dentro da escola
Em 2024, Flávia transformou um estudo acadêmico em uma experiência concreta com os estudantes. O Cine Tríplice nasceu a partir de um seminário de pesquisa no qual um grupo de alunas entrou em contato com textos sobre cinema na escola, utilização do audiovisual no ensino de línguas e funcionamento de cineclubes. Depois da etapa teórica, veio a prática.
O projeto funcionou até o final de 2025, durante cerca de um ano e meio, e exibiu dez filmes. Seis deles eram produções brasileiras. A escolha das obras não acontecia de maneira aleatória: levava em consideração temáticas previamente definidas, a diversidade de gêneros e a busca por filmes que não costumam circular nos cinemas tradicionais.
Até o nome do projeto foi construído coletivamente. Em um concurso realizado na escola, surgiu o Cine Tríplice, em referência às três línguas presentes nas produções trabalhadas: português, inglês e espanhol. Os estudantes também não ocupavam apenas o lugar de espectadores. Participavam da escolha dos filmes, elaboravam perguntas para as discussões e realizavam atividades lúdicas relacionadas às obras. O cinema era, assim, menos um ponto final e mais uma porta de entrada para outros assuntos.
Entre os temas trabalhados estiveram diversidade linguística e cultural, inclusão, antirracismo, feminismo e estereótipos de gênero. Para Flávia, essa dimensão crítica é essencial. O cinema, segundo ela, não apenas representa determinadas realidades, mas também pode interferir na forma como elas são percebidas. As imagens ajudam a construir imaginários sobre pessoas, culturas e acontecimentos. Aprender a olhar para elas criticamente, portanto, também é uma forma de compreender o mundo ao redor.
Para além da sala de aula
A experiência do Cine Tríplice também ultrapassou os limites da sala de aula. Uma das primeiras atividades levou estudantes ao Festival Internacional de Cinema da Fronteira. Para alguns, foi a primeira vez em que estiveram dentro de uma sala de cinema.
Em outra ocasião, o grupo participou de uma sessão do Sociedad Cineclub de Fronteira na Sociedade Uruguaia de Bagé. Na programação, três curtas-metragens sobre Bagé aproximaram os estudantes de histórias e imagens da própria cidade. A atividade também incluiu uma visita à Casa de Cultura Pedro Wayne.
As experiências ajudaram a deslocar o cinema de seu lugar mais convencional. A tela podia estar na escola, em uma universidade, em uma instituição cultural ou em uma sala de cinema. E a aprendizagem podia acontecer tanto diante do filme quanto nas conversas que surgiam depois dele.
Projeto depende da iniciativa individual
O Cine Tríplice, no entanto, foi interrompido em 2026. As atividades aconteciam no turno inverso e exigiam um tempo que, segundo Flávia, nem sempre o cotidiano do professor permite. Como se tratava de uma iniciativa pessoal, realizada pelo envolvimento voluntário da professora e dos estudantes, também não havia uma estrutura específica de incentivo para sua continuidade.
A experiência revela uma das questões que acompanham a chegada de uma política municipal para o setor. Iniciativas que antes dependiam da disposição individual de educadores agora passam a encontrar respaldo em uma legislação própria. De acordo com a professora, ela pretende retornar com o projeto.
A Lei Municipal nº 7.061, entretanto, não se limita a determinar a exibição de produções audiovisuais. O texto apresenta o cinema como instrumento de ensino, aprendizagem, reflexão crítica, expressão cultural e formação cidadã.
Entre as diretrizes previstas estão a promoção de sessões de obras brasileiras nas escolas, o incentivo à formação continuada dos profissionais da educação, a utilização de produções locais e regionais, a realização de debates, mostras e oficinas e a articulação com instituições culturais, educacionais e comunitárias.
A política também prevê ações relacionadas à acessibilidade, ao respeito à diversidade e aos direitos humanos e, quando houver pertinência pedagógica, o estímulo à produção audiovisual dos próprios estudantes.
Nesse sentido, a experiência do Cine Tríplice antecipa algumas das possibilidades previstas na nova legislação. Ao selecionar diferentes gêneros, trabalhar produções brasileiras, discutir representações e levar os estudantes a espaços culturais, o projeto já utilizava o cinema como ferramenta para olhar para além da tela. A diferença é que, agora, essa discussão passa a fazer parte de uma política pública municipal.
A nova legislação entra em vigor a partir de sua publicação e determina que sua implementação seja realizada pelo Poder Executivo por meio dos órgãos municipais competentes, considerando o planejamento da rede, a organização administrativa e a disponibilidade técnica e orçamentária.
O desafio não está apenas em encontrar filmes para exibir. Está em criar condições para que eles encontrem espaço dentro do planejamento pedagógico e, principalmente, para que os minutos diante da tela possam se transformar em perguntas e debates depois que ela se apaga.

