Cidade
Urcamp apoia projeto que destaca posto de Santa Tecla nos 400 anos das Missões Jesuíticas
Mesa-redonda, realizada neste sábado discutiu a importância do Posto de Santa Tecla para a história da região e homenageou instituições que contribuem para a preservação da memória de Bagé
por Miquéli Romero
A história de Bagé começou antes mesmo de a cidade ter esse nome. É a partir dessa perspectiva que os Festejos Farroupilhas de Bagé 2026 têm buscado inserir o município nas celebrações dos 400 anos das Missões. Na manhã de sábado, 19, uma mesa-redonda realizada na Livraria Leb promoveu um diálogo sobre a presença missioneira na região, o patrimônio histórico e a necessidade de ampliar o reconhecimento do Posto de Santa Tecla como parte dessa trajetória.
Com o tema “Posto de Santa Tecla: Bagé nos 400 anos das Missões”, a programação deste ano propõe uma leitura da história local para além dos acontecimentos que tradicionalmente marcam a formação do município. O Posto de Santa Tecla, anterior à construção do Forte de Santa Tecla e à própria constituição de Bagé, aparece como um dos elementos que ajudam a compreender a ocupação e a organização do território.
A atividade reuniu representantes do Núcleo de Pesquisas Históricas Tarcísio Taborda, pesquisadores, integrantes da organização dos festejos, entidades, comunidade e a patrona da Semana Farroupilha, Olga Paz. Para o historiador e presidente do núcleo, Jaime Barbosa, trazer o tema para a programação é uma forma de mostrar à comunidade que a história missioneira também está presente em Bagé.
A pesquisa desenvolvida pelo núcleo em torno dos 250 anos do Forte de Santa Tecla contribuiu para ampliar esse olhar. Segundo Barbosa, ao estudar a origem da fortificação, torna-se necessário compreender o que existia naquele território anteriormente. O posto já era uma estrutura organizada quando o forte foi construído pelos espanhóis no século XVIII.
Nesse sentido, o Posto de Santa Tecla é apresentado como um marco anterior à formação de Bagé. O local possuía estrutura própria, incluindo capela e espaços destinados às atividades da comunidade, além de integrar a rede de produção e abastecimento das Missões.
Uma história que antecede a cidade
A relação entre Bagé e as Missões também passa pela ocupação e pelo manejo do território. O historiador Flávio Cantão explica que a estrutura missioneira dependia das estâncias, áreas destinadas à produção, especialmente à criação de gado, que abastecia as populações.
O Posto de Santa Tecla estava inserido nesse sistema e também ocupava uma posição estratégica em uma região de circulação entre diferentes territórios. A localização contribuiu posteriormente para a instalação do Forte de Santa Tecla e, mais tarde, para a passagem e o estabelecimento de tropas que ajudariam a formar o núcleo que deu origem a Bagé.
A compreensão dessa sequência histórica permite olhar para a cidade para além do chamado mito fundador. Antes da chegada de Dom Diogo de Souza e da formação do núcleo que posteriormente se consolidaria como Bagé, o território já possuía ocupação, circulação e estruturas relacionadas às Missões.
É justamente essa conexão que os organizadores dos Festejos Farroupilhas pretendem colocar em evidência. A proposta é que os 400 anos das Missões também sejam compreendidos como parte da história regional, e não apenas como uma celebração associada aos locais tradicionalmente reconhecidos como missioneiros.
Patrimônio que ainda precisa ser reconhecido
A discussão também trouxe à tona a necessidade de preservar e dar visibilidade aos vestígios do Posto de Santa Tecla. Diferentemente do Forte de Santa Tecla, cuja área pertence ao município, o posto está localizado em uma propriedade privada e ainda possui estruturas de pedra que remetem ao período de sua ocupação.
Para os pesquisadores, o reconhecimento desse patrimônio pode contribuir para ampliar a compreensão da história de Bagé e estimular novas iniciativas de pesquisa, preservação e visitação. Entre as ideias discutidas está a criação de um marco no local que identifique sua relação com os 400 anos das Missões.
A proposta integra um movimento que já vem sendo desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisas Históricas Tarcísio Taborda em torno da história do Forte de Santa Tecla e que, neste ano, ganha uma nova perspectiva com a celebração dos 400 anos das Missões.
Urcamp entre as instituições homenageadas
Durante a programação deste sábado, uma pequena cruz jesuíta foi entregue a participantes da mesa e representantes de instituições como símbolo da participação de Bagé nos 400 anos das Missões.
Entre as instituições homenageadas esteve a Urcamp, juntamente com o Jornal Minuano, o Museu Dom Diogo de Souza e o Hospital Universitário, mantidos pela Fundação Attila Taborda. A homenagem reconheceu o papel de entidades que contribuem para o desenvolvimento de Bagé e para a preservação de sua história e memória.
Representando a Urcamp, o reitor, professor doutor Guilherme Marques Bragança, ressaltou que a instituição pretende contribuir para o aprofundamento das pesquisas e das ações relacionadas ao tema. “Ao mesmo tempo em que reconhecemos o valor desta proposta, já nos colocamos à disposição para a promoção de ações, pesquisas e eventos que possam trazer luz ao tema e garantir a importância cultural e econômica de nossa cidade”, afirma.
Bragança também confirmou a participação da Urcamp na elaboração de uma Carta Aberta de Bagé pelos 400 anos das Missões. Para ele, o reconhecimento também chama atenção para a importância das instituições responsáveis pela preservação da memória regional. “Sem recursos externos, públicos ou privados, temos mantido museus onde a maior parte da história deste município e de nossa região tem sido cuidada ao longo de 70 anos. E esta homenagem representa uma atenção ao fato de que nossa memória tem valor e que é preciso apoiar instituições que fazem sua curadoria”, destaca.
A iniciativa reforça a perspectiva de que a celebração dos 400 anos das Missões pode ser também uma oportunidade para Bagé revisitar sua própria história, reconhecer patrimônios ainda pouco conhecidos e ampliar as pesquisas sobre as diferentes populações, estruturas e processos que antecederam a formação do município.

