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Reinventar: o turismo que ensinou Mariane a enxergar Bagé com outros olhos

Em 30/10/2026 às 16:10h
Miquéli Romero

por Miquéli Romero

Reinventar: o turismo que ensinou Mariane a enxergar Bagé com outros olhos | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
A aproximação de Mariane com o turismo começou por volta de 2006 Foto: Arquivo Pessoal

Há lugares que fazem parte da nossa vida há tanto tempo que, por vezes, deixamos de perceber a beleza que carregam. As ruas pelas quais passamos todos os dias, as fachadas das casas, a arquitetura que compõe a paisagem e o horizonte que se estende para além da cidade parecem comuns aos olhos acostumados à rotina. Para Mariane Santana Carvalho Fernandes, de 63 anos, foi o turismo que mudou essa perspectiva. Mais do que uma nova profissão, a atividade representou a oportunidade de se reinventar, reencontrar propósitos e descobrir uma Bagé que, embora sempre estivesse ali, ainda precisava ser redescoberta.

Professora aposentada, mãe de quatro filhos e guia de turismo, Mariane encontrou na valorização do patrimônio histórico, cultural e natural da região um caminho para continuar ativa e compartilhar com outras pessoas aquilo que passou a enxergar de maneira diferente. Hoje, ao lado do marido, César Fernandes, está à frente da Tchê Fronteira, empresa pioneira no turismo receptivo em Bagé e região, que trabalha com roteiros personalizados e experiências que aproximam visitantes da identidade da Campanha gaúcha.

Uma nova profissão, um novo sentido

A aproximação de Mariane com o turismo começou por volta de 2006, quando se preparava para deixar o magistério. O marido havia realizado o curso de Técnico em Guia de Turismo, no Senac, em Bagé. Interessada pela possibilidade de seguir um novo caminho profissional, ela também decidiu fazer a formação.

Naquele período, porém, a mudança representava mais do que uma escolha de carreira. Mariane enfrentava problemas de saúde, incluindo crises de pânico e ansiedade, e se via sem perspectivas para o futuro profissional. O turismo surgiu como uma possibilidade de reconstrução.

“Quando eu entrei para o turismo, estava saindo de um lugar em que eu me encontrava sem perspectiva nenhuma, porque eu tinha perdido isso em meio às crises de pânico. E o turismo me trouxe isso, me trouxe de volta à vida”, recorda.

A nova profissão abriu portas que ela não imaginava. Depois de se formar, Mariane buscou especialização e passou a atuar em diferentes frentes, incluindo o turismo rural. O interesse pela área cresceu a ponto de levá-la à docência novamente, dessa vez como instrutora de cursos do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).

A partir de uma formação que realizou em Bagé, quando um instrutor ministrou o curso na cidade, ela passou a compartilhar os conhecimentos adquiridos com alunos de outros municípios. Assim, a experiência de aprender se transformou também na oportunidade de ensinar.

“Adquiri outra profissão. Hoje trabalho com turismo e em outras atividades dentro dele. Dou aulas no Senar, em cursos de Turismo Rural em outras cidades. Eu me apaixonei pelo turismo rural e, quando surgiu a oportunidade de ministrar aulas, comecei a dar esse curso também”, conta.

O turismo como possibilidade de recomeço

Ao longo da trajetória, Mariane precisou enfrentar outro desafio de saúde: há cerca de dez anos, recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Ela continuou trabalhando, embora tenha reduzido as viagens durante o tratamento. O período trouxe novas reflexões sobre as prioridades e sobre a maneira como desejava conduzir a vida.

A experiência a fez perceber o que realmente merecia sua atenção e o que já não precisava ocupar tanto espaço em sua rotina. O turismo, entretanto, permaneceu presente.

“Eu me reinventei”, resume.

A palavra, escolhida por ela para definir a própria trajetória, também ajuda a compreender a relação que construiu com a profissão. Reinventar-se foi encontrar novas possibilidades sem abandonar aquilo que lhe dava sentido. Foi transformar experiências difíceis em um percurso de descobertas e fazer da própria cidade um motivo para seguir adiante.

Um novo olhar sobre Bagé

Foi também por meio do turismo que Mariane passou a reconhecer a dimensão do patrimônio que existe em Bagé. A cidade integra o grupo de 176 municípios históricos oficialmente reconhecidos no Brasil e preserva imóveis tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae).

Embora tenha nascido e crescido no município, ela conta que nem sempre percebia os detalhes que hoje procura apresentar aos visitantes. A rotina fazia com que passasse pelos mesmos lugares sem observar a arquitetura, as paisagens e os elementos que ajudam a contar a história local.

“Antes, com a correria do dia a dia, eu passava e não olhava nada, porque estava focada em outras coisas. Não prestava atenção aos detalhes, assim como muitas pessoas, porque nosso olhar está acostumado. Hoje, até o mais simples eu observo e me encanto. As fachadas das casas, por exemplo, são coisas que eu não fazia antes e hoje faço”, relata.

A mudança de perspectiva também alterou sua relação com a paisagem da região. “Como nossa arquitetura é bonita, nossos campos são bonitos. Acho que o turismo é isso: fazer a gente ter outro olhar. Até uma florzinha no meio da praça faz diferença”, afirma.

Para Mariane, essa percepção é um dos principais desafios de quem trabalha com turismo receptivo. Antes de convencer visitantes a conhecer Bagé, é necessário estimular os próprios moradores a reconhecer o valor do lugar onde vivem.

Ela observa que ainda é comum ouvir que a cidade não tem atrações ou atividades para oferecer. Em sua experiência, porém, um passeio conduzido por um guia pode modificar essa impressão.

“Já fiz isso com pessoas daqui e mudei a opinião de algumas. Elas dizem: ‘Nossa, eu nunca tinha percebido isso’. A gente tem um olhar mais apurado e precisa ir mostrando para o outro”, explica.

Nesse processo, Mariane destaca a importância da educação patrimonial, especialmente nas escolas. Ao conhecer a história e os elementos culturais da cidade, uma criança pode levar esse aprendizado para dentro de casa e despertar a curiosidade da própria família.

“Precisamos nos desprender dessa imagem e olhar para o lado para ver o quanto nossa cidade é bonita. Como tu vai apreciar a casa do outro se não aprecia a tua?”, questiona.

A valorização local, segundo ela, começa pelo sentimento de pertencimento. Em suas viagens pelo Brasil, Mariane desenvolveu ainda mais essa convicção. Conhecer outros destinos ampliou sua percepção sobre as diferenças entre as regiões, mas também reforçou o vínculo com a Campanha gaúcha.

“Eu já viajei muito pelo Brasil e, em cada lugar que chego, penso na minha cidade. Bagé é muito mais bonita do que muita gente imagina”, diz.

Experiências que conectam pessoas e histórias

Ao lado de César, Mariane transformou essa visão em trabalho. A Tchê Fronteira nasceu com a proposta de desenvolver o turismo receptivo em Bagé e região, organizando roteiros que consideram o perfil, os interesses e as expectativas de cada grupo.

A intenção é ir além da visita a pontos turísticos. Para ela, a experiência se torna mais significativa quando o visitante compreende o contexto dos lugares, conhece as histórias que os constituíram e estabelece uma conexão com a cultura e com as pessoas que vivem ali.

“O turismo é uma paixão que tenho hoje. Sou focada em fazer o turismo aqui na cidade. Gosto de Bagé, da região, quero que as pessoas venham, visitem e conheçam. Por toda essa cultura que a gente tem, quero construir experiências que vão além de simplesmente conhecer lugares. Procuro conectar as pessoas à nossa história, à nossa cultura e à nossa paisagem”, explica.

O trabalho começa pela escuta. Antes de organizar um roteiro, ela procura entender o que o visitante deseja conhecer. Atualmente, as vinícolas e as experiências relacionadas à produção de vinhos estão entre os principais atrativos procurados pelos turistas. O enoturismo tem ganhado espaço e despertado interesse pela região.

Ainda assim, Mariane procura incluir outros elementos nos passeios, apresentando a história e as particularidades de Bagé. A proposta é respeitar o interesse de quem chega sem deixar de mostrar o que torna o município singular.

Entre os aspectos que mais impressionam os visitantes está a paisagem do Pampa. Para quem vive cercado por prédios ou em regiões de relevo acidentado, a possibilidade de observar um horizonte amplo pode ser uma experiência marcante.

“As pessoas não têm noção do que é o Pampa. Quem mora rodeado de prédios e montanhas, quando chega aqui, se encanta porque consegue enxergar um horizonte que não tem. Uma paisagem que para nós parece comum, para outras pessoas é extraordinária”, observa.

O reconhecimento de quem chega

A atuação com grupos de diferentes regiões e estados também permite que Mariane acompanhe a maneira como Bagé vem sendo percebida pelos visitantes. Para ela, receber pessoas interessadas em conhecer a cidade é uma oportunidade de apresentar uma realidade que nem sempre corresponde às imagens e às impressões que circulam fora do município.

Ao final dos roteiros, o retorno dos turistas costuma ser um dos momentos mais significativos. Mariane conta que reserva um espaço para que os participantes compartilhem suas impressões. Os aplausos, os elogios e, principalmente, os relatos de quem afirma estar deixando Bagé com uma nova perspectiva dão sentido ao trabalho.

“É uma mistura de felicidade e prazer. Quando fechamos o grupo, temos o momento da fala final. Quando somos aplaudidos e elogiados, percebemos o carinho das pessoas. Ouvir alguém dizer que está saindo daqui com outro olhar é muito gratificante”, conta.

A satisfação está em perceber que a experiência ultrapassou a visita aos pontos turísticos. Quando o visitante passa a compreender melhor a cidade, reconhece sua riqueza cultural e leva consigo uma lembrança diferente do lugar, Mariane sente que cumpriu seu propósito.

Qualificação para fortalecer o turismo

O trabalho de profissionais como Mariane ocorre em um momento em que Bagé busca ampliar e qualificar sua atuação no setor. A Secretaria Municipal de Turismo firmou convênio com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para oferecer o Programa de Qualificação e Desenvolvimento do Turismo de Bagé, voltado a segmentos como agências de viagens, restaurantes e hotéis.

Além disso, a agência de Mariane foi uma das 20 contempladas no Rio Grande do Sul pelo programa Receptivos Gaúchos – Promove Turismo RS, iniciativa vinculada à Secretaria de Turismo do Estado (Setur/RS) e à Associação Brasileira das Agências de Viagens (ABAV).

A participação representa uma oportunidade de qualificação e fortalecimento do turismo receptivo, segmento que conecta os visitantes aos atrativos, aos serviços e às experiências oferecidas por um destino.

 

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