Minuano Conecta
Rincão dos Touros é declarado Patrimônio Cultural Imaterial de Bagé
por Redação JM
A canção “Rincão dos Touros”, com poema do bajeense Eron Vaz Mattos e melodia de Luiz Marenco, foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Bagé. A lei, proposta pela vereadora Faustina Campos, foi sancionada pelo prefeito Luiz Fernando Mainardi e também estabelece a obra como Canção Símbolo Tradicionalista do Município.
Conforme o texto legal, a homenagem reconhece o valor histórico, cultural e identitário da composição para a tradição campeira e nativista da região da Campanha. A canção poderá ser executada em eventos tradicionalistas promovidos ou apoiados pelo município, quando pertinente. A lei, porém, não estabelece obrigatoriedade de execução pública nem gera despesa ao erário.
Na justificativa apresentada à Câmara, Faustina Campos destaca a relação histórica de Bagé com a atividade estancieira, a criação de gado, a cultura do cavalo e a condição fronteiriça. O documento aponta a canção como uma representação da cultura campeira local, a partir de referências ao cotidiano rural, à lida com o gado e a personagens ligados à região.
Entre os elementos citados na justificativa estão o movimento da encilha, o pealo, o manejo da tropa e personagens como “Grujo velho”, “Negrinho”, “Dom Felipe” e “Zaragoza”. Segundo o texto apresentado ao Legislativo, essas referências correspondem a pessoas que viveram na região da Campanha, especialmente em Bagé, conferindo à composição também uma dimensão histórica e documental.
A justificativa ainda destaca a expressão “Sou crina grossa, crioulo dos olhos d’água”. Segundo o documento, “crioulo” é empregado no contexto regional como referência a quem é nativo ou nascido e criado na própria terra, enquanto Olhos d’Água corresponde a uma localidade da região. Zaragoza, citado na música como “cria de allá do Uruguai”, também é apresentado como uma figura conhecida na região. O próprio Rincão dos Touros é identificado como denominação de uma cabanha e estância da Campanha.
O texto da lei também relaciona a obra à preservação da memória coletiva e à transmissão da cultura campeira entre gerações. Na justificativa, o verso “a tradição vai alambrando pra o futuro” é associado à continuidade da cultura por meio do trabalho, da oralidade e das práticas tradicionais.
Trajetória
Nascido em Bagé em 15 de dezembro de 1950, Eron Vaz Mattos construiu sua trajetória ligada à cultura campeira. Em entrevista concedida ao Conecta, do Jornal Minuano, aos 75 anos, definiu-se como “galponeiro”, termo que utiliza para expressar sua ligação com o galpão e com a vida rural.
Criado na localidade de Olhos d’Água, no interior do município, trabalhou com gado, arado e carreta. Segundo relatou ao Minuano, a experiência direta com o campo influenciou sua produção artística. “A gente não escreve sobre o que não conhece”, afirmou na entrevista.
A relação com a música começou ainda na infância. O pai tocava gaita de boca e a mãe, violão. Eron aprendeu a tocar acordeon e violão e participou de conjuntos que se apresentaram em bailes, festas e serenatas no interior, além de atividades na região de fronteira e no Uruguai e na Argentina.
A poesia surgiu aos 22 anos, quando estava em Porto Alegre. Desde então, segundo relatou ao Conecta, produziu mais de 160 músicas gravadas, além de publicar sete livros e estabelecer parcerias com diferentes artistas.
Entre essas parcerias está Luiz Marenco. Foi da relação entre os dois que surgiu “Rincão dos Touros”. Eron contou ao Minuano que Marenco recebeu a letra, pegou o violão e criou a melodia de forma espontânea. “Ele pegou a letra, pegou o violão e saiu cantando. A melodia veio na hora. E eu, pintando a parede, acompanhava com a espátula”, relembrou.
A nova legislação também representa, conforme a justificativa apresentada à Câmara, uma homenagem à trajetória de Eron Vaz Mattos e à contribuição de sua produção para o registro e a valorização de referências da cultura campeira de Bagé.

