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Attila Siqueira: a arte que mantém viva a memória e as tradições do campo

Artista autodidata, engenheiro agrônomo e profundo conhecedor da cultura gaúcha, o bajeense deixou desenhos espalhados pelo mundo e um legado preservado em espaços públicos

Em 17/10/2026 às 07:40h
Márlon Castro Posqui

por Márlon Castro Posqui

Attila Siqueira: a arte que mantém viva a memória e as tradições do campo | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Artista autodidata, Attila Siqueira deixou um legado artístico e cultural que ultrapassou as fronteiras de Bagé / Foto: Márlon Posqui

Nas paredes do Centro Administrativo de Bagé, os desenhos de Attila Sá Siqueira ajudam a contar uma história que ultrapassa os limites da arte. As representações do cotidiano campeiro, dos costumes e das tradições gaúchas são parte do legado de um artista que encontrou no desenho uma forma de registrar o universo que conhecia desde a infância. Quase duas décadas após sua morte, suas obras continuam presentes na cidade natal, mantendo viva a memória de um dos grandes conhecedores da cultura regional.

Nascido em Bagé, em 14 de novembro de 1921, Attila Jesus Sá de Siqueira construiu uma trajetória marcada pela dedicação à agropecuária, à preservação das tradições e às manifestações culturais. Embora tenha conquistado reconhecimento pelos desenhos, nunca fez da arte sua principal profissão. Autodidata, desenhava por prazer, reproduzindo cenas do campo com uma técnica própria, desenvolvida a partir da observação e da convivência com o ambiente rural.

A ligação com esse universo começou ainda na infância. Filho de Antônio de Siqueira e Célia Sá de Siqueira, passou parte da juventude em Porto Alegre, mas manteve vínculos com a região da Campanha e com o Uruguai, onde a família possuía uma propriedade rural.

O compositor e pesquisador da cultura gaúcha, Eron Vaz Mattos, que conviveu com Attila e o considerava um grande amigo, recorda que a experiência no campo foi fundamental para a formação de seu olhar artístico.

Segundo Eron, Attila passou parte da infância na estância do avô, no Uruguai, onde teve contato direto com os animais, a vegetação e o cotidiano rural. Essas vivências seriam reproduzidas, anos depois, em seus desenhos.

Para o pesquisador, a fidelidade com que Attila retratava o universo campeiro era uma das principais características de sua produção. Eron o considera um dos três maiores artistas dedicados à representação dos costumes gaúchos no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.

Uma arte construída pela observação

Sem formação acadêmica nas artes visuais, Attila desenvolveu uma maneira singular de desenhar. Utilizou materiais como lápis de cera, nanquim, lápis, canetas e pincéis atômicos, dando forma a personagens, animais e paisagens relacionados à vida no campo.

Eron relembra que o amigo não seguia uma sequência convencional na elaboração dos trabalhos. Os traços surgiam em diferentes pontos da superfície e, pouco a pouco, formavam uma composição. "Ele dava um risco aqui, outro aqui, outro lá em cima e tal, e a gente ali atento, olhando, quando via, o desenho estava pronto", recorda.

A rapidez também impressionava quem acompanhava suas apresentações. Conforme Eron, Attila era capaz de produzir entre dez e vinte desenhos durante encontros culturais, distribuindo os trabalhos entre as pessoas presentes.

Esse hábito contribuiu para que suas obras ultrapassassem as fronteiras brasileiras, chegando a outros países. Apesar do reconhecimento, a comercialização não era seu objetivo. Segundo o amigo, Attila não cobrava pelos desenhos que produzia nessas ocasiões.

Das atividades rurais às manifestações culturais

A relação de Attila com o campo não se restringiu à produção artística. Em 1946, concluiu o curso de Agronomia na Escola de Agronomia e Veterinária de Porto Alegre. No ano seguinte, iniciou sua trajetória profissional na Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul.

Ao longo das décadas seguintes, atuou como técnico, administrador e especialista na criação e seleção de bovinos e ovinos. Trabalhou na Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco) e na Cabanha A Tala, em Dom Pedrito, onde exerceu funções de direção técnica.

Além da atuação profissional, participou de entidades ligadas à agropecuária e de iniciativas voltadas à valorização da cultura e da história regional. Também se destacou como defensor da preservação ambiental, manifestando preocupação com os impactos da exploração do carvão em Candiota e com a utilização de produtos químicos na atividade rural.

Essa diversidade de interesses ajuda a compreender a produção artística de Attila. Seus desenhos não representavam apenas imagens do campo, mas também os conhecimentos acumulados ao longo de uma vida dedicada ao estudo dos costumes, da história e das relações entre o homem e a natureza.

Um legado preservado em Bagé

Parte da memória de Attila Siqueira está preservada no Museu Dom Diogo de Souza. O acervo reúne documentos pessoais, fotografias, desenhos e registros de sua trajetória. Entre os materiais estão fotografias de casamento e um currículo datado de 30 de agosto de 1977, que detalha sua formação, atividades profissionais e participação em exposições agropecuárias.

O museu também abriga a biblioteca que pertenceu ao artista, composta por numerosos livros de seu acervo pessoal. Os materiais constituem importantes registros de sua trajetória intelectual e ajudam a preservar a memória de um homem que transitou entre a ciência, a história e a arte.

Fora do museu, a presença de Attila permanece em espaços públicos da cidade, especialmente no hall do Centro Administrativo Municipal, onde seus desenhos integram a paisagem cultural de Bagé.

Eron Vaz Mattos relembra, porém, que uma das imagens presentes no local já não corresponde integralmente ao trabalho original. Segundo ele, um desenho de carreta foi danificado por problemas na parede e precisou ser refeito. Como Attila já não tinha condições de executar pessoalmente o trabalho no local, forneceu o desenho para que outro artista realizasse a reprodução.

Attila faleceu em 11 de maio de 2007, aos 85 anos, em Porto Alegre. Na ocasião, a Prefeitura de Bagé decretou luto oficial de três dias, reconhecendo sua contribuição para o desenvolvimento do município e para a preservação da história do homem do campo.

Para Eron, que guarda diversas obras e recordações do amigo, a importância de Attila vai além do talento artístico. Ele destaca sua generosidade, seus conhecimentos e a convivência construída ao longo dos anos. "Ele seguramente é uma das pessoas que eu estranho profundamente a ausência", afirma.

Décadas depois, os desenhos que permanecem nas paredes, nas coleções particulares e no acervo do museu continuam a testemunhar essa trajetória. São registros de uma cultura que Attila conheceu, viveu e fez questão de preservar, transformando as experiências do campo em imagens que atravessam gerações.

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