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Um olhar sobre as crenças e práticas do Templo Saturno-Lúcifer

Em 31/10/2026 às 06:26h

por Melissa Louçan

Um olhar sobre as crenças e práticas do Templo Saturno-Lúcifer | Cidade | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Jorge Cruz é o líder espiritual do templo Foto: Suélen Delabari

O nome Lúcifer costuma ser associado ao diabo e ao mal, mas essa não é a interpretação adotada pelo Templo Esotérico Saturno-Lúcifer, em Bagé. Para o grupo, Lúcifer representa a busca pelo conhecimento, a liberdade de pensamento e o questionamento de ideias estabelecidas. É a partir dessa visão que o espaço desenvolve seus estudos e rituais, reunindo referências a diferentes tradições religiosas e esotéricas. Para entender a proposta do templo, é preciso conhecer o significado que seus integrantes atribuem a essas crenças e como elas se refletem em suas práticas.

À frente do espaço está o mestre Jorge Cruz, que se apresenta como estudioso de diferentes caminhos espirituais. Natural de Recife (PE), ele conta que começou sua trajetória religiosa ainda na adolescência, aos 14 anos, no culto à Jurema Sagrada, tradição de raiz predominantemente indígena e nordestina. Depois, passou pelo estudo do budismo e, posteriormente, aprofundou-se no luciferianismo, na Cabala e na alta magia. Formado em Engenharia de Software, Cruz afirma que decidiu se dedicar integralmente à espiritualidade em 2022. O templo funciona há cerca de dois anos e ainda está em desenvolvimento.

A instituição se define como religiosa e acadêmica, de orientação neopagã, e segue a vertente do luciferianismo gnóstico. Para Cruz, compreender essa linha exige, antes de tudo, deixar de lado a associação imediata entre Lúcifer e a personificação do mal: “Para nós, Lúcifer é uma figura arquetípica que traz essa questão da libertação. É a rebeldia direcionada, o questionamento, a liberdade em relação aos dogmas e o livre pensamento”, explica.

Na visão apresentada pelo mestre, Lúcifer, Satanás e o Diabo não são a mesma figura. Segundo Cruz, o nome Lúcifer está associado à libertação das almas e à busca pelo conhecimento e pela sabedoria. Satanás, segundo Cruz, representa o adversário, aquele que se opõe, e está ligado ao que ele chama de “face esquerda do Eterno”, uma referência à totalidade divina. Já o Diabo é associado à representação do mal construída ao longo da tradição medieval. Essas diferenças ajudam a entender a visão adotada pelo templo, que interpreta essas figuras de maneira distinta da tradição cristã.

A visão gnóstica seguida pelo grupo tem uma explicação própria para a criação do mundo. Segundo Cruz, o universo material foi criado pelo demiurgo, uma entidade que, nessa crença, não é o Deus verdadeiro. Para o grupo, Deus está além do mundo físico e é a origem de todas as coisas. As almas humanas seriam parte dessa origem divina, mas estariam presas a corpos físicos. Por isso, a busca espiritual tem como objetivo retornar a essa origem, por meio do conhecimento e de práticas e rituais.

Essa visão também influencia a maneira como os integrantes do templo lidam com os próprios comportamentos. Segundo Cruz, a proposta não é negar os impulsos considerados negativos, mas reconhecê-los e compreendê-los para aprender a controlá-los. A ideia, explica, é que o autoconhecimento faz parte da jornada espiritual.

Mas a compreensão dessas crenças esbarra na imagem que o nome Lúcifer carrega no imaginário popular. Cruz atribui parte do preconceito enfrentado pelo grupo à influência da tradição judaico-cristã e às representações do cinema e da cultura pop, que costumam associar o luciferianismo e o satanismo ao mal. Para ele, apresentar os fundamentos e as práticas do templo é uma forma de tornar essa vertente religiosa mais conhecida.

Estudos, cultos e calendário próprio

A rotina do templo alterna momentos de estudo e celebrações religiosas. O calendário varia ao longo do ano e acompanha festividades e períodos dedicados a diferentes entidades. Entre as atividades estão encontros de leitura, aulas, palestras e cerimônias.

O espaço reúne referências a cultos helenísticos e babilônicos, à bruxaria tradicional europeia, à Quimbanda, à necromancia e a Santa Muerte. Segundo Cruz, cada tradição tem seu próprio contexto e momento de realização. Ele ressalta, por exemplo, que a Quimbanda praticada no local não é definida como luciferiana, apesar de fazer parte das atividades oferecidas.

A formação teórica também ocupa espaço importante. Cruz afirma que o templo mantém uma biblioteca com mais de dois mil livros dedicados ao esoterismo, ao budismo, às religiões e a temas relacionados. Aulas gravadas são disponibilizadas para que os participantes tenham acesso ao conteúdo. “Para que você seja verdadeiramente livre, precisa de conhecimento”, afirma o sacerdote, ao explicar a importância dos estudos para a proposta da instituição.

O templo ainda passa por uma etapa de construção. A intenção, segundo Cruz, é desenvolver um espaço com diferentes santuários e ampliar a estrutura para receber visitantes interessados em conhecer o local e exercer suas práticas religiosas com segurança.

Segurança, inclusive, fez parte da escolha de Bagé para sediar o templo. Na visão dele, a presença de inúmeros espaços dedicados à religião de matriz africana e a abertura e tolerância que identifica no município para manifestações espirituais diversas contribuíram para a decisão de estabelecer o espaço na região. 

O templo divulga seu calendário nas páginas oficiais, @templo_saturno_lucifer. De acordo com Cruz, o espaço está aberto a visitantes interessados em conhecer as práticas, mesmo que não sejam adeptos da religião. A participação exige respeito às crenças e às atividades realizadas no local.

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