Coluna Gol de Placa com Telmo Carvalho
A segunda-feira de Carnaval prometia samba, mas ensaiava réquiem. No Estádio Estrela D'Alva, o Guarany de Bagé recebia o Internacional de Santa Maria pela quarta rodada do sempre constrangedor “quadrangular da morte” — eufemismo dramático para uma fase que expõe, sem filtro, tudo o que foi mal planejado ao longo do ano. O técnico Gelson Conte tinha um elenco tão enxuto que cabia numa reunião dentro de um Fusca. Três rescisões, um volante lesionado, três suspensos após o festival de cartões contra o Esporte Clube Avenida. No banco: um goleiro e quatro opções. Não era estratégia — era ato de fé. Com 14 minutos, 2 a 0 para o Inter-SM. A arquibancada já ensaiava o bloco “Adeus Divisão”. As vaias desciam com mais ritmo que bateria campeã. O Carnaval alvirrubro flertava com a quarta-feira de cinzas antecipada. Mas o futebol, esse roteirista debochado, resolveu brincar. Allan Christian sentiu lesão. Entra Tony Jr. — substituição que normalmente passa despercebida. Não passou. Foi dele a assistência para Vitor Oliveira descontar. O que era irritação virou esperança. Nada como um gol para curar amnésia coletiva. No segundo tempo, o Inter-SM fez o que muito time do interior faz quando está em vantagem: recua, chama o adversário e aposta que o relógio jogue melhor que seus atletas. Chamou o Guarany — e recebeu dois gols. Murilo Cavalcante empatou. O estádio inflamou. E quando a lógica ainda tentava se reorganizar, Tony Jr., o improvável, virou o jogo. O herói fora do roteiro salvou o Carnaval. O Estrela D’Alva saiu do velório para o desfile em minutos. O cinza virou purpurina. A crítica virou aplauso. E a terra arrasada virou “eu sempre acreditei”. Convém, porém, manter os pés no chão. O reencontro acontece no Estádio Presidente Vargas. O quadrangular continua cruel com quem confunde milagre com planejamento. Uma virada histórica resolve o placar — não apaga os erros que colocaram o time ali.
Pelo segundo ano consecutivo, o Guarany escreve seu nome na Copa do Brasil. Não é apenas calendário: é visibilidade, receita, vitrine e afirmação de projeto. Na quarta-feira, 25, o desafio será diante da tradicional Sociedade Esportiva e Recreativa Caxias do Sul, no imponente Estádio Centenário. O Centenário impõe intensidade, pressão da arquibancada e jogo físico. O Caxias é organizado, competitivo e acostumado a partidas grandes. Para o Guarany, será necessário mais do que euforia recente: linhas compactas, concentração máxima e eficiência cirúrgica nas poucas oportunidades que surgirem. Copa do Brasil não tolera distrações. É jogo de detalhe, estratégia e personalidade.
Reforços a caminho? Circulam informações extraoficiais sobre a chegada de um goleiro e um meia-atacante. Se confirmados e regularizados, podem estrear justamente no confronto decisivo. Um goleiro traz segurança num torneio eliminatório. Um meia-atacante oferece o passe vertical, a ruptura inesperada, o chute improvável — aquele detalhe que muda histórias.
Muito além dos 90 minutos
Estar na Copa do Brasil pelo segundo ano consecutivo não é acaso — é construção. E toda construção exige solidez. Que quarta-feira seja mais do que participação: que seja afirmação.
Fraterno abraço e votos de ótimo final de semana

