Custódio Joaquim, o Príncipe do Passo
Foram-se as festas carnavalescas. Muitos rezaram as contrições devidas, cobriram-se das cinzas, benzeram a garganta. E segue a vida. Já não se escutam as baterias, o surdo, nem os tamborins. A tradição recomenda instantes de introspecção e reza. Dentro em breve os santos vão estar cobertos com panos roxos. Os joelhos vão doer nas genuflexões. Olhares aos céus. Três batidas no peito. Encara-se o altar. Graças e louvores. Na saída, um mendigo. Desculpa, só tenho estas moedas. Rápido, a rua.
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Há dezenove anos publiquei nesta coluna um artigo sobre Custódio Joaquim de Almeida, a quem a tradição oral homenageia com a via até o Serro. E que mereceu destaque também em alegorias de uma Escola de Samba, junto com o Saci Pererê.
Cumpridos os tríduos momescos, é instante de ponderação e exame de algumas questões postas. Por ora a agradável sensação de aparecer nossa cidade em rede nacional através de poderosa mídia. Foi bonito. Todavia, algumas afirmações devem ser debitadas mais ao envolvimento e encantamento do episódio carnavalesco que fatos de uma memória consagrada.
É o que ocorre com respeito ao dito Príncipe Joaquim. Com certa ironia, determinado historiador refere que dele a única certeza é o registro de seu óbito em 28 de maio de 1935, “do sexo masculino, de cor preta, profissão entreineur, natural da África...(...), Porto Alegre... onde faleceu com 104 anos de idade, estado civil solteiro, filiação ignorada”. A causa da morte atestada foi uremia e o sepultamento no Cemitério da Santa Casa.
O que se diz, que Custódio era um príncipe desterrado de sua pátria, ignorando-se a causa (expulsão, fuga ou exílio), oriundo da Costa da Mina ou do Ouro ou Benin; sabe-se que chegou ao Rio Grande em 1864, aos 33 anos de idade. Depois de alguns anos em Rio Grande, mudou-se para Bagé, onde consta haver fundado diversos centros com devoção a Ogum (batuque) ganhando fama como especialista no emprego de ervas para a cura de doenças. Em 1901 instalou-se em Porto Alegre na Rua Lopo Gonçalves, onde residiu com 5 filhas e 3 filhos, sem referência a alguma mulher ou mulheres. Diz-se que tinha em sua casa uma verdadeira corte, com mais de 25 pessoas. No fundo da casa uma coudelaria para cavalos de corrida, disputando corridas no Jóquei Clube; no galpão um landô e um Chevrolet, o que era raro, numa cidade ainda com poucos automóveis. Veraneava em Cidreira. A seus aniversários compareciam Borges de Medeiros, pois o príncipe tinha influência eleitoral. Também Getúlio Vargas e Júlio de Castilhos pediam seus conselhos. A festa de seus cem anos foi uma das mais concorridas em Porto Alegre. Tinha 1,83 de altura, forte e extrovertido, fluente em inglês e francês, mas não em português....
Vestia-se bem e nas festas com roupas africanas e condecorações. Mensalmente recebia determinados valores creditados pela Embaixada Britânica, o que leva à conclusão de que abandonara sua pátria e cargo, após acerto com tais autoridades. Eis o homem. E o mito. Que teria influído, de momento concreto e decisivo, nos grandes acontecimentos gaúchos de sua época.
Quanto à presença em Bagé a prova é precária. Basta dizer-se que apenas recentemente, quando se preparavam informações destinadas ao substrato do desfile carioca, encontraram-se restos de um sedizente local e objetos que podem relacionar-se com a existência, ali no atual Passo do Príncipe, de um centro de batuque. E isso quase um século e meio depois da presença de Custódio em Bagé.
Como direi adiante, a passagem dos anos acaba por “enriquecer” a memória das personalidades, acrescentando-lhe alguma feição que a realidade não apascenta.
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Nas plagas australianas nasceu Flor, filha de Stephanie e Henrique Giorgis Dias, a primeira bisneta. Que melhores e mais pacíficos anos a acompanhem.

