José Otávio responde a Borges de Medeiros sobre o General Teles
Bagé, 26 de março de 1899.
Respeitável chefe e amigo Dr. Borges de Medeiros.
De posse de vossa carta de 15 deste mês, redobrei de atividade no sentido de descobrir os intentos dos inimigos da ordem do Rio-Grande em torno do homem que a eles parece talhado para chefe de motim.
Antes da sua chegada ao Estado, tomei certas precauções em vista do modo desusado porque eram feitos os convites, pois até os chefetes federalistas da campanha foram convidados para a recepção do general Telles.
Os gasparistas, mesmo aqueles que se diziam retraídos da política etc, surgiram animados talvez, pela esperança de que o homem seria capaz de mudar a face das coisas e daí o esforço empregado para o brilhantismo da festa, que foi inferior à expectativa.
Passo a transmitir-vos fielmente o que pude colher, embora sem grande importância a respeito do manifestado, bem como peço licença para dizer o que penso sobre o caso: Sei que é intenção do aludido desordeiro não sair mais do Estado, conforme afirmam os seus mais íntimos amigos e tem feito compreender que ao contrário do que se dizia, não estão interrompidas suas relações de amizade com Malet e Cantuaria aos quais faz as melhores referências, conseguindo deles muita coisa, entre elas o ficar sem efeito a transferência do capitão Eugenio Franco. O Rafael Cabeda, que foi chamado por telegrama deve chegar aqui hoje, tendo ocorrido vazamento que o Menna Barreto também viria, o que parece se confirmar. Outros chefetes, como Rua Caldeira, negro Fulião, Azambuja e Chagas, tem vindo a Bagé, nada tendo eu ainda podido descobrir positivamente quais os desígnios de semelhante gente.
Estou crente, porém, que, se há algum plano de perturbação da ordem, este não deve ser ignorado pelos ministros da guerra e ajudante general etc.
Vou cientificar-vos da nossa situação aqui - A guarda municipal é composta de 38 praças regularmente armados e mal municiados. Conto com um bom número de correligionários prontos a prestar serviços e essas condições estou disposto a envidar tudo para sair dignamente de qualquer emergência difícil em que, por ventura, as circunstâncias nos colocarem aqui momentaneamente.
Se julgásseis conveniente ser aumentada a guarda municipal, com auxílio do Estado, embora por poucos meses, prevenir-se-ia muita coisa, atendendo-se que é muito grande o território a percorrer-se neste município.
O atual comandante da guarnição não merece confiança, pois capitulou vergonhosamente, dando na guarnição pela chegada do Telles e fazendo convite oficial a todos os oficiais para as festas. O Corrêa é uma nulidade e está com muito medo do general. Tem, porém se mostrado nossos amigos o Tenente Coronel Ilha Moreira e a maioria da oficialidade de seu corpo, 4º de artilharia e do 31 de infantaria, bem como alguns dos outros corpos aqui estacionados, sendo que aquele comandante (Ilha) está brigado com o Telles e com o Corrêa.
Apesar do convite muito poucos foram os oficiais que assistiram as festas, dos quais suponho que a “Gazeta da Tarde” dará fiel descrição enviada (sic) por um oficial.
Travei relações com o chefe telegrafista J. Thomaz Ramos, distinto companheiro, mas, que infelizmente está no meio de alguns maragatos.
Por isso que não se pode ter confiança no telégrafo, seria muito necessário, como bem lembrou-me o Ramos, que mandásseis uma chave telegráfica, pois somente assim poderei com rapidez e segurança vos informar do que for ocorrendo aqui.
Rogo vos digneis recomendar-me ao ilustre chefe Dr. Júlio de Castilhos.
Podeis ficar certo que estarei alerta e bem-disposto a cumprir vossas ordens.
Vosso amigo e admirador
José Octávio Gonçalves
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Há no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul um “Fundo Borges de Medeiros”, de onde, com acurácia e paciência, o historiador Sérgio da Costa Franco organizou a correspondência de Borges de Medeiros com diversos políticos e de onde provém as mensagens manuscritas enviadas para o intendente José Octávio Gonçalves. Existe ali outras missivas de Borges para diversos bajeenses, inclusive para o intendente Tupy Silveira, A exímia paleóloga
Vanessa Gomes de Campos, a pedido do articulista, organizou as cartas trocadas com José Octavio, em razão de ser o general Carlos Maria da Silva Teles, seu adversário (também se usa a forma “Telles”). Explica a perita que termos sublinhados cabem próprio José Octávio. A palavra latina sic aponta um erro ou equívoco no original. Adaptou-se à ortografia vigente.
O amigo estimado e escritor Gladimir Aguzzi, com sua habitual competência profissional, ante a informação de que o militar estivesse sepultado no campo santo local, ali obteve a informação que realmente fora sepultado em 1899. Todavia, em 1948, o Exército levou os restos para a Catedral de São Sebastião, pendendo detalhes do evento. Assim Teles está em companhia de Silveira Martins, Ângelo Mugnol, e outras personalidades naquele templo histórico, até prova em contrário.

