Veríssimo
Não o pai, mas o filho. Erico -o nome não é acentuado - narra que, certa vez, ao visitar seu avô Anibal (1923) encontrou-o entusiasmado com a leitura de editorial de um periódico maragato de Bagé. E exigiu que o neto o fizesse também, em forma cadenciada, o que obedeceu. Explico que o escrito era de Fanfa Ribas no Correio do Sul. O grande romancista vincula, ainda, nossa cidade à sua iniciação sexual. Certa noite de fevereiro, em Porto Alegre, também em 1923, saiu às ruas afim de estrear sua sexualidade. Durante o passeio encontrou uma rapariga morena, de boa aparência e confiável que o levou ao quartinho de uma casa modesta. Indagada, disse chamar-se “ Déa, de Bagé”.
Já Luís Fernando Veríssimo esteve algumas vezes na cidade para homenagens. Quando dos festejos dos 200 anos do nascimento desta urbe “peguei” uma carona em veículo da prefeitura que traria LF junto com sua simpática esposa. O encontro se dera na casa onde tinham morado Erico e Mafalda Halfen Veríssimo, na Rua Felipe de Oliveira, 1415, Petrópolis: Habitação posterior de Luís Fernando e Lúcia Massa Veríssimo. Cedo para lá fui, onde já estavam funcionário do governo municipal. Todos passaram algum tempo no interior daquele templo da literatura, e a maioria, na biblioteca da família buscavam sentar-se na poltrona usada pelos escritores. Também o fiz, e até hoje busco o fotógrafo bajeense da caravana para obter uma cópia deste flagrante histórico. No trajeto para a fronteira LFV cultivou sua mudez tradicional, trocamos poucas palavras, mais sobre literatura e o Colorado. Era seu hábito desculpado por todos que atribuíam à cabula e timidez. Passou a maior parte da viagem mirando o panorama, ou respondendo os diálogos com a esposa. Assim era ele. À noite, no teatro da Beneficência, foi aplaudido com delírio pelos presentas.
E com razão. Seu “Analista de Bagé” fez o município ser conhecido no país, virando filme e teatro, que assisti no Rio de Janeiro. Foi a primeira edição e exitosa da novel LPM. Recordo naquela época que, identificado em algum local e manifestar minha origem, logo indagavam sobre o “criador do joelhaço”. Levou o reconhecimento histórico desta Rainha da Campanha, como o fizeram Dom Diogo, Conde de Porto Alegre; ou Médici e Collares; como a degola do Rio Negro; como os parlamentares de todas as épocas, como João Cirne e Tarcísio Taborda; e porque não Adão Latorre? Como intelectuais, artistas, atletas, dançarinos, nativistas, autores e atores; políticos de todo o tempo; empresários, professores, servidores, jornalistas, operários, camponeses e fazendeiros que em algum momento ou sempre representaram nossa valentia, a cultura, os costumes, as tradições ou a honra de ser bajeense.
Assim começava uma narrativa de 1981, no primeiro registro da personagem, que continha as quatro primeiras manifestações do Analista junto a outras histórias. Transcrevo as linhas do texto.
“ Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem-educada cada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar. Pues, diz que o divã no consultório analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão. “Buenas. “Vá entrando e se abanque índio velho. “
Esse consultório tem “uma recepcionista eclética, “pois recebe e dá”. Numa hilariante entrevista que prestou ao Coojornal, respondendo provocação de que a bomba do chimarrão: é um símbolo fálico, respondeu “ Símbolo fálico é o cacete”. E indagado se era maragato ou chimango se declarou “Maragato, Guarany, Internacional, Iolanda Pereira, João XXIII, sal grosso em vez de salmoura, tango, mulher ancuda, pinga ardida, fumo de rama, filme de pirata e não ca... sem ler o Correio” . Replicando a pergunta se já havia sentido um bafo quente na nuca, despejou que “Já senti, sim. O bafo da tua mãe que erou de lado. Tu só não leva um joelhaço porque é da imprensa nanica e eu não sou prevalecido”. E como explicava o fato do seu conterrâneo Milito, mais conhecido como general Garrastazu Médici não o ter convidado para suas bodas de ouro, disse “Não me importei. Nossas famílias não se davam. Quando anunciaram que um filho de Bagé era o mais novo presidente da República, meu pai observou. Bem feito, quem mandou sair daqui”.
Pues, como diria o Analista, já (ab)usei do personagem num surto instantâneo. Findava uma palestra promovida pelo IBDFAM sobre Direito de Família, no Teatro da Assembleia Legislativa. Era sobre entidades familiares e estava concluindo a explicação sobre o poliamor, assunto a que se dava seriedade, mas entendia faltar “el gran finale” como recomendava um saudoso amigo, um grande orador. Então, contei:
“Os senhores sabem que agora perto de Bagé, em Aceguá, há shoppings como os de Rivera, onde se compram vinhos, uísques, perfumes, roupas, etc. Estando na cidade, resolvi tomar a !53 para me dirigir à fronteira. Antes de chegar na cidade uruguaia, lembrei que, no trajeto o Flávio Vaz Neto tinha uma estância, “vou dar um abraço no meu querido amigo desde a adolescência e quejandos”, guiei à direita, abri os moirões e fui direto ao galpão, eis que pela hora o dono ali estaria. Qual minha surpresa! Quem chimarreava no meio dos peões, dono e família, estava nada menos que o Analista de Bagé! Feitas a as apresentações, e recíprocos elogios, entrei na roda. Enquanto corria a cuia, narrei meu magistério recente sobre casamento, união estável, famílias paralelas, etc, etc, etc e apeei no poliamor, atual ente apresentado como família, união de pares ou ímpares dos sexos masculino e feminino, misturados em várias aglomerações. Finda a lição, não me sofri em indagar do psicanalista famoso, o que achava deste modismo. O Analista, então, moveu a erva, renovou a água quente e depois de um silêncio obsequioso, chupou com barulho a bebida, e lascou; “ Pues doutor, para mim isto parece uma grande suruba “
A propósito, depois encontrei bons Malbec em Aceguá.

