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Estória de amor

Em 11/09/2026 às 14:35h, por José Carlos Teixeira Giorgis

Loura, muito loura, longos cabelos, pareciam macios, não se precisava dizer que os olhos eram azuis, Complemento natural. Olhar firme, fixo. Soberano. Tinham algo de maresia, mistério, ainda de aceitação secreta. Uma promessa? Parece que sim. Tudo começou num outono amarelado. Tais coisas têm um princípio a que se dará relevo depois, mas não foi diferente de outros namoros. Uma encruzilha de olhares. Duvidava que fosse para ele. Até santo desconfiaria. A gente sente que está sendo mirado. Virou-se. Talvez alguém conhecido. Era possível? Por etiqueta logo se recompôs. Enfim, fora momento de hesitação. Mas com vontade de provar, a incerteza segurava o tempo. A ânsia de presumir, aquele troço: confirmar. Convenhamos. Impressionava a diferença, ela no último grito da moda, essas coisas de micro, midi. Chanel, entendem? Mas, ele? Maduro, desajeitado, apenas um homem comum atrás do dinheiro e do amor, detrás do trem elétrico só está quem não morreu, por que não? Mas estava na braba. Da última vez, para achar os seus, teve de recorrer à Junta. Também o patrão, com perdão da palavra, não respeitava àquelas coisas de mínimo, fundo, férias, repouso, mas na justiça foi outro samba, levou até horas extras, sucumbência. Sei lá, linguagem técnica. Passados meses voltou para a ruim, pouco níquel, já incomodando até os parentes de vila, situação chata, se a vida continuasse assim podia marcar coluna um no desespero, não ia dar zebra.  Mas ainda havia aquele olhar, sinal de que havia alguma esperança, consolo. Chega de azar, seu lixo da vida. E o encontro na porta da loja se repetia. Era batata. De tardinha lá estava ela, sempre na moda, pedindo, não, agredindo com seus tremendos olhos azuis, os cabelos compridos. Isso penetrava, ia lá no íntimo. Revirava. Abatia a miséria, o desemprego, isolamento. Que coisa boa se sentir homem, objeto. Dias passando. Mas de longe não ficava satisfeito. Urgente atrever-se. Encostar. Atravessar a rua. Naquela tarde de bruma, continha-se, ia e voltava, poucos clientes no bazar. Duas ou três palavras. Até soa poesia. Duas palavras apenas. No máximo levava um fora. Terça. Terça é o dia, mãe Luciana ganhará uma vela. Decida-se, seja macho como ensinou teu pai, abotoou a capa de plástico. Travou-se na calçada. E ali estava ela, com seus olhos azuis, cabelos louros, o sorriso cético. Não respondeu, ainda estática. E ele mais perto, mas porque não responde? Não sou palhaço. Me davas bola. Urrava. Os passantes perplexos. Que pensas, não sou palhaço, davas linha. Responde, já aos gritos, tem pena. Responde, responde. Por favor. Vidros estilhaçando. E, naquele entardecer cinza da fulva tarde bajeense, todos assistiam, admirados, aquele homem que se abraçava no manequim da Casa Kalil.

Pois é. Talvez meu primeiro conto. Estava na antologia A Panela do Candal, editado por Correa Martins, Porto Alegre, 1977. Ano que vem se comemoram os 50 anos desta publicação, cuja capa é de Danúbio Gonçalves. Na contracapa, cenas de Bagé da época. No prefácio Ernesto Costa narra de onde saiu o título: a Panela onde habitava, em arroio próximo, “ um monstro andrófago e caolho. Um minhocão terrível que vivo fora”, haveria de competir em longevidade com o britânico monstro do Lago Ness; e que não ficou fóssil, restando apenas a saga do monstro. E, no mesmo lugar, há muitos anos, morou o velho Candal, gaúcho bonachão e prodigo, famoso por seus regabofes. Neste livro, conclui Ernesto, estão reunidos diversos contistas. Alguns nasceram em Bage; outros a ela se ligaram afetivamente de tal modo que é como se fossem comensais da legendária panela bajeense, ao lado do arroio. Porisso, o título foi escolhido de modo unânime. Na orelha da capa se diz que há muito amadurecia a ideia de se publicar algo com os contistas., inéditos ou não da Rainha da Fronteira. Naquele ano, após várias reuniões, o grupo tomou coragem e foram sendo reunidos os trabalhos que cada um julgva expressivo. “Abero, Juca Giorgis, Ramón e Protásio parece ter sido os iniciadores do movimento. Aos contos seus juntaram-se os bageenses que vivem fora da cidade e de pessoas que tendo gozado de seu convívio, tornaram-se bageenses por adoção, finalmente, como homenagem póstuma, os contos e Pedro Wayne e Ernesto Costa se juntaram ao elenco”. Para coroar o empreendimento, Danúbio Gonçalves, exatamente um dos mais expressivos membros do “Grupo de Bagé, nas artes plásticas, acetou o convite para fazer a capa, valorizando extraordinariamente a iniciativa”.  Consta da obra, ainda, fecundo escrito de Wilson Afonso, um dos melhores intelectuais da época. Louvo, ainda hoje, o trabalho do Dr. Orlando de Assis Correa, magistrado que coordenou a organização do livro. Penso, finalmente, que tal iniciativa devia ser repetida, pois somente em raras livrarias, sebos e colecionadores, se acha algum exemplar. Tendo uma editora pretendo analisar patrocínio e possível republicação de A Panela do Candal, em face de sua posição histórica nas letras bajeenses. Participaram da antologia, Ernesto Costa (O Fundo do Fato), Ernesto Wayne (Baile na ponta da noite de chuva e O Espectro no Espelho; Iolanda Abero (Frio e A notícia), João Bosco Abero (Manual dos Namorados e Cocota; JCTG (Estória de Amor, O Encontro e O Elefante; Luís Cândido Campos (Suspeita; Orlando de Assis Corrêa (Chininha, Viagem de Ônibus); Pedro R. Wayne (Rio Negro), Protásio B. Maciel (A Rede e Um Minuto para Elas; Ramón Callo Wayne ( Dormitório Silvestre); Silvia Maria Kopp dos Santos (Noite de Glorinha e Primavera na Janela ) Solón Loureiro Filho (A Colina Violada e O Veredito). Cada texto é acompanhado por biografia do autor. Desconheço se apenas Luís Cândido, Silvia K. dos Santos e o signatário estão vivos. 

“Dizer-se que Hermes Rosa era gigolô talvez fosse de todo apropriado. Mãe viúva a enchê-lo de mimos e a consumir praticamente com ele a pensão do falecido e a renda de duas boas casinhas bem alugadas, isso sim. Amigo das putas lá isso também era. Passava a tarde nas pensões, jogando cartas, tomando mate, entretendo intermináveis amigações e sarnosas amizades. Sólida cultura de charadista e fértil humor inda que fácil, eram virtudes que todos lhe reconheciam, mas das quais parecia não s envaidecer. Agora, de uma coisa sim se envaidecia e se proclamava o melhor da América do Sul: a letra. A letra caprichada, bacana, bonita, tivessem paciência: Era com ele mesmo, com o Hermezinho-das-boas “-  João Bosco Abero, Manual dos Namorados, Antologia A Panela do Candal. 

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